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3   Teoretisk  rammeverk

3.3   Organisasjonens  relasjoner  til  offentligheten

Nesta fase da pesquisa, recorreu-se aos constructos teóricos de Reich, especificamente em relação ao conceito de couraça caracterológica, e aos fundamentos do Contato Improvisação, além da experiência da pesquisadora como dançarina e psicóloga clínica. A observação das imagens relativas às posturas corporais dos sujeitos possibilitou uma série de constatações e inferências. Porém, antes de referenciá-las, cabe esclarecer que, ainda que não tenha sido possível coletar as imagens finais de A. e M. (por motivo já exposto), optou-se pela manutenção e análise dos dados obtidos. Tendo em vista que participaram desta fase específica, julgou-se que este procedimento seria mais ético, considerando-se o investimento dos sujeitos.

Assim, em relação a A., constatou-se que este apresenta a base (pés e joelhos) projetada para dentro, ou seja, seu primeiro ponto de apoio encontra-se desalinhado. Subsequentemente, ocorre uma compensação na região pélvica, com sua projeção e o retesamento das nádegas. O segmento abdominal continua a projeção, evidenciando o relaxamento e uma considerável dilatação da musculatura desta região. Na parte superior, observa-se que os ombros caídos e arqueados para dentro diminuem o espaço interno da região torácica, causando a diminuição da capacidade respiratória. Aqui, retomamos a

103 colocação de Reich relativa à supressão da respiração como forma defensiva de suprimir sensações e emoções causadoras de sofrimento. Respirar menos equivaleria a viver de forma reduzida. Não obstante o relaxamento dos ombros, os braços permanecem numa postura tensionada, levemente separados do corpo, lembrando a imagem de um robô. O deslocamento do eixo postural, por sua vez, é compensado pela contração das vértebras cervicais e leve anteriorização da cabeça, que permanece caída para uma das laterais.

A partir do conceito das couraças caracterológicas, pode-se inferir que, em A., ressaltam-se os seguintes segmentos encouraçados:

1. A região dos olhos e testa, expressos por sua imobilidade e por uma máscara facial rígida, relacionada à função de controlar a expressão emocional;

2. O segmento do tórax, abrangendo sua musculatura longa, ombros e omoplata; a caixa toráxica, braços e mãos. Este anel de couraça provoca a inibição da respiração e o retesamento dos movimentos. Serve para inibição do riso, da raiva, da tristeza e do desejo. Esta caracterização vai ao encontro do aparente embotamento afetivo de A., que somente manifesta emoções, como a raiva ou o choro, de forma paroxística e por ocasião de suas crises;

3. O encouraçamento do diafragma estende-se ao músculo diafragmático, estômago, plexo solar, órgãos internos e músculos ao longo das vértebras torácicas baixas. Caracteriza- se pela acentuada curvatura da espinha para frente. Como foi observado em A., seu desalinhamento postural é compensado pelo retesamento da coluna cervical. Este bloqueio gera a dificuldade de expiração e serve para inibição da raiva extremada. De fato, considera- se que o histórico clínico de A., ao evidenciar uma triangulação crônica do intenso conflito parental, permite inferir que este abuso emocional pode ter gerado a raiva intensa que A. expressa por meio das crises, nas quais agride fisicamente a família, de forma violenta. Neste ponto, cabe uma reflexão sobre o aspecto funcional da crise, no sentido de fazer emergir conteúdos tão rigidamente recalcados, dando-lhes vazão;

4. A couraça abdominal abrange seus músculos longos e a musculatura das costas. Este retesamento dos flancos evidencia uma tensão reativa ao medo de um ataque, além da inibição do rancor. Considerando o abuso emocional sofrido por A., faz sentido temer novos ataques, contraindo-se;

5. Este anel de couraça abrange a pélvis, sua musculatura e os membros inferiores. Caracteriza-se por uma rigidez da pélvis, que é retesada para trás e saliente. Os músculos

104 glúteos ficam tesos e doloridos. Todas estas características podem ser observadas na postura de A. e serviriam para inibição da ansiedade, da raiva e do prazer. Em relação a este último, destacam-se os freqüentes conflitos de natureza sexual, referenciados por A., no contexto da psicoterapia.

Em M., apesar do alinhamento da base, nota-se uma retração que se inicia na altura dos joelhos e alcança a região da pélvis, forçando-a para trás. A conseqüente compensação ocorre pela contração das vértebras lombares, que, por sua vez, gera uma projeção da coluna torácica. Também se ressalta uma assimetria em relação às regiões superior e inferior do corpo, e um aumento desproporcional na região pélvica. Esta característica é referenciada na literatura, Reich (2004), como um sintoma de estagnação da energia orgônica, denunciando possíveis bloqueios sexuais. Como M. participou apenas da sessão de registro imagético da postura e da imagem corporais, não foi possível acessar sua história clínica, tampouco promover um percurso corporal. Assim, a análise deve se restringir às informações coletadas. A postura de M. caracteriza-se, ainda, pelos ombros caídos e braços distendidos ao longo do corpo, por uma máscara facial marcada pela tensão buco-maxilar, e por uma intensa dificuldade de sustentar o contato visual. Assim, sua postura sugere o encouraçamento da região dos olhos, cujas características já foram relatadas na descrição de A.; do segmento da boca, manifestado pelo maxilar preso; além dos segmentos torácico e pélvico.

F. também possui uma base muito aberta, que se estende até os joelhos. Contudo, a despeito deste aspecto, apresenta um bom alinhamento postural, devendo estar relacionado às práticas de esportes e lutas, que referenciou ter praticado por muito tempo. Seu ponto de tensão parece localizar-se na região da boca, manifestando retesamento do maxilar, tiques e tremores, além do comportamento de apertar os lábios. A couraça neste segmento pode ser associada a um comportamento descontínuo em F., marcado nas sessões por um modo falante, com voz forte e alta, ao passo que no contexto familiar, tende a permanecer calado, segundo manifestaram seus familiares. Sua expressão facial, frequentemente risonha e provocativa, distoa da tensão buco-maxilar. Observou-se que sua postura, após as sessões, estava mais „empertigada‟, com a coluna mais ereta, evidenciando o aumento do espaço inter-vertebral, que pode estar associado aos alongamentos exercitados. Destacou-se também uma mudança em sua aparência, com um novo corte de cabelo.

J., por sua vez, já apresentava e permaneceu com uma base muito aberta. Este dado sugere que a aquisição de uma base mais alinhada exigiria um período maior de trabalho

105 corporal, acentuando-se o grounding. De fato, a base é onde tudo começa (pensando tanto nas instâncias psíquica quanto corporal), e seu desalinhamento provoca sucessivas compensações no processo de verticalização. A postura corporal de J. possui grande similaridade com a de A., inferindo-se que deve possuir uma couraça caracterológica semelhante. Ressalta-se que a qualidade energética em ambos também é parecida. J., ao final das sessões, apresentou um aumento do espaço torácico, levantando levemente os ombros, ou seja, abrindo mais seu peito, e possivelmente, deixando-se experenciar mais as emoções. Esta consideração parece associar-se à significativa mudança apresentada entre as suas produções plásticas inicial e final. À semelhança de F., também investiu em sua aparência, mudando o cabelo e a barba. Sua expressão facial também estava mais leve e menos tensionada ao fim das sessões.

Já R. possui a base apenas levemente aberta, com os joelhos projetados para fora. Destaca-se em sua postura, que, anteriormente às sessões, apresentava uma maior projeção da pélvis e contração da coluna cervical. Com o realinhamento postural, ganhou mais espaço na coluna, alongando seu eixo vertical. Também pôde-se perceber a abertura dos ombros, aumentando o espaço torácico, que se relaciona a uma maior capacidade de respirar e de experimentar a vida. De fato, como já foi anunciado, R. foi o membro do grupo que manifestou maior entusiasmo com o trabalho. E, a despeito de suas dificuldades, evidenciou progressos em seu repertório corporal, apresentando um olhar mais vivo e a cabeça mais erguida. Suas couraças parecem abarcar os segmentos da boca e da pélvis, sendo que R. manifesta tensão nestas áreas e conflitos de ordem sexual.