Sem encontrar indícios de Deus nas crenças judias nem nas cristãs, a abadessa recorre à análise da razão para refutar o deísmo e atestar por fim a inexistência de qualquer entidade divina. Antes de abordarmos a argumentação da libertina, convém esclarecer que o deísmo90 é
uma doutrina que admite a existência de uma divindade criadora, mas contesta as religiões reveladas e os textos sagrados. Devido à multiplicidade de crenças no mundo e à falta de
86 H.J., p. 207.
87 “Ô comble de contradiction !” (H.J., p. 208).
88 “Tu vois, Juliette, dans quel cercle vicieux tombent les hommes, dès que leur tête s'égare sur ces inepties...
La religion prouve le prophète, et le prophète la religion” (H.J., p. 208), (itálico do autor).
89 Ver Fréret, citado por Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1394, nota 1 da p. 208.
90 Conforme Deprun, “Sade et le rationalisme des lumières”, op. cit., pp. 76-77 e os verbetes déisme e déistes da
Encyclopédie (op. cit., tomo 4, pp. 773-774) e do Dicionário de Trévoux (op. cit., tomo 3, p. 186), que propõe
provas concretas acerca dos preceitos que pregam, os deístas modernos julgam mais seguro se ater à simplicidade da natureza e à convicção de um Ser supremo único, reconhecido por todas as nações. Logo, eles não são nem cristãos nem ateus: embora critiquem os fanatismos e as superstições, fundamentam a moral na perspectiva de penas e recompensas no além. Na visão do deísmo, é como se o mundo fosse um enorme relógio ou um imenso palácio e Deus, o Grande Relojoeiro ou o Grande Arquiteto que montou toda a estrutura, que funciona sozinha conforme leis harmoniosas e estritas. Ainda que a doutrina tenha se propagado rapidamente no século XVIII, ela não formava um sistema fixo e uniforme, pois seus sectários eram majoritariamente homens de letras, que se diziam crentes apenas nas verdades demonstradas pela razão. Como nem sempre eles chegavam a um consenso quanto isso, há várias espécies diferentes de deístas.
Isso posto, Delbène ataca diretamente a base racional que funda o deísmo, desconstruindo toda a lógica interna da doutrina. Assim, ela ensina a Juliette que a razão é a faculdade que a natureza deu ao homem para que ele se dirija a um objeto e fuja de outro proporcionalmente ao grau de prazer ou de dor obtido. Esse cálculo é totalmente submetido aos sentidos, pois é através deles que o homem recebe as impressões de dor ou de prazer91.
Citando diretamente Fréret92, a prioresa afirma que a razão é a balança com a qual pesamos os
objetos e por meio da qual ‒ comparando seus pesos ‒ afastamos aqueles que nos desagradam e aproximamos os que provocam a sensação oposta. Logo, é sempre a aparência do maior prazer que determina nosso movimento93. Em resumo, Fréret94 define a razão como a
faculdade que nos permite comparar o conjunto de objetos presentes e ausentes (que ficam na memória) e escolher o que nos dá mais prazer. A superiora conclui que a razão ‒ tanto no homem quanto nos animais ‒ é apenas o resultado de um mecanismo bastante rudimentar e material95.
Sergio Paulo Rouanet elucida que essa “resposta empirista” foi uma das soluções que a Ilustração propôs para criar uma moral cujos fundamentos fossem laicos. Segundo ele, d'Alembert, d'Holbach e Helvétius diziam: “que o homem é um animal organizado, sujeito a paixões e que se relaciona com o mundo exterior basicamente através das sensações. O
91 “Cette faculté de comparer […] les objets […] pour choisir celui qui nous procure le plus grand plaisir [...] c'est ce qui constitue la raison” (Fréret, citado por Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1394, nota 3 da p. 208). 92 “La raison n'est donc autre chose, ainsi que le dit Fréret, que la balance avec laquelle nous pesons les objets, et par laquelle remettant sous le poids, ceux qui sont éloignés de nous, nous connaissons ce que nous devons penser, par le rapport qu'ils ont entre eux, en telle sorte, que ce soit toujours l'apparence du plus grand plaisir qui l'emporte” (H.J., p. 208), (itálico nosso).
93 H.J., p. 208.
94 Fréret citado por Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1394, nota 3 da p. 208. 95 H.J., p. 209.
fundamento da moral seriam as sensações do prazer e do desprazer, do agradável e do desagradável”96. Trata-se da filosofia sensualista, a teoria do conhecimento à qual aludimos
para contextualizar a crítica de Delbène ao sistema da liberdade durante seu discurso sobre o remorso.
Pode-se dizer que a chefe do convento, na sua refutação do deísmo, expõe as bases desse “racionalismo empirista”, segundo o qual a razão é “um instrumento de vida e de ação”, e não mais uma “faculdade sobrenatural” como era o caso no século precedente97. Deprun
assinala que o “espírito das Luzes é antes de tudo um espírito de liberação” que “se concretiza primeiro por um método intelectual”98. Dessa forma, o especialista opõe o “racionalismo das
Luzes” ‒ um procedimento baseado na experiência, que submete “os sistemas [filosóficos] ao controle dos fatos [da vida real]”99 ‒ ao “racionalismo de Descartes ou Malebranche”100.
Todavia, concernente à visão de mundo desse método, Deprun observa uma clivagem: “o deísmo do Grande Arquiteto” e o “ateísmo no qual a natureza serve-se dela mesma como princípio, apoio e causa”101. Partindo então desse método comum, a abadessa usará a segunda
vertente para refutar a primeira. Voltemos a ela.
Continuando seu raciocínio, Delbène afirma que o primeiro efeito da razão é designar uma diferença essencial entre um objeto aparente102 (aquele que não pode ser visto nem
tocado, pois é uma percepção interna da mente, fruto da especulação intelectual) e um objeto
percebido103 (aquele que pode ser apreendido pelos sentidos, pois é uma impressão causada
por estímulos físicos externos). As percepções representativas de um objeto também podem ser de diferentes espécies: quando mostram os objetos como ausentes (mas que estiveram outrora presentes no nosso espírito), dá-se o nome de memória ou lembrança; quando oferecem os objetos sem advertir o indivíduo da ausência dos mesmos, dá-se o nome de
imaginação (no sentido de ilusão, fantasia). Esta última é a verdadeira causa de todos os erros
humanos, determina a superiora104.
96 Sergio Paulo Rouanet, “Dilemas da moral iluminista”, in Adauto Novaes (org.), Ética, São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria Municipal de Cultura, 1992, p. 150.
97 “[...] rationalisme empiriste où la raison, de faculté surnaturelle qu'elle était au siècle précédent, au siècle de Malebranche, devient un instrument de vie et d'action” (Deprun, “Sade et le rationalisme”, op. cit., p. 78). 98 “[...] l'esprit des lumières est avant tout un esprit d'affranchissement. [...] Cet esprit d'affranchissement se
concrétise d'abord par une méthode intellectuelle” (id. ibid., p. 75). 99 “[...] les systèmes au contrôle de faits [...]” (id., ibid.).
100 “Le rationalisme des lumières par opposition au rationalisme de Descartes ou de Malebranche [...]” (id., ibid., p. 76).
101 “Déisme [...] du Grand Architecte” e “athéisme où la nature se sert à elle-même de principe, d'appui et de cause” (id., ibid.).
102 “[...] l'objet qui apparaît [...]” (H.J., p. 209). Literalmente: “objeto que aparece”. 103 “[...] l'objet qui est aperçu” (ibid.). Literalmente: “objeto que é percebido”. 104 Ibid..
Ela explica melhor: a fonte de todos os erros é supor uma existência própria (real) aos
objetos aparentes, como se eles existissem separadamente da imaginação do homem. Fréret
designa que, quando um objeto nos afeta intensamente, podemos acreditar que ele tem uma presença real (como a ação dos corpos sobre nossos órgãos), sendo que muitas vezes ele tem somente uma existência objetiva105. Essa terminologia é ingrata, mas tudo se esclarece quando
entendemos que a existência objetiva é, na verdade, subjetiva. Trata-se de objetos que existem apenas no interior da nossa mente e não no mundo físico106.
Para simplificar, a abadessa diferencia a existência real da objetiva (subjetiva). A ideia oriunda do objeto aparente é denominada ideia objetiva (subjetiva), por exemplo: o ponto dividido ao infinito. A ideia que nasceu do objeto percebido pelos sentidos é chamada de
ideia real, por exemplo: os corpos e os sólidos físicos ‒ e não os geométricos, vale frisar107.
Jean Deprun, com sua admirável capacidade de síntese, resume a análise da razão enunciada por Delbène e aclara essa oposição entre ideias objetivas (entendidas como subjetivas) e reais (relacionadas à pura sensação física). Leiamos seu parágrafo na íntegra:
“Quanto à teoria do conhecimento, Sade apropria-se do empirismo comum, a despeito de algumas variações, a Fréret, Voltaire, Condillac, Diderot ou d'Holbach. A sensação, diversamente transformada, é fonte e critério de verdade. Nenhuma ideia inata intervém na gênese do conhecimento. As ideias objetivas ‒ subjetivas na língua de hoje ‒, o filósofo deve substituir pelas ideias reais, mais próximas do puro sentir. Sade, aqui, é o homem do consenso e os discursos da Madame Delbène, diretamente transcritos de Fréret, refletem essa vulgata sensualista. Nenhum desvio, nenhum maximalismo mancham seu caso. Notaremos que ele parece ignorar Condillac”108
.
Delbène diz ser bastante comum o engano entre a existência real dos corpos que estão fora de nós e a existência objetiva (subjetiva) das percepções interiores do nosso espírito. Ela observa que nossas percepções devem ser distinguidas de nós e entre elas mesmas quando detectam objetos presentes e suas relações. São pensamentos, na medida em que lembram imagens de coisas ausentes (ausentes no instante, mas apreendidas anteriormente pelos sentidos)109. São ideias quando produzem imagens de objetos que estão em nós mesmos (isto 105 Fréret citado por Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1395, nota 3 da p. 209.
106 Sobre isso, ver Jeangène Vilmer, op. cit., p. 35. 107 H.J., p. 209.
108 “En théorie de la connaissance, Sade s'approprie l'empirisme commun, malgré quelques variantes, à Fréret, Voltaire, Condillac, Diderot ou d'Holbach. La sensation, diversement transformée, est source et critère de vérité. Nulle idée innée n'intervient dans la genèse du savoir. Aux idées objectives ‒ subjectives dans la langue d'aujourd'hui ‒, le philosophe doit substituer les idées réelles, plus proches du pur sentir. Sade, ici, est l'homme du consensus et les discours de Mme Delbène, directement transcrits de Fréret, reflètent cette vulgate sensualiste. Nulle déviance, nul maximalisme n'entachent son cas. On notera qu'il semble ignorer Condillac” (Jean Deprun, “Sade philosophe”, in Sade, Œuvres I, Paris: Gallimard/Pléiade, 1990, pp. LXII- LXIII), (itálicos do autor).
é, objetos aparentes, existentes apenas na especulação)110. Assim, o pensamento trata dos
objetos percebidos e a ideia, dos objetos aparentes. Numa palavra, como dirá Helvétius em
De l'esprit (1758): “pensar é sentir”111. Apesar de Sade aparentemente desconhecer Condillac,
como notou Deprun, é impossível não lembrar aqui do Traité des Sensations (1754). Fazendo uso de uma “ficção metodológica” ‒ a hipótese da estátua que representa um ser humano recém-nascido, cujos sentidos estão fechados por um revestimento marmóreo, mas que serão abertos, um a um ‒, Condillac demonstra como o pensamento é construído através da comparação e da análise das diversas percepções dos objetos externos112 ou percebidos, como
diria nossa abadessa.
Depois desse complexo raciocínio, a libertina chega à conclusão de que foram imaginados certos termos que conviessem de forma geral a todas as ideias particulares que eram semelhantes. Chamou-se de causa todo ser que produz qualquer mudança noutro ser distinto dele. Chamou-se de efeito toda mudança produzida num ser por uma causa qualquer. Para a religiosa, esses termos provocam em nós uma imagem confusa de ser, ação, reação e mudança. O hábito de utilizá-los levou à crença de que era possível haver uma causa distinta de todos os corpos que, sem movimento ou ação, fosse capaz de produzir todos os efeitos imagináveis. Os homens, contudo, nem sempre se dão conta de que os seres, agindo e reagindo sem cessar uns sobre os outros, produzem e sofrem ao mesmo tempo várias mudanças encadeadas. Tal progressão cansa o espírito daqueles que querem encontrar uma causa para todos os efeitos. Com a imaginação fatigada por tão longa sequência de ideias, pareceu-lhes mais fácil remontar diretamente a uma causa primária e torná-la universal. Eis o Deus dos homens, uma fantasia cuja existência é somente objetiva (subjetiva) e que por isso não pode ocorrer fora da mente daqueles que a supõem113.
Finalmente, embora o homem não tenha capacidade de compreender a ligação, a sequência e a progressão de todas as causas, a ignorância de um fato jamais deve servir como razão para fundamentar a crença noutro. Tampouco a admissão de uma ideia absurda prova sua veracidade. Para Delbène, nesse contexto, é mais válido admitir a própria ignorância114.
110 Ibid.
111 “Penser, c'est sentir”.
112 Ver Luiz Roberto Monzani, “O empirismo na radicalidade: introdução à leitura do Tratado das sensações”, in Étienne de Condillac, Tratado das sensações, Trad. Denise Bottman, Campinas: Ed. Unicamp, 1993, p. 16.
113 H.J., p. 210. 114 H.J., p. 211.