1. A dificuldade de abarcar a invenção literária de Sade
Sade traz então à literatura uma proposta que incomoda. Se o marquês já não é um romancista típico do século XVIII, tampouco é um filósofo que frequenta os salões. Consequentemente, estudar sua obra é uma tarefa nada trivial. Se miramos apenas as dissertações, tendemos a deixar de lado aspectos importantes da ficção, gerando incoerências. Se ignoramos a filosofia para nos concentrarmos na narrativa, o romance sadiano também perde o sentido. Talvez por isso certas análises sejam esclarecedoras ao se referirem a um personagem ou a uma questão específica, mostrando-se, contudo, não tão eficazes quando pretendem dar conta de toda a invenção literária do marquês ou mesmo só da Histoire de
Juliette. Tal é o caso da interpretação de Jacques Domenech88, que defende a existência de um
imoralismo sadiano, herdeiro da tradição cristã ‒ por ter fortes aspirações satanistas e fazer uso de muitos argumentos dos antifilósofos ‒ com empréstimos deturpados do Iluminismo. O estudo do especialista é primoroso ao dirigir-se a certos personagens, como Noirceuil e Saint- Fond. Contudo, por analisar unicamente as máximas filosóficas, não convém tanto ao referir- se a Juliette e Clairwil, por exemplo, ou ao próprio autor, cujas ideias podem facilmente divergir das de seus personagens.
Tampouco podemos ignorar a análise da erótica romanesca que faz Jean Marie Goulemot89. Ele constata que os personagens dos romances lascivos do século XVIII “são
88 “[...] l'immoralisme du divin marquis est, à bien des égards, sans négliger ses emprunts aux Lumières ‒ ou plutôt ses détournements ‒, l'héritier de la tradition chrétienne ; par essence, il en demeure tributaire”, Jacques Domenech, L'Éthique des Lumières: les fondements de la morale dans la philosophie française du
XVIIIe siècle, Paris: Vrin, 1989, p. 228. E mais adiante: “[...] toute son œuvre est un calque des ouvrages des
défenseurs de la foi. Aussi représente-t-elle un gigantesque effort pour sapper tous les fondements de la morale laïque des Lumières”, ibid., p. 250.
desprovidos de individualidade”90: sem vestígios de uma “espessura psicológica”91, “não são
mais que desejo e busca febril do gozo”92 e “não apresentam traços específicos que os
diferenciem”93. Não há, pois, para Goulemot, uma polifonia de vozes no romance
pornográfico setecentista. Embora tais características sejam por ele consideradas uma “necessidade funcional”94, um recurso devido ao qual se alcança o efeito de excitação
desejado pela literatura pornográfica, elas não são válidas para a Histoire de Juliette.
O próprio Goulemot percebe claramente que a obra sadiana não se encaixa no padrão dos “romances pornográficos”95, cujo objetivo é unicamente o universo do desejo e não o da
compreensão e o da reflexão. Para um romance tipicamente pornográfico, as dissertações filosóficas dos heróis sadianos seriam um “defeito”, uma forma de fugir do assunto que resultaria na dispersão do leitor. O discurso do marquês, conforme argumenta, não pretende portar excitação, mas verdade. A dissertação filosófica, portanto, “não somente contradiz” os efeitos da pornografia, como “desvia toda a obra, tornada heterogênea, de sua finalidade primeira”96. Por fim, os enunciados teóricos são “considerados inúteis, incongruentes e
perturbadores”97 para o leitor que deseja tão somente o gozo.
A leitura pretendida aqui não é esta que Goulemot descreve e corroboramos com as precisões de Matos: “sem sombra de dúvida o romance sadiano não é do gênero”98; de Delon:
“Sade é tedioso para seus leitores apressados e para os consumidores de pornografia”99; e de
Henri Coulet: “os romances de Sade, como se sabe, são alinhados entre os romances ‘filosóficos’, não entre os romances libertinos”100. Goulemot parece traçar o percurso
contrário ao de Domenech. Ao centralizar sua análise nos aspectos da narrativa pornográfica, ele desconsidera a importante relação entre filosofia e erotismo existente na obra sadiana. Pois é certo que a Histoire de Juliette pretende incitar tanto excitação quanto reflexão, mas não como uma verdade infalível. Sade, como constatou Delon, aprecia mais o confronto e o paroxismo do que a afirmação de máximas irrefutáveis.
no século XVIII, trad. Maria Aparecida Corrêa, São Paulo: Discurso Editorial, 2000.
90 Id., ibid., p. 156. 91 Id., ibid., p. 157. 92 Id., ibid.. 93 Id. , ibid., p. 167. 94 Id. ibid.. 95 Id. ibid., p. 112. 96 Id., ibid., p. 113. 97 Id., ibid..
98 Franklin de Matos, “O leitor lascivo”, in Jornal de Resenhas: de abril de 2001 a novembro de 2002, v. 3, São Paulo: Discurso Editorial, 2002, p. 2149-2152.
99 “Sade est ennuyeux pour ses lecteurs pressés et pour les consommateurs de pornographie” (Delon, “Introduction”, Œuvres I, op. cit., p. LIII).
O problema é que o romance filosófico já é, por si só, um gênero cuja estética é extremamente paradoxal por articular, como indica Marilena Chauí101, uma conciliação entre
opostos: entre teoria e eloquência, verdade e ilusão, “homem de gênio” e “homem sensível”. E quando se trata de uma obra anônima de Sade, a questão fica ainda mais espinhosa. Além das contradições típicas do gênero, é preciso lidar com os encadeamentos de um sensualismo extremo, uma teoria e uma prática particulares à obra do marquês e que, da forma que ele as desenvolve, não são encontradas nem nos romances filosóficos nem nos libertinos.
2. A filosofia submetida à voz do devasso
Em vista de todos esses entraves, parece-nos fundamental estudar os heróis sadianos, individualizá-los e, a partir disso, articular as relações entre o processo de construção do sujeito romanesco e a elaboração das dissertações filosóficas. Vimos que, a partir do momento em que a fala do autor mistura-se com a do personagem, durante o processo de criação romanesca, a lógica pura perde-se, pois surge um novo falante que, através da enunciação, expõe sua personalidade. Portanto, o discurso dos celerados apresenta um ponto de vista específico a respeito do mundo criado pelo marquês. Através daquilo que Maurice Blanchot chamou de filosofia de base102 do pensamento sadiano ‒ o interesse particular e o egoísmo
integral ‒, cada protagonista é elaborado de modo a enunciar uma teoria própria.
Apostando na polifonia, entendemos os devassos como peças dentro de um grande jogo de ideias. Com efeito, é fácil notar que eles vivem em constante discussão: julgam seus comparsas e enxergam neles defeitos que acreditam não possuir. Clairwil e Juliette refutam duramente a teologia do Ser supremo de Saint-Fond. Este, por sua vez, critica o ateísmo das colegas. Juliette torce o nariz para as profanações e blasfêmias de Clairwil, considerando-as uma atitude infantil para um ateu. Tampouco aceita o paradoxal “feminismo” da amiga. Noirceuil, Saint-Fond e Clairwil censuram o entusiasmo da protagonista, exigindo que ela aja com mais sangue-frio durante os crimes. A aprendiz julga incoerente o erotismo cerebral que seus mestres exigem na teoria, mas não cumprem na prática. Apesar das lições contra os vínculos humanos, ela apaixona-se por alguns de seus cúmplices e mistura o afeto à carreira do crime.
O enorme contraste entre os libertinos mostra que o marquês submetia a filosofia iluminista a um processo de subjetivação individual através do trabalho de construção de seus
101 Marilena Chauí, op. cit., p. 9. 102 Blanchot, op. cit., p. 19.
heróis. Pois não é nada descabido pensar que Sade utilizava a voz de seus vilões para testar as diferentes teorias que estavam sendo discutidas em seu tempo. Ao se trabalhar com os escritos do marquês, é preciso ter sempre em mente, como bem enfatizou Matos, que “o século XVIII não nega as construções lógicas, mas deseja que permaneçam secretas”103 e que “por trás da
desordem, há uma unidade de preocupações. Ou uma cadeia secreta”104.