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2   Metode

2.2   Diskusjon  og  refleksjon

2.2.2   Intervjuer

A hipótese do Eu-Pele foi publicada por Didier Anzieu, em 1974. Complementando-se aos dados epistemológicos já relacionados, as concepções psicanalíticas freudianas tiveram valor primordial para o desenvolvimento de suas idéias. O autor considera o conceito de Eu- corporal de Freud como precursor da idéia de Eu-pele. Para introduzir seu conceito, Anzieu relaciona a importância do papel da pele no decorrer das fases do desenvolvimento libidinal. Retomando o estágio da amamentação e dos primeiros cuidados com o bebê, refere que, em Freud, a experiência da região bucofaríngea, que delimita a zona erógena na fase oral, é marcada, não apenas pelo prazer da sucção, mas pela sensação consecutiva da repleção. Ao passo que a boca se estabelece como o lugar privilegiado de um contato diferenciador com o mundo, e de passagem entre este e o meio interno do organismo, é pela repleção que o bebê experimenta a sensação de preenchimento e plenitude, de uma massa central, e de um centro de gravidade. O autor recorre ainda a Schulz, especificamente ao seu método de relaxamento, que busca induzir indivíduos a reviverem em seu corpo, primeiramente o calor, que estaria relacionado à passagem do leite; e depois o peso, equivalente à repleção originada da massa de alimento ingerido. O retorno a tais sensações primitivas eliciariam o relaxamento almejado.

A estas duas experiências, a sucção e a repleção, Anzieu acrescenta uma terceira, que naturalmente estaria presente na situação de aleitamento, e que consiste no contato corporal com a mãe ou cuidador. Neste contato, o bebê é segurado, carregado, manipulado, esfregado, acariciado, apertado contra o corpo da mãe, sentindo seu calor, cheiro, movimentos, e tudo isto, geralmente acompanhado por uma efusão de palavras, vocalizações e sons característicos, como o estalar dos lábios ou da língua, dentre outros vários. Este repertório de atividades, segundo Anzieu,

conduz progressivamente a criança a diferenciar uma superfície que comporte uma face interna e uma face externa, isto é, uma interface que permite a distinção do de fora e do de dentro, e um volume ambiente no qual ela se sente mergulhada, superfície e volume que lhe trazem a experiência de um continente (p. 58).

26 Tendo em vista que o seio é o vocábulo normalmente utilizado pelos psicanalistas para designar a realidade completa vivida pelo bebê, e que é considerado como o primeiro objeto mental; Anzieu pondera sobre o mérito de Melanie Klein, ao demonstrar que, sobre este objeto, se operam as primeiras substituições metonímicas: seio-boca, seio-cavidade, seio- fezes, seio-pênis, seio-bebês rivais, dentre outras. Também é em direção a este seio simbolizado que confluem os investimentos antagonistas das pulsões de vida e morte, ligadas às sensações de fruição ou de frustração.

Contudo, Anzieu contesta que, acentuando exclusivamente a fantasia, Klein negligencia as qualidades próprias da experiência corporal, provocando, inclusive, reações como a de Winnicott (1962), que ressaltou a influência decisiva do holding e do handling da mãe real. E ainda que, insistindo sobre as relações entre certas partes do corpo e seus produtos, como o leite, o esperma, os excrementos, Klein novamente negligencia um aspecto fundamental: o todo unificador que liga aquelas partes entre si, ou seja, a pele. Portanto, Anzieu chama a atenção para a exclusão da dimensão da superfície do corpo na teoria psicanalítica de Klein. Pondera que inúmeros de seus discípulos, sensíveis a esta falta, elaboraram uma miríade de conceitos a fim de atenuá-la, nos quais o Eu-pele encontraria sua representação.

Desta forma, para Anzieu, o „infans‟ adquire a percepção da pele como superfície, quando das experiências de contato de seu corpo com o corpo da mãe e no quadro de uma relação de apego tranqüilizadora. Chega, assim, não somente à noção de um limite entre o exterior e o interior, mas também à confiança necessária para o controle progressivo dos orifícios. Esta é possibilitada por meio de um sentimento de base que lhe garanta a integridade de seu envelope corporal. Este conceito de envelopamento é associado ao de „continente psíquico‟ de Bion (1962), ilustrado em sua experiência clínica, quando a despersonalização aparece ligada à imagem de um envelope que pode ser perfurado, suscitando a angústia de um escoamento, de um esvaziamento de sua substância vital, metaforizada por pacientes. Anzieu também recorre a Henri Wallon para assinalar que, sendo a pele o lugar das sensações proprioceptivas, estabelece-se como de fundamental importância no desenvolvimento do caráter e do pensamento, sendo, por exemplo, um dos órgãos reguladores do tônus.

Argumenta, ainda, que a superfície do conjunto de seu corpo com o de sua mãe - cujos cuidados produzem estimulações involuntárias da epiderme - proporciona ao bebê experiências tão importantes em sua qualidade emocional, quanto às experiências ligadas à

27 sucção ou excreção (em Freud) ou à presença fantasmática de objetos internos (em Melanie Klein). Estes gestos maternos seriam primeiramente recebidos pelo bebê como uma estimulação, configurando, posteriormente, uma comunicação. Nas palavras do autor: a

massagem se torna uma mensagem. E acrescenta que a aprendizagem da palavra requer

principalmente o estabelecimento prévio de tais comunicações pré-verbais precoces (p.62). O

autor frisa a importância da erotização da pele, integrada como preliminar da atividade sexual adulta, como papel primordial na homossexualidade feminina; e na formação da sexualidade genital, que somente seria acessível àqueles que adquiriram o sentimento mínimo de uma segurança de base em sua própria pele.

Desta forma, por Eu-pele, Anzieu designa uma representação de que se serve o Eu da criança, durante fases precoces de seu desenvolvimento, para se representar a si mesma como o Eu que contém os conteúdos psíquicos, a partir de sua experiência da superfície do corpo. A instauração do Eu-pele responde à necessidade de um envelope narcísico, e assegura ao aparelho psíquico a certeza e a constância de um bem-estar de base. O autor argumenta que, ao considerar-se, a partir de Freud, que toda atividade psíquica se estabelece sobre uma função biológica, a ocorrência do Eu-pele apoiaria-se em três funções específicas. Na primeira, a pele funcionaria como bolsa, contendo e retendo em seu interior os bons elementos armazenados, como o leite, os cuidados, as comunicações. Em sua segunda função, a pele seria a interface que demarcaria o limite com o fora, fornecendo a barreira que protege contra penetrações perigosas vindas do mundo externo. Enfim, como terceira função, a pele configurar-se-ia, juntamente com a boca (que também é uma especialização da pele), como um lugar, um meio primário de comunicação com os outros, de estabelecimento de relações significantes, e conseqüentemente, de inscrição dos traços advindos destas relações. Concluindo, Anzieu postula que é a pulsão de apego que, se precoce e suficientemente satisfeita, proporciona ao bebê a base para manifestação do „élan integrativo do Eu‟ (Luquet, 1962), ou seja, o Eu-pele cria a possibilidade do pensamento.