Com isso, os heróis malvados do romance setecentista destacam-se e fascinam o leitor bem como suas vítimas118. E não é surpreendente que eles sejam tão sedutores, pois suas
qualidades são abundantes. Para ser celerado, é indispensável executar um trabalho que exige inteligência e observação119. Acumulando experiências e conhecimento do mundo, o malfeitor
opõe-se à mediocridade e à fraqueza, e impõe-se na literatura como um ser de energia, capaz de grandes ações, ainda que destrutivas. “Aos olhos do ‘enérgico’, a natureza humana é admirável, ‘mesmo quando é, às vezes, atroz’ ”120, diz Jacques Chouillet sobre a fascinação de
Diderot pela impulsão paradoxal do homem de gênio às grandes ações. Nas suas cartas privadas a Sophie Volland, o enciclopedista argumenta acerca da ausência de fronteiras claras entre o bem e o mal, substituindo tais categorias pelas de energia e de inércia121.
A “energia celerada”, frisa Delon, é “uma virtude latente que Diderot admira nos
116 Id., ibid., p. 408.
117 Ver Michel Delon, L'idée d'énergie, op. cit., p. 473 e p. 481. 118 Versini, Laclos et la tradition, op. cit., p. 157.
119 Id., ibid., 123.
120 “Aux yeux de ‘l'énergique’, la nature humaine est admirable, ‘même quelquefois quand elle est atroce’ ” (Jacques Chouillet, Diderot, poète de l'enérgie, Paris: PUF, 1984, p. 13).
121 Michel Delon, L'idée d'énergie, op. cit., p. 382. As cartas são citadas por Delon, ambas escritas durante o outono de 1760.
piores criminosos”122. Nas cartas supracitadas, o filósofo confessa que sempre foi um
apologista das paixões fortes123:
“Que elas me inspiram admiração ou medo, eu sinto fortemente. As artes de gênio nascem e se extinguem com elas. São elas que fazem o celerado e o entusiasta que o pinta com suas verdadeiras cores. Se as ações atrozes que desonram nossa natureza são cometidas por elas, é por elas também que somos levados às tentativas maravilhosas que a restabelecem”124
.
Diderot exalta os grandes crimes, pois os compara às ações sublimes: ambos, para ele, têm o mesmo caráter de grandiosidade. Um incendiário é tão excepcional quanto aquele que se lança ao fogo para salvar vidas. Racine, embora maldoso na sua vida privada, era um escritor genial125. No entanto, o filósofo considera a crueldade e a violência “uma energia mal
empregada” e acredita numa legislação que seja capaz de “tornar as paixões benéficas”126.
Paixões benéficas? Não exatamente. O que se vê na literatura do fim do século XVIII é o contrário: os infortúnios se disseminam e “a energia celerada confunde-se com a pulsão romanesca”127. O personagem malvado passa a ser valorizado como um “modelo de vontade”
e “grandeza selvagem”: o vício torna-se uma qualidade de “ordem superior”128. E enquanto a
energia celerada impõe a sua vontade e triunfa, a energia sensível se refugia na própria consciência, contentando-se com o “deleite de se saber e de se sentir virtuosa”129. Assim como
o orgulho e a revolta na figura de Satã podem fascinar aqueles que acreditam em Deus, o talento e a engenhosidade no crime convergem para uma “apologia do malévolo”130, para uma
exaltação da “energia da maldade”131. Não é à toa que o crápula de Clarissa encanta, apesar de
fazer da crueldade um esporte132:
122 “C'est finalement une vertu latente que Diderot admire chez le pire des criminels” (id., ibid., p. 478). 123 “J'ai de tout temps été l'apologiste des passions fortes” (Diderot, carta a Sophie Volland de 31 de julho de
1762, citada por Delon, ibid., p. 383).
124 “Qu'elles m'inspirent de l'admiration ou de l'effroi, je sens fortement. Les arts de génie naissent et s'éteignent avec elles. Ce sont elles qui font le scélérat et l'enthousiaste qui le peint de ses vrais couleurs. Si les actions atroces qui déshonorent notre nature sont commises par elles, c'est par elles aussi qu'on est porté aux tentatives merveilleuses qui la relèvent” (id., ibid.).
125 Ver Delon, ibid., pp. 385-386.
126 “Diderot ne considère toute cette cruauté, cette débauche de violence que comme une énergie mal employée et veut croire qu'une législation saurait rendre les passions bénéfiques” (id., ibid., p. 384).
127 “L'énergie scélérate se confond avec la pulsion romanesque [...]” (id., ibid., p. 473).
128 “Diables et brigands apparaissent comme des modèles de volonté et d'énergie. [...] Ce que le monde appelle vertu n'est que médiocrité et le vice, grandeur sauvage, peut apparaître comme une qualité d'ordre
supérieur” (id., ibid., p. 482), (itálico nosso).
129 “La scène sensible exaspère l'antagonisme : entre une énergie sensible qui se réfugie dans la pure conscience de soi, dans la délectation de se savoir et de se sentir vertueuse, et une énergie scélérate qui s'affirme dans le réel et s'assure un triomphe concret” (id., ibid., p. 473).
130 “[...] apologie du méchant [...]” (id., ibid., p. 462). 131 “ [...] « énergie de méchaceté » [...]” (id., ibid., p. 470).
“Lovelace [...] aparenta possuir as exatas qualidades das quais Clarissa sente falta em seu meio: um senhorio generoso, uma ‘pessoa de leitura, juízo e bom gosto’ e, ainda mais, seu cortejo é motivado, em primeiro lugar, não por um interesse econômico, mas por uma genuína admiração pessoal pela beleza e pelas realizações de Clarissa”133
.
E o que falar de Valmont? Se Lovelace faz uso da brutalidade e continua atraente, o libertino de Liaisons dangereuses (1782), engajando-se na tortura moral, tão ou mais cruel, é tão ou mais fascinante:
“O tom não é mais aqui o de Richardson, mas quase o de Sade, visto que Valmont se ocupa em degradar sua conquista. Madame de Tourvel torna-se a escrava de quem ele se serve e ele triunfa em meio ao horror: ela o recebe de joelhos trêmulos, sucedem o terror, o sufocamento, as convulsões [...]. A brutalidade de Lovelace está ainda longe da maldade de Valmont, para quem fazer sofrer torna-se um princípio e a tortura moral, uma arte. O sedutor de quem tínhamos um pouco de vontade de rir tornou-se aterrorizante”134.