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A categoria intitulada ―dificuldades‖ abarca as subcategorias vinculadas aos principais empecilhos que foram elencados pelos especialistas no que corresponde ao ensino das lutas nas aulas de Educação Física, fato que proporciona implicações tanto à questão da formação profissional, quanto com relação ao uso de materiais didáticos, problemas com infraestrutura, além de outras questões.

Por sua grande frequência de aparição, perspectivas relacionadas às dificuldades provenientes do ensino das lutas fizeram-se presentes e foram alocadas nessa categoria. Ao avaliarem o trato pedagógico do conteúdo das lutas nas aulas de Educação Física na escola (sobretudo no Ensino Médio), os especialistas reconheceram e elencaram uma série de empecilhos, problemas e adversidades que, de alguma forma, dificultam a inserção das lutas na escola. Optou-se por descrever as dificuldades ao longo do texto sem separação em

subtópicos por facilidade didática na apresentação, compreensão e análise das subcategorias. A figura 3 ilustra o gráfico com a frequência de aparição (em porcentagem) dos principais empecilhos elencados pelos especialistas em seus discursos.

Figura 3 – Principais dificuldades elencadas pelos especialistas

Fonte: Elaborado pelo autor a partir das entrevistas com os especialistas

O maior empecilho elencado pelos especialistas foi com relação à formação de professores de Educação Física, sobretudo a formação inicial, considerando-a deficiente no que corresponde ao ensino das lutas na escola e também com relação ao estabelecimento de critérios didáticos (didática, metodologia de ensino, possibilidades pedagógicas, etc.) para auxiliar os professores com formas de ensinar as lutas na escola. Para a especialista 5:

“A principal dificuldade está na forma como as lutas são tratadas na universidade. Se a gente for pensar na escola a formação é a universidade e muitos professores não tiveram contato com lutas durante sua vida particular, alguns tiveram, mas as universidades não me parecem estar sendo tão competentes em trazer uma visão de lutas que seja aplicada na escola e que as pessoas se sintam capazes de compreender uma teoria e uma proposta que seja possível de ser levada para a escola com segurança” (ESPECIALISTA 5).

Essa perspectiva corrobora com a fala apresentada pelo especialista 1 ao relacionar a insegurança do professor com sua defasagem em termos de formação para se abordar as lutas na escola. De acordo com ele: “Eu acho que o maior empecilho é a insegurança do professor.

Provavelmente ele é mal formado, não teve uma formação que mostrasse para ele que é possível adaptar as lutas na escola, e ele fica preso aquilo que ele tem mais segurança”

(ESPECIALISTA 1).

Para o especialista 4, a defasagem em termos de formação profissional e os problemas de infraestrutura são fatores indissociáveis. Este especialista admitiu: “Os maiores problemas são a formação dos professores e, sobretudo, as condições de estrutura. Vamos dizer assim, a combinação das duas coisas” (ESPECIALISTA 4).

Reconhecendo os problemas de formação de professores para abordar o conteúdo das lutas, bem como outros conteúdos, como as danças, por exemplo, o especialista 3 apontou:

“A maior dificuldade está em relação ao professor mesmo. A formação do professor de escola ainda é muito deficiente nessa parte e na parte de dança também, comparando, por exemplo, com o esporte. O maior problema é que a graduação do professor é deficiente. Precisaria ter as lutas em mais semestres, e se no caso das licenciaturas eu acho que cada Estado, cada região devia ser correspondente ao currículo que estão sendo criados. Não entrasse como disciplina optativa como é em alguns lugares” (ESPECIALISTA 3).

De fato, a defasagem em termos de formação profissional, sobretudo a forma como as lutas são encaradas na universidade, principalmente em cursos de formação de professores, foi o ponto mais enfatizado pelos especialistas que são justamente professores que ensinam ou já ensinaram disciplinas vinculadas às lutas em âmbito de Ensino Superior. A especialista 5 questiona: “As disciplinas de lutas, nem todas as universidades têm, e as que têm por vezes são modalidades específicas, e aí nem sempre isso dá uma visão para ser levado na escola. Que lutas seriam estas que vão para a escola?”.

Estas inquietações corroboram com os apontamentos de Del Vecchio e Franchini (2006) que admitem que a dificuldade em tratar os conteúdos das lutas na escola deve-se, em grande parte, à formação do profissional de Educação Física que, em muitos casos, frequenta uma graduação deficiente em relação à esses conteúdos, restringindo-se à apenas uma modalidade (como o judô ou a capoeira, por exemplo), ou mesmo nem havendo a aplicação desses conteúdos no ensino superior.

Para os autores, a disciplina de lutas/ artes marciais no currículo das Instituições de Ensino Superior devem direcionar claramente para a área a qual pretende formar seu profissional, seja a licenciatura no âmbito escolar, quanto o bacharelado no âmbito não escolar e/ou esportivo (DEL VECCHIO; FRANCHINI, 2006). Para isso, são necessárias formas diferenciadas de tratar pedagogicamente as lutas no ensino superior.

A defasagem profissional não é encontrada apenas no âmbito brasileiro. Espartero e Gutierrez (2004) admitem que na Espanha apenas dois porcento dos professores consideram-

se com formação adequada para utilizar as lutas nas aulas de Educação Física na escola. Esse dado ilustra a dimensão da defasagem profissional no que corresponde ao ensino das lutas na universidade.

Da mesma maneira, Correia e Franchini (2010) salientam a escassez de cursos de licenciatura e/ou formação continuada que proponham a tematização das lutas, artes marciais ou modalidades esportivas de combate. Os autores evidenciam ainda ―a importância da produção de conhecimento para alicerçar uma condição mínima de apoio aos docentes, na eminência da elaboração dos saberes necessários á prática educativa‖ (CORREIA; FRANCHINI, 2010, p. 6).

Del Vecchio e Franchini (2006) problematizam sua discussão com relação à formação do profissional de Educação Física para abordar as lutas ao admitirem que o domínio das técnicas específicas de uma determinada modalidade de luta leva entre cinco e dez anos, aproximadamente. Por outro lado, no âmbito universitário, a disciplina de lutas apresenta-se em apenas um ou dois semestres – e isso quando ela está integrada ao currículo, já que muitas vezes ela é considerada uma disciplina optativa ou nem faz parte da grade curricular. Como saída para essa divergência em termos de formação, os autores salientam: ―Seria mais importante que o graduando aprendesse a utilizar a luta/arte marcial como estratégia para atingir o objetivo de um programa de educação física em vez de executar técnicas específicas de um único estilo durante sua permanência no ensino superior‖ (DEL VECCHIO; FRANCHINI, 2006, p. 103).

Sem delongar sobre esta questão, é importante ressaltar que, no âmbito pedagógico, as lutas podem ser vistas tanto como uma metodologia, ou seja, um meio para se ensinar outros objetivos possíveis em um programa de Educação Física escolar, quanto como um conteúdo específico, ou seja, um conjunto de saberes que devem ser ensinados aos alunos ao longo dos anos de ensino. A compreensão dessa questão influi, direta ou indiretamente, em implicações para a prática pedagógica. Acredita-se que ambas as possibilidades precisam ser salientadas, no entanto, é fundamental a elaboração de possibilidades de se compreender as lutas também enquanto conteúdo, tal qual é apontado pelos PCNs (BRASIL, 1998).

Como apontamentos para a formação profissional competente no ensino das lutas enquanto práticas representativas de um universo cultural e motor, Del Vecchio e Franchini (2006) apontam que não é possível assumir a prática isolada de apenas uma ou outra modalidade na esfera universitária. Os autores ainda comentam:

(...) a abordagem nas aulas de Lutas/Artes Marciais dos cursos de Educação Física denominadas ―práticas‖, deve ser a de ―prática da intervenção supervisionada‖, isto é, os alunos do curso de Educação Física devem aprender conceitos, procedimentos

e atitudes que os auxiliem a melhor observar, analisar e avaliar esse tipo de prática corporal de modo a compreender os processos envolvidos em sua aprendizagem e, nesse sentido, assimilarem conteúdos que os possibilitem aprender a ensinar e não meramente a executar as técnicas dessas atividades (DEL VECCHIO; FRANCHINI, 2006, p. 106).

Outra dificuldade elencada pelos especialistas, tendo como frequência de aparição 15%, foi com relação à insegurança do professor, fator citado por três especialistas. O especialista 1 admitiu: “para mim o maior empecilho seria a ação do professor, sua insegurança para ensinar as lutas na escola. Porque adaptar tudo pode ser adaptável”. Da

mesma maneira, a especialista 5 apontou: “o professor tem muito pouca informação sobre o que são as lutas e como é que ele vai ensinar uma coisa que ele não sabe o que é, que ele tem medo, ele não se sente seguro, associa muito com violência e tal”.

A questão do professor não sentir-se seguro para ensinar as lutas na escola está fortemente relacionada com sua defasagem em termos de formação profissional, pois o professor, na maior parte das vezes, opta por ensinar aquilo que ele possui o domínio no trato pedagógico o que, muitas vezes, redunda-se no ensino dos esportes coletivos mais tradicionais, dado sua forte influência na sociedade.

Barros e Gabriel (2011) afirmam que a maior dificuldade para o ensino das lutas na escola está na insegurança em relação ao tratamento desse tema pelo fato dos professores considerarem erroneamente que é necessário ser ou ter sido um praticante de alguma modalidade para desenvolvê-lo na escola.

Como aponta Forquin (1993), o professor só pode realmente ensinar aspectos advindos da cultura de maneira mais amplo que ele conhece, que lhe é familiar, que faz parte de sua compreensão e visão de mundo, aquilo que ele tem domínio, mas, sobretudo, ele só ensinará aquilo que for válido e verdadeiro a seus próprios olhos.

Ou seja, a insegurança no ato de ensinar as lutas na escola origina-se de maneira bastante enfática na falta de domínio desse conteúdo, resultando na pouca abordagem das lutas na escola ou na superficialidade ao serem incluídas por meio de alguns aspectos mais gerais e relacionadas ao senso comum ao longo dos processos de ensino e aprendizagem.

Com a frequência de aparição de 15%, quatro dos cinco especialistas elencaram também a questão da infraestrutura como condição que muitas vezes gera um empecilho para o ensino das lutas na escola. O especialista 3, por exemplo, afirmou: “a gente tem algumas dificuldades, pois as vezes você não encontra a questão do espaço, sabe?”. O especialista 4

também corroborou com essa perspectiva ao admitir que: ―Os maiores problemas se devem, sobretudo, com relação à questão das condições de estrutura das escolas‖. No entanto, este

especialista reconheceu que as condições de falta de infraestrutura não podem se tornar justificativa para o não ensino das lutas na escola. Para ele: “se você for esperar a infraestrutura, sobretudo de escola pública é um negócio complicado” (ESPECIALISTA 4).

Os problemas de infraestrutura coadunam também com defasagens em termos de materiais, elencados por três dos cinco especialistas, tendo como 9% de frequência de aparição. Para o especialista 3: “muitas vezes você não encontra a questão do espaço, você não encontra os materiais que você encontraria em um local específico para ser ensinado a cada modalidade”.

Tanto a falta de materiais quanto as questões de infraestrutura são elencadas por autores como Barros e Gabriel (2011) e Carreiro (2005) ao admitirem que os argumentos mais encontrados para justificar a não inserção das lutas na escola remetem à falta de espaço, de materiais e de vestimentas adequadas. No entanto, tanto os autores supracitados quanto os especialistas analisados, reconheceram que é possível superar estas dificuldades por meio de adaptações (tema da próxima subcategoria analisada).

Outros três temas também emergiram da análise de conteúdo, sendo eles: pouca carga horária para a Educação Física na escola, poucas informações sobre as lutas na sociedade e associação com incitações à violência, todos elencados por um dos cinco especialistas, tendo como frequência de aparição 3%.

Sobre a questão da pouca carga horária para a Educação Física na escola, o especialista 4 afirmou que: “mas dessa história toda, sei que o ensino das lutas caí em diversas limitações, da própria grade, por exemplo”. Este especialista admitiu ainda que

muitas vezes a Educação Física, enquanto um componente curricular apresenta poucas aulas semanais para os alunos de forma que, com uma carga horária reduzida, muitos conteúdos passam a serem negligenciados.

A especialista 5 elencou a falta de informações sobre as lutas na sociedade, afirmando que se as lutas costumam ser pouco vinculadas nas mais diversas mídias, comparado com outros esportes, impedindo que os professores que não são praticantes de alguma modalidade tenham contato sistemático e conhecimentos aprofundados sobre estas manifestações corporais.

Embora essa argumentação tenha sentido uma vez que de fato, comparado com outras práticas corporais mais hegemônicas em termos midiáticos, as lutas não apresentam a mesma notoriedade, há tendências de um crescimento de alguns eventos relacionados às lutas e vinculados às mais diversas mídias, isso porque muitas dessas práticas de lutas são esportivizadas, ou seja, possuem as mesmas características dos demais esportes (RUFINO;

DARIDO, 2011). Esse motivo ilustra ainda mais a importância de se discutir as lutas com criticidade na escola, para que os alunos, ao acompanharem na mídia eventos como estes, tenham condições de discernir sobre os diversos aspectos que tangem estas práticas.

Finalmente, houve o destaque no discurso dos especialistas, sobretudo a especialista 5, sobre a associação com incitações à violência. Esta especialista admitiu que o desconhecimento sobre as lutas, muitas vezes, pode gerar preconceitos como a questão da violência exacerbada que passa a ser relacionada com as lutas. A especialista 5 admitiu ainda que essa relação passa a justificar a não inclusão das lutas na escola.

Outros autores que buscaram a inclusão das lutas na escola também afirmam que a relação entre lutas e violência é uma característica muitas vezes realizada, o que impede o ensino das lutas na escola (BARROS; GABRIEL, 2011; CARREIRO, 2005). As potencialidades educativas das lutas, se bem abordadas pedagogicamente na escola, em nada incitam ou remetem à violência, porém, é preciso destacar o papel de todos os atores sociais da prática educativa para que os conteúdos ensinados – como as lutas, por exemplo – não sejam distorcidos em formas que não se relacionam com uma prática pedagógica crítica, criativa e reflexiva.