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4   Analyse  og  diskusjon

4.2   Dialog  eller  elektronisk  oppslagstavle?

4.2.6   Engasjement  som  relasjonsbygger

A história de Paola foi um dos casos a que o advogado havia se referido. Ele iniciara contando que a professora chorava muito em decorrência da depressão e não conseguia fazer os relatos, tremia e não conseguia assinar os documentos, tamanho era o abalo emocional gerado pelo episódio de assédio moral que havia sofrido na escola. Contou que a professora era chamada de louca, que as pessoas a isolavam e faziam o sinal da cruz pelas suas costas quando ela passava. Mas me alertou de que talvez a professora não quisesse falar sobre o caso, pois estava muito descrente com tudo após ter perdido a ação judicial na segunda instância. Ele mesmo já havia tentado falar com ela novamente sobre o tema, mas ela se recusara.

Vários elementos dessa história chamaram a minha atenção prontamente. Primeiro, as acusações de que a professora era louca. A loucura é uma acusação recorrente na SEE-DF, escutada por mim desde outros tempos, sempre com o objetivo de desqualificar o(a) “oponente” e, como mostrarei, bastante operatória nos episódios de assédio moral não só na SEE-DF, mas também em outros lugares, como mostra Hirigoyen (2009) nos depoimentos dos trabalhadores e trabalhadoras francesas assediadas. O abalo emocional da professora em

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Como ressalvado, todos os nomes foram alterados para resguardar as identidades dos(as) professores(as) e demais colaboradores(as) com a pesquisa. No Apêndice A, apresento um índice onomástico referente às histórias de assédio moral apresentadas.

62 decorrência do assédio dava indícios de que passara por um processo grave, que deixara suas marcas.

Entrei em contato com Paola e, como o advogado me disse, ela não se mostrou muito receptiva para falar. Disse que sofreu muito, foi um período difícil e que não queria falar dessa história. Quando falei que também era professora, que havia passado por um processo de assédio moral na SEE-DF e contei um pouco das minhas histórias – que, segundo ela, eram “fichinha” –, o tom da conversa mudou. Paola passou a contar alguns episódios pelos quais passou na escola e o como vivenciou essas situações de assédio. Mesmo assim, não quis mais compartilhar maiores detalhes da sua história e disse que só em retomar esse tema ela já ficava ofegante e sentia falta de ar. Segue então o relato da história a partir do que Paola me contou e o que foi narrado na sua ação judicial.

As ações contra Paola aconteceram nos anos 2008 e 2009. Ela afirma que foi “usada” pelos demais membros da direção escolar para serem aprovados na prova da gestão compartilhada para direção escolar. Como era estudiosa e tinha alguns contatos na Universidade de Brasília, foi convidada para compor a chapa para a direção, mas, assim que ganharam, passou a ser desconsiderada. Segundo Paola, nenhuma atribuição da direção lhe era repassada, pois tudo era centralizado entre a diretora, o supervisor administrativo e o secretário escolar. Afirma que era sujeita ao isolamento, ao controle das suas ações pelo supervisor, à difamação, e relegavam para ela as piores tarefas, como repreender os alunos em uma comunidade com alto índice de criminalidade.

Uma informação importante, apresentada por uma das testemunhas a favor de Paola no processo judicial contra a direção escolar, é a de que ela estaria se sobressaindo, mostrando muito serviço, o que teria incomodado os servidores da secretaria e da direção. Tal informação é complementada pelo relato de Paola afirmando que, como vice-diretora, havia solicitado o horário de funcionamento da secretaria escolar e questionado o fato de que o horário de atendimento ao público era insuficiente, o que sequer foi escutado pelo secretário e pelo supervisor administrativo. Além disso, segundo essa testemunha, ela passou a cobrar mais disciplina dos alunos, sendo por isso apoiada pelos professores, mas não pela direção.

Segundo Paola, o secretário escolar espalhava pela escola que ela era louca e gesticulava pelas suas costas, fazia o sinal da cruz quando ela passava, caretas, caras de nojo,

63 balançava negativamente a cabeça. A diretora e o supervisor administrativo andavam de braços dados com os alunos em regime de liberdade assistida43 e davam lanche para eles com o objetivo de amedrontá-la e facilitar a sua saída da escola. Eles também incentivaram os alunos a fazerem uma comunidade no Orkut, chamada de Um dia eu mato a Paola. Não tomaram nenhuma providência imediata quando a escola foi pichada com os dizeres “Para a cachorrona Paola” e deixaram os alunos entrar na escola e ter acesso à pichação para somente depois ordenarem que fossem apagadas. Além disso, o supervisor passou ao lado de Paola rindo e cantarolando o refrão da conhecida música Só as cachorras.

Todas essas ações foram feitas com a permissão da antiga Diretoria Regional de Ensino, pois, segundo Paola, ela mesma tentou pedir ajuda, mas não foi bem recebida, uma vez que estavam todos juntos. Paola afirma que “tentou fazer tudo certo, pois só queria o bem dos alunos, mas só recebeu o assédio em troca”. Segundo Paola, eles queriam que ela pedisse a exoneração do cargo de vice-diretor(a) da escola.

Segue um trecho do depoimento do professor Quirino registrado na ação ajuizada44 por Paola sobre o comportamento do chefe da secretaria e da diretora:

[...] que o depoente tem a nítida impressão de que a autora estava se sobressaindo e mostrando muito serviço, situação não aceita pelos demais servidores da secretaria e da Direção na mencionada escola; que a autora ao iniciar suas atividades como vice-diretora tratou de por conduta disciplinar aos alunos, no que recebeu apoio dos professores da escola; que os servidores da secretaria e da Direção da escola passaram a desrespeitar a autora tendo inclusive o depoente presenciado a manifestação do chefe da secretaria referindo-se a autora como louca; que a senhora diretora manteve- se omissa a estas manifestações [...]; que o depoente já presenciou o Sr. Chefe da secretaria da escola gesticulando e fazendo gracejos após encontrar com a autora no ambiente da escola; que tais gestos com conotação pejorativa foram praticados diversas vezes pelo chefe da secretaria [...].

Retornei à escola em que Paola passou por esse episódio para entrevistar a diretora. Ao começar a conversa com a atual diretora, perguntei sobre um episódio que denominei de

grave assédio moral, considerando todo o relato de Paola, bem como as consequências do

assédio dolorosamente narradas por ela, a depressão, o pânico, em suma, o adoecimento psicológico. A diretora que, na época era coordenadora pedagógica, disse que não foi grave assim e apresentou o seu ponto de vista.

43 Regime de liberdade assistida são alunos e alunas em situação prisional que são dispensados um turno para

frequentarem a escola.

64 Segundo Yeda boa parte do desentendimento decorreu dos problemas psicológicos de Paola, da forma como compreendia as coisas. Afirma que ela já havia tido problemas em outra escola, que ali não era o primeiro lugar. Lembrou-se de um incidente do dia da avaliação das atividades semestrais, no qual Paola não sabia que era dia de avaliação pedagógica e culpou a direção por não a ter avisado. Hoje que Yeda está na direção, entende que o cotidiano é corrido, que, se ela folgou em um dia, ela tem de se inteirar do que aconteceu na escola no dia de sua folga assim que ela retorna. Yeda afirma que, em diferentes momentos, aconselhou Paola a tentar resolver o problema com a direção, mas ela não a escutava. Yeda não acredita que existe uma “vítima coitadinha”. Ela entende que o problema do assédio é partilhado pelos dois lados. Com relação a Paola, Yeda afirmou que sua colega tinha algum problema psicológico para não reagir; segundo seu relato, alguma coisa Paola tinha, pois não era normal. Acredita que, se Paola foi perdedora na segunda instância do processo ajuizado, foi porque realmente não houve assédio moral.

Yeda me informou que o antigo supervisor administrativo citado por Paola era o atual supervisor pedagógico da escola, e que a diretora na época havia passado pelo processo de

readaptação funcional, mas que também permanecera na escola. Procurei por Frederico, o

supervisor pedagógico, que se dispôs prontamente a falar sobre o caso. Segundo Frederico, ele, juntamente com a diretora e com o secretário escolar foram acusados de chamá-la de louca, de isolá-la, de fazer o sinal da cruz nas costas da professora, de não tomar providências imediatas para apagar a pichação “Paola cachorrona” e de expor o seu nome ao ridículo. Indignado, afirmou contundentemente que Paola mentiu ao dizer que, quando ele foi verificar a pichação, ao passar ao seu lado, cantou o refrão da música Só as cachorras.

Pichação na escola é algo que a gente fala que é comum. É muito comum, apesar de todo o trabalho que a gente faz, acaba que uma hora ou outra alguém vem e entra e picha. E fizeram uma pichação com o nome dela colocando o nome dela “Paola cachorrona”. Fizeram isso cedo na entrada do turno às 7h20. Eu só chego às 9h, tenho um horário diferenciado, porque eu fico até o final. Ela colocou que eu teria visto essa pichação e não teria tomado providências de imediato, ou seja, não teria ido lá e corrido para apagar. Ela citou que eu expus o nome dela ao ridículo, eu! Entendeu? Eu, como supervisor administrativo, deveria ter corrido lá e apagado para não deixar o nome dela lá. A gente apagou o nome dela, só que não foi assim de repente, foi lá correndo e apagou. Tinha um rapaz aqui pintando a escola, a gente esperou ele chegar e quando ele chegou, ele apagou a pichação. E ela usou isso como se fosse um assédio, como se eu tivesse deixado o nome dela ao ridículo para que todos os alunos vissem. E ela falou também que, quando a gente foi verificar a pichação, que eu cantei a música “das cachorras” para

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ela, e isso é mentira, é mentira, ela não tem prova nenhuma disso [batendo na mesa com a caneta], eu falei isso na cara dela, eu falei para o juiz, eu falei para todo mundo, ela usou isso. (Fala de Frederico.)

Segundo o professor, Paola utilizou como testemunhas um grupo de professores que não gostava da direção, e já estava “premeditando” ajuizar uma ação judicial contra eles ao reunir as diferentes provas. Ele não percebeu ou viu isso como assédio moral, mas sim como uma armação muito grande contra a direção. Afirma ainda que, na primeira instância, o juiz teve o entendimento de que foi configurado assédio moral, e a SEE-DF foi condenada, mas ao recorrer, em segunda instância, a SEE-DF foi ganhadora. A decisão judicial foi de que Paola, como servidora, deveria ter sido mais ativa nas ações. Enfatizou que ela gostaria de ter recebido uma indenização de 80 mil reais. Afirma que as ações apontadas por Paola eram absurdas; que, como chefe imediato, em nenhum momento houve um embate diante das supostas calúnias e difamações; e que em seguida já houve uma ação judicial de assédio moral. Segundo ele, se “estávamos assediando, não percebemos”. Ressalta que foi chato e extremamente constrangedor passar por todo o processo, ser alvo dos comentários dos colegas, mas que tem a consciência tranquila de que não fez nada.

A antiga coordenadora e atual diretora, o ex-supervisor administrativo e atual supervisor pedagógico, assim como a ex-diretora continuam na escola, com exceção do secretário escolar, que, segundo Frederico, após o processo, ficou tão decepcionado com tudo que resolveu ir para outra escola. Quando perguntando sobre o fato de a antiga direção querer a saída de Paola após a aprovação na prova para a direção da gestão compartilhada, Frederico disse que não era esse o objetivo. Afirmou que Paola era sua amiga, frequentava a sua casa, “tomava do seu vinho” e, de repente, se viu diante de uma ação judicial contra ele.