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Poder-se-ia fazer a apologia das vantagens das TIE sobre todas as outras indústrias, do ponto de vista do conhecimento e do retorno económico. No entanto, para além daquelas facetas, o aspecto ambiental é crescentemente importante. Com efeito, o desenvolvimento de software e a

concepção de sistemas electrónicos não são confrontadas com os custos ecológicos que a indústria tradicional origina.

Quando se fala em desenvolvimento sustentado referem-se não só os aspectos da continuidade do emprego, da sua qualidade e da sua remuneração, mas também da qualidade do ambiente, sem comprometer as perspectivas das gerações futuras.

As TIE estão correntemente presentes em quase todas as áreas de actividade conhecidas. A sua importância estratégica advém exactamente desse quase dom de ubiquidade, pois estão em toda a parte. Sem as TIE dificilmente assistiríamos à progressão do desenvolvimento tecnológico como o que temos assistido nas últimas décadas.

Através dos sistemas disponibilizados pelas TIE, os ciclos de desenvolvimento e lançamento no mercado de novos produtos são substancialmente encurtados (CAD/CAM, CIM). Permitem ainda um maior controlo da produção e distribuição, bem como das operações de aprovisionamento.

Soete100 (1997) refere que "as TIE desempenham um papel essencial na «codificação» do conhecimento, ou seja, na sua transformação em «informação» que poderá ser incorporada posteriormente, em novos bens materiais (máquinas ou produtos de consumo) ou facilmente transferível através de canais de comunicação."

Nesta perspectiva, os países que conseguirem não descolar da linha da frente, conduzida (mais uma vez) pelos países mais desenvolvidos e com melhores sistemas de educação e formação, poderão preparar os seus recursos para "abastecer" as novas empresas que se irão constituir à "sombra" do novo modelo económico que surge no horizonte.

100Structural change, competitiviness and employment: the impact of innovation,

A Finlândia foi exactamente um dos países que se preparou para este "combate". Sten-Olof Hansen101 assegura que "a inovação é uma questão de atitude", por isso, a Finlândia experimentou nos últimos dez anos uma mudança profunda na sociedade, nomeadamente no que respeita à mentalidade. Só é possível poder inovar (isto é responder à dinâmica dos desafios) se existirem recursos humanos bem preparados, sendo o sistema educativo o primeiro responsável por essa preparação, que posteriormente tomará a forma de desenvolvimento empresarial.

A divulgação da Internet e mais concretamente da Web, tem permitido que zonas remotas entrem de novo nos mapas, abandonando assim o esquecimento a que estavam lançadas. Através de e-mail ou de páginas de informação, zonas geográficas, pessoas ou grupos de pessoas mostram o que fazem e o que pretendem, de uma forma eficiente e independente da cobertura dos serviços postais tradicionais, ou do acesso a grandes meios de radiodifusão ou de imprensa escrita. Este fenómeno, em associação com o próprio processo de desenvolvimento das telecomunicações móveis, acelerou a comunicação proporcionando o intercâmbio de ideias e o associativismo, independentemente das distâncias físicas.

O crescimento acelerado da comunicabilidade informacional e as potencialidades disponibilizadas pela Web, para expôr ao mundo ideias e produtos comercializáveis, veio trazer a necessidade de reflexão sobre as novas formas de divulgação e de marketing. Essa reflexão justifica-se pelo impacto que esses novos processos irão provocar nas próprias empresas e no relacionamento com os diversos intervenientes na sua actividade.

A informação essencial para o cliente tomar a decisão, a prontidão no atendimento das reclamações, um site dinâmico e rápido, uma actualização constante das informações que têm uma vida efémera, são pontos fundamentais para capturar a atenção de uma clientela volátil, como é a do tipo

101 Professor da Universidade de Vaasa, citado por Fernandes, José (1999), "Competitividade e inovação", in Economia e Perspectiva, Jul/Set-1999, p.87.

B2C102. A qualidade dos produtos e a sua entrega atempada são condições importantíssimas para a sobrevivência da empresa conectada à Web, como canal principal de escoamento da sua actividade.

Estas movimentações do mercado e dos seus agentes levam (talvez ainda não com a intensidade103 que alguns desejariam) a uma procura intensa de intérpretes dessa nova “linguagem”. Esta pesquisa é estonteante, tendo em alguns países, como os EUA por exemplo, ocorrido uma inflacção dos salários como resposta a essa procura desenfreada de especialistas de TIE ligadas à

Web. Não só os indivíduos como as empresas de TIE, que antes apostavam

noutras direcções mais tradicionais, estão agora apostados em seguir de perto esse “filão de ouro”.

Pensamos, no entanto, que as empresas que crescem repentina e abundantemente apenas com o propósito de produzir simples "páginas" para a

Web ou disporem de infraestruturas de domiciliação de "páginas" para outras

empresas, por si só não serão os “tijolos” suficientes para construir uma “nova economia” em Portugal. Para isso necessitarão desejar ir mais além. A especialização e a produção de conteúdos multimédia, será um caminho possível, é no entanto imprescindível incutir nos candidatos a empresários, no domínio das tecnologias de informação, que é necessário criar. Dominar a quantidade enorme de ferramentas COTS e investigar no sentido de criar novos produtos, sejam ou não evoluções de produtos já existentes, mas que tenham uma marca própria, acrescentem valor e estejam preparados para a internacionalização.

Em nosso entendimento, a “nova economia” veio precipitar a realidade já conhecida desde o advento da automatização das empresas, iniciado por máquinas simples, ligadas a processos de comunicação. Referimo-nos

102

B2C-Business to Consumer, Empresa para Cliente. Fórmula do e-business para denominar a relação entre a empresa e clientes finais individuais. O acrónimo B2B, denomina abreviadamente o negócio

Business-to-Business, isto é, de empresa para empresa. 103

A Forrester Research estima que o comércio electrónico em Portugal deverá movimentar em 2000 cerca de 80 milhões de contos. Para 2001 são estimados 180 milhões e mais de 400 milhões de contos em 2002. De referir que nestas estimativas a componente mais significativa é a B2C, sendo que a B2B só em 2000 começa a ter algum significado, prevendo-se que em 2002 venha a atingir os 50 milhões de contos. (Semana Informática, “Portugal Multimédia visto à lupa”, 4-Outubro-2000, p.12).

concretamente à divulgação do telefone e telex, da fotocopiadora, dos terminais de computador, do fax, e, mais tarde, das máquinas de escrever eléctricas e de processamento de texto, das centrais automáticas de telefone, televisão por satélite, dos pc’s e redes de computadores.

Todas estas inovações foram introduzidas gradualmente, tendo sido adoptadas pelas empresas, frequentemente com reticências e raramente de uma forma consequente e integrada. O objectivo primordial na sua adopção foi principalmente poder dispensar colaboradores que dessa forma se tornavam redundantes, como já tinha acontecido repetidamente, no passado, durante a revolução industrial.

A preocupação com a reconversão atempada dos trabalhadores é essencial e algumas contradições existem neste ponto. Se por um lado quantos mais anos de experiência acumulada, mais “saber” o empregado possui, por outro lado, uma maior saturação e uma maior tendência para a cristalização e aversão a outros métodos de trabalho ou de gestão. Donde o equilíbrio é necessário e sobretudo o desenho da actividade em cada fase da idade ou da carreira do trabalhador.

As mudanças tecnológicas têm proporcionado o espaço para a discussão sobre a evolução de carreira dos trabalhadores, mas as preocupações não se têm centrado nesse aspecto, ou pelo menos, não são visíveis resultados tangíveis dessas preocupações. O paradoxo existente actualmente na Europa quanto ao emprego espelha bem esta questão. A um défice no número de especialistas em tecnologias de informação104, contrapõe- se um excesso de mão-de-obra também especializada, não necessariamente em TI, resultante de todos os movimentos de concentração que têm varrido a Europa, tanto em subsidiárias de empresas multinacionais, como originárias da própria UE.

Em Portugal, no que respeita particularmente às empresas de tecnologias de informação e da comunicação, as estatísticas mostram105 que

104 Expresso, "James Galbraith: O pleno emprego não passa pelas TI", 22-Julho-2000. 105

Departamento de Estatísticas do Trabalho, Emprego e Formação Profissional do Ministério do Trabalho e Solidariedade / Observatório das Ciências e Tecnologias, 1999; referido por Rodrigues, Mata

em 1997 existiam 3.810 empresas neste sector, empregando 75.738 trabalhadores (3,6% da população activa), sendo 9.213 diplomados a exercer actividade no sector (10,7% do total de diplomados no país). Face a anos anteriores, a taxa média de crescimento (entre 1995 e 1997) para as empresas no sector foi de 7,8%, a que correspondeu um incremento de 1,3% no número de empregados. Registou-se no entanto, um acréscimo substancial de diplomados, tendo-se verificado uma taxa de crescimento média de 14,1%, superior à taxa de crescimento de trabalhadores formados superiormente ao nível nacional, que rondou os 10.6%.

Na opinião de Rodrigues, Mata e Alves (2000), a administração pública poderá ter um efeito impulsionador e simultaneamente pedagógico, no processo de divulgação e generalização do uso (e efectiva utilização das vantagens concedidas por estes meios) das tecnologias de informação e comunicação.

De assinalar que estas estatísticas têm apenas em conta os especialistas em tecnologias de informação e comunicação que exercem a sua actividade em empresas do sector, não abrangendo assim, todos os especialistas que se encontram em empresas de outros sectores e na administração pública.

Se a análise tomar em linha de conta apenas as empresas de TIE de base tecnológica (assumindo-se como definição de base tecnológica, “a empresa com capacidade de efectuar I&D própria, trabalhando por sua iniciativa na concepção e desenvolvimento de produtos e marcas próprias, com vista à sua comercialização directa, através de agentes ou parcerias”), o universo fica muito mais reduzido.

Uma das associações representativas destas empresas, a NETIE106, aponta para um crescimento consolidado do mercado, nos próximos anos, para e Alves (2000), "Os recursos humanos na Sociedade de Informação", in Cadernos de Economia, Janeiro/Março-2000, pp.47-50.

106 Núcleo Empresarial de Empresas de Tecnologias de Informação e Electrónica. Organização empresarial do sector que agrega cerca de 120 empresas, o que representa aproximadamente metade das empresas portuguesas de base tecnológica, que facturaram em 1999, um valor próximo dos 150 milhões de contos, isto é 50% do tototal do sector, exceptuando a actividade de multinacionais.

as empresas portuguesas, que parecem agora determinadas na internacionalização.

Até ao momento as áreas geográficas de expansão têm sido preferencialmente a Espanha, o Brasil e os PALOP. A afinidade linguística e a proximidade física, têm guiado as empresas portuguesas de TIE na actividade além fronteiras, o que não tem impedido as congéneres de se aventurarem em mercados mais sofisticados e exigentes, como o Japão e os EUA. A Altitude Software, a Critical Software, e muitas outras hight-tech de Portugal têm celebrado parcerias com gigantes americanos na área das tecnologias de informação, como é o caso, por exemplo, da Microsoft.

Pensamos que o mais difícil tem sido criar a respeitabilidade e o reconhecimento pela qualidade técnica dos produtos concebidos em Portugal, na área das TIE, onde não apresenta referências significativas do passado. Dado que esta visão se tem alterado, com a conquista do terreno já efectuada, as empresas portuguesas que encontrem nichos de mercado com produtos inovadores ou que se integrem em cadeias de valor extensas e de alta rendibilidade (como é o caso da indústria aeroespacial) têm agora melhores possibilidades de sucesso na sua internacionalização.