Após ter se apropriado dos argumentos de Fréret para demonstrar a “extravagância do sistema deífico”140, Sade faz empréstimos dos capítulos C a CVIII do Le Bon Sens ou Idées naturelles oppposées aux idées surnaturelles (1772) de d'Holbach para refutar a imortalidade
da alma141. A libertina inicia seu raciocínio alegando que a existência da alma é fundamentada
na ideia de que o homem é superior aos animais justamente porque, diferentemente deles, possui um espírito sem extensão. Aqueles que compartilham tal crença, definem essa substância como uma força secreta e desconhecida, distinta do corpo, mas a ele combinada misteriosamente por um efeito da onipotência de Deus. Todavia, se a alma é essencialmente diferente do corpo, além de agir de modo diverso dele, sua união com o mesmo é impossível. A despeito disso, não só os movimentos experimentados pelo corpo têm origem na suposta alma, como as duas substâncias completamente diversas agem sempre em conformidade142.
Essa harmonia é um mistério, já que o homem não vê a alma, conhecendo apenas seu físico. É somente o corpo ‒ enfatiza Delbène ‒ que sente, pensa, julga, sofre e goza, pois todas estas faculdades são o resultado necessário do mecanismo e da organização corporais. Logo, é-lhe evidente que o homem sente, pensa e adquire ideias apenas através dos canais sensitivos ou órgãos materiais do corpo. Porém, muitos acreditam que a alma, mesmo privada de todos os sentidos, possa sofrer, gozar e viver eternamente. Com relação a isso, a libertina reconhece que é da natureza do homem desejar a imortalidade e, por isso, ele insiste nessa existência do espírito. Mas ela também ressalva que um desejo, por si só, não se torna prova
138 O termo é de Deprun: “matérialisme électrique” (“Sade et le rationalisme”, op. cit., p. 79).
139 “Toutes les fois que Sade veut définir objectivement, de façon rationnelle, ce qui est le principe de la vie chez les animaux, chez les végétaux et chez l'homme, et plus généralement le principe du dynamisme de la nature, il a recours à l'électricité” (id., ibid.).
140 “Après t'avoir démontré l'extravagance du système déifique [...]” (H.J., p. 217). 141 Conforme as indicações de Delon, “Notes de H.J.”, p. 1401, nota 2 da p. 217. 142 H.J., p. 217.
de sua realização. Após a morte, o corpo humano vira uma massa incapaz de produzir os movimentos cujo conjunto antes formava a vida143. Assim, se os órgãos ‒ próprios a produzir
sensações e ideias ‒ deixam de existir, o ser é incapaz de agir ou sentir. Da mesma forma, o homem não pode ver sem seus olhos nem ouvir sem seus ouvidos e tampouco degustar sem seu paladar, cheirar sem seu nariz ou tocar sem suas mãos.
Se o espírito fosse de fato uma substância privada de extensão, incorruptível e sem nada em comum com a matéria, como seria possível à alma nascer, crescer, fortificar-se, transformar-se e envelhecer nas mesmas proporções do corpo? A resposta jaz no mistério144.
Com efeito, os teólogos têm um modo estranho de raciocinar, pois quando desconhecem as causas naturais das coisas, inventam motivos sobrenaturais. Entretanto, para se entender os efeitos da natureza, é preciso permanecer na natureza. Além disso, é mais razoável conceber combinações de matéria que produzam o pensamento a espíritos que pensem. Apesar de muitos julgarem que o materialismo desonra o homem, restringindo-o a uma mera máquina, Delbène indaga se seria mais honrado para a humanidade dizer que ela age por impulsos secretos de um espírito que a anima de forma inexplicável. Conclusão: para a abadessa, a superioridade do espírito/alma sobre a matéria/corpo é fundada na ignorância145.
Não obstante, continua a superiora, a crença da vida no além, mesmo sendo uma ficção, poderia ser entendida como vantajosa, pois muitos dizem que impõe limites aos homens e os conduz à virtude. A prioresa, contudo, duvida da veracidade desse fato e ousa afirmar o contrário: esse dogma serve mesmo para tornar os homens loucos, hipócritas, maldosos e irritáveis. Ela encontra mais virtude e princípios morais nos povos que desconhecem tais doutrinas do que naqueles que as fazem a base das religiões. De todo modo, considera mais produtivo educar o povo através da realidade do que por meio de quimeras. Para os legisladores, contudo, parece ser mais fácil alienar as nações com fábulas do que lhes ensinar a verdade, desenvolver-lhes a razão e excitar-lhes a virtude por meio de motivos sensíveis e reais.
A chefe da abadia revela que a fábula da imortalidade da alma foi criada para que os padres pudessem garantir as contribuições dos moribundos. Ao que Juliette obtempera que tal ilusão pode ser muito reconfortante para alguém à beira da morte146. Mas Delbène replica: o
desejo de tranquilizar alguns moribundos não vale a pena de envenenar milhões. Na natureza, nada perece: os indivíduos devem se conformar com o fato de que todos os seres nascem e
143 H.J., p. 218. 144 H.J., p. 219. 145 H.J., p. 220. 146 H.J., p. 221.
morrem dentro da natureza e que os elementos que os compõem simplesmente se reunirão sob outras combinações. Delbène chama tal processo de “transmigração gloriosa”147. Trata-se da
doutrina da metempsicose148 que, em termos gerais, defende que as almas humanas animam
sucessivamente diversos corpos até se purificarem para a entrada no Céu149. Apesar da
abadessa fazer uso de um termo religioso, ela lhe propõe um sentido materialista150,
sustentando que as almas são porções de matéria passíveis de serem sucessivamente reorganizadas. Para ela, a certeza dessa transmutação da matéria é incomensuravelmente mais consoladora que a incerteza do fim divino151. Após a morte, o ser transforma-se nas mesmas
porções plenas de matéria não organizada que existiam antes de seu nascimento. Ou seja, um ser inerte, sem movimento e sem forma. E tais porções estarão prontas para se reorganizar em novos seres de acordo com a conveniência natural152.
Consequentemente, a alma ou o princípio ativo que anima, move e determina o ser humano é “matéria sutilizada”153 a um certo ponto, modo pelo qual ela adquiriu as faculdades
que surpreendem os homens. Nem todas as porções de matéria são capazes dos mesmos efeitos, mas se combinadas com aquelas que compõem o corpo, tornam-se “suscetíveis”154,
assim como o fogo pode tornar-se chama quando combinado com corpos gordurosos ou inflamáveis. Delbène elucida então que alma e corpo formam um mesmo todo, composto por partes iguais, mas no qual as partes grosseiras devem ser submetidas às sutis pela mesma razão que a chama domina a cera: ambas são matéria, mas uma consome a outra155.
Por fim, a alma só pode ser considerada sob dois sentidos: como princípio ativo e
147 “[...] transmigration glorieuse [...]” (H.J., p. 222).
148 A vertente materialista dessa doutrina é estudada em detalhes no capítulo do papa.
149 Conforme a Encyclopédie, op. cit., tomo 16, pp. 556-557. Segundo o Trévoux, através da transmigração o homem renascia de alguma forma e recomeçava uma nova vida (tomo 8, p. 151).
150 Segundo Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1402, nota 2 da p. 222. 151 H.J., p. 222.
152 H.J., p. 223.
153 “[...] matière subtilisée [...]” (H.J., p. 223). De acordo com o Dicionário de Trévoux (op. cit., tomo 7, p. 874), sutil é fino, no sentido de delicado e pouco espesso: “Os fluxos, as emanações do corpo, os vapores são partes muito sutis. Os sabores e os odores consistem no movimento de certos corpúsculos muito finos e sutis que causam impressão nos órgãos do gosto e dos odores. Nada é mais sutil que os espíritos animais. Uma matéria é mais sutil que outra tão mais for divida em pequenas partes e mais agitadas. Quanto mais
sutil, menos resistência ela faz aos outros corpos e mais facilmente ela os penetra. [...] Assim, a palavra sutil é usada em oposição a grosseiro [tosco]. [...] O ar que respiramos no pico de uma montanha é mais sutil que o da superfície da terra. Quanto mais nos distanciamos da terra, mais sutis são as partículas da
atmosfera. Por operações químicas, separamos as partes sutis das grosseiras”. O verbo sutilizar significa portanto refinar a matéria, torná-la mais fina e penetrante, transformando as partes grosseiras (grossières) em sutis (subtiles). A alma seria então uma porção de matéria mais sutil do que o corpo.
154 “[...] susceptibles [...]” (H.J., p. 223). Conforme o Dicionário de Trévoux (op. cit., tomo 7, p. 921),
suscetível é aquilo “que é capaz de receber em si. [...] A matéria é suscetível de todas as sortes de formas”.
A suscetibilidade é “qualidade de quem pode receber tanto coisas corpóreas como incorpóreas”. 155 H.J., p. 224.
como “princípio pensante”156. Em ambos os sentidos, ela pode ser demonstrada matéria com
dois silogismos sem réplica.