2 Organisering og forvaltning av infrastrukturmidlene
2.6 Oppsummering
O País de São Saruê é um filme da década de 1970, mas que tem uma construção muito
pelo que Marcelo Ridenti chamou de ―romantismo revolucionário‖, a fim de compreender a cultura de esquerda nas décadas de 1960 e 1970. Apresentamos breves dados da formação de Vladimir Carvalho, permeada pelas suas experiências pessoais, sua atuação política e artística que dialogavam com as diversas transformações pelas quais passava o Brasil. Utilizamos especialmente duas obras, Vladimir Carvalho: pedras na lua e pelejas no asfalto (2008) de Carlos Alberto Mattos e Dos homens e das pedras: o ciclo do cinema documentário paraibano (1959 – 1979) (1998), dissertação de mestrado de José Marinho.
Carlos Alberto Mattos é um jornalista baiano, crítico e pesquisador de cinema. A biografia de Vladimir Carvalho elaborada por Mattos faz parte da Coleção Aplauso, organizada pela Imprensa Oficial no Estado de São Paulo. O texto é escrito em primeira pessoa, característica da própria coleção: ―[a] decisão sobre o depoimento de cada um na primeira pessoa mantém o aspecto de tradição oral dos relatos, tornando o texto coloquial, como se o biografado falasse diretamente com o leitor‖ (ALQUÉRES, 2008, p. 9). Essa escolha narrativa pretende tornar a leitura mais palatável e aproximar biografado e leitor. É uma biografia que procura apresentar Vladimir Carvalho em seu contexto histórico, descrevendo as experiências pessoais do cineasta e ligando-as à sua produção cinematográfica. Utilizamos bastante este trabalho, mas com ressalvas dado que é um texto escrito por Mattos apesar de escrito como uma ―fala‖ do próprio Carvalho.
A dissertação de mestrado de José Marinho, Dos homens e das pedras: o ciclo do cinema
documentário paraibano (1959 - 1979), foi outra preciosidade para nosso trabalho.42 Marinho
mostra o surgimento de um ciclo de documentários entre as décadas de 1950 e 1970, na Paraíba. Aborda o contexto de discussões no âmbito cineclubista que formariam alguns nomes de destaque como Linduarte Noronha, Vladimir Carvalho e Ipojuca Pontes. Realiza também uma espécie de pequena biografia de seus expoentes como Linduarte Noronha, Vladimir Carvalho e Rucker Vieira e analisa os principais clássicos dessa produção cinematográfica: Aruanda (1960), O País de São
Saruê (1971), Romeiros da Guia (1962), A cabra na região semi-árida (1966) e Os homens do caranguejo (1968). Serve-se de uma série de depoimentos destes artistas concedidos ao autor.
Outra fonte digna de indicação foram os textos do jornalista Wills Leal43. Ele publicou obras como Cinema no Nordeste (1982), Cinema & Província (1968) e Cinema na Paraíba /
Cinema da Paraíba (2007). As duas últimas auxiliaram na contextualização do cinema na Paraíba
entre 1950 e 1970. Como Leal afirma, sua obra é mais informativa que técnica, sendo a primeira tentativa de apreender o ―fenômeno do 'cinema paraibano'‖ e o desejo de ser ―um depoimento
42 José Marinho atuou no teatro, no cinema e na TV. Na década de 1960, fez parte do Teatro de Cultura Popular (TCP). Participou como ator de diversos filmes, incluindo Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha. Tornou-se um acadêmico, lecionando na Universidade Federal Fluminense (UFF) e sendo mestre pela Universidade de São Paulo (USP).
43 Wills Leal se formou em Filosofia, na Faculdade de Filosofia de João Pessoa e, depois, bacharel em Língua e Literatura Francesas, Leal é professor, escritor e jornalista.
pessoal sôbre o brotar, o crescer e a projeção do cinema, não só nos limites (culturais e econômicos de uma província, como no plano nacional)‖ (LEAL, 1968, p. 5).
Vladimir Carvalho é um documentarista paraibano, que nasceu em Itabaiana, na Paraíba, em 1935. Destacam-se na sua trajetória experiências pessoais no interior paraibano, sua militância artística, sua participação nas atividades do Partido Comunista Brasileiro, no Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em entrevista concedida ao Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário, o cineasta comenta sobre sua origem itabaianense e sua inserção no cinema:
Nasci em Itabaiana (PB), na região da Caatinga litorânea – onde a principal atividade produtiva era a pecuária. Minha origem, portanto, permeia tudo o que fiz em cinema. Já em Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, documentário que participei sobre comunidade de afrodescendentes ilhada no alto sertão paraibano (...), reforçou essa minha tendência. (CARVALHO, 2004)44
Vladimir Carvalho afirma que este é seu background e engajamento com a realidade rural. Na sua obra cinematográfica, são muito recorrentes os temas rurais ou a abordagem de eventos urbanos com um olhar voltado para o rural. A trajetória de Carvalho está cindida com seu êxodo do Nordeste após o golpe militar quando se torna professor da UnB e sua cinematografia passa a dividir a paixão pelo Nordeste com Brasília.45
Sobre a produção de longa-metragem de Vladimir Carvalho podemos afirmar que mesmo em Brasília, volta seu olhar constantemente para o Nordeste. É lá que realiza O País de
São Saruê, seu primeiro longa-metragem, fechando um ciclo que começara na década de 1960 de
um cinema de temática nordestina e de denúncia social. Na década de 1980, seus dois citados
44 CARVALHO, Entrevista realizada em 28 de junho de 2004 Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento
Rural (NEAD) do Ministério do Desenvolvimento.
<http://www.nead.gov.br/portal/nead/noticias/item?item_id=4986219 > Acesso em 15 de ago. 2013.
45 Os filmes de Carvalho parecem refletir esse movimento migratório, seus primeiros trabalhos são sobre a realidade paraibana todos na década de 1960 (Romeiros da Guia [1962], A Bolandeira [1968] e O Sertão do Rio do Peixe [1968]). Na década de 1970, já em Brasília, temos a transição do cinema paraibano para o olhar que lança sobre seu novo lar, o Distrito Federal. Assim temos, fechando o ciclo iniciado na década anterior,
O País de São Saruê [1971] e A Pedra da Riqueza [1975], somados a Incelência para um Trem de Ferro
(1972) que falam sobre o Nordeste. Carvalho começa, então, a fazer filmes também sobre a realidade da região do Planalto Central, surgindo filmes diversificados como O Espírito Criador do Povo Brasileiro
(1973), Itinerário de Niemeyer (1973), Vila Boa de Goyaz (1974), Quilombo (1975), Mutirão (1976), Pankakaru de Brejo dos Padres (1977) e Brasília Segundo Feldman (1979), todos curtas ou média
metragens. Apenas na década de 1980, Carvalho alcança fôlego suficiente para realizar novos longa- metragens, retomando a sua terra de origem, com O Homem de Areia (1982) e com O Evangelho segundo
Teotônio (1984), ambos voltados para a temas mais nordestinos. Realiza curtas nesse período com Perseghini
(1984) e No Galope da Viola (1989).
A década de 1990, no entanto, teria um longa-metragem que marcaria sua trajetória, dessa vez filmando em Brasília, mas com o olhar voltado para o Nordeste que ali existia, Carvalho realiza Conterrâneos Velhos
de Guerra (1990). Realiza curtas como A Paisagem Natural (1990), Com os pés no futuro (zum-zum) (1996)
e Ariano Suassuna em Aula-Espetáculo (1997) e Manejo Florestal (1998). No século XXI, realiza ainda o político longa Barra 68 – Sem Perder a Ternura (2000), o nostálgico e biográfico Engenho Zé Lins (2007) e Rock Brasília (2011).
longas-metragens mudam o tema, não buscando mais o povo ou uma denúncia social da miséria, mas retomam o olhar para seu espaço de origem, agora focando o olhar em duas figuras nordestinas, do coronel, Teotônio, ou do político e literato José Américo. Conterrâneos Velhos de
Guerra inaugura a década de 1990, após longa gestação, e, embora com tema e localidade
diferentes, seu olhar continua voltado para sua terrinha, para seus conterrâneos, com suas lentes a serviço dos candangos nordestinos que construíram Brasília, desmistificando a capital do país, exibindo sua ingratidão com os Severinos e Fabianos que a ergueram. Seus últimos trabalhos demonstram sua dinamicidade, seja documentarizando o escritor José Lins do Rego, tão caro às suas lembranças e formação literária; seja com o político Barra 68 – Sem Perder a Ternura, dando
o troco à ditadura militar pelos anos de censura oferecidos a O País de São Saruê; ou ainda no
Rock Brasília, no qual surpreendeu a crítica com um filme que tratava sobre música e rock,
retorquindo que seus filmes tinham rock, afirmação confirmada no presente trabalho.
Concluímos que nos seus longas-metragens há uma predominância de temas políticos e de denúncia social – olhando os ―de baixo‖, particularmente os nordestinos. Enumeramos elementos da trajetória pessoal que consideramos elucidativos sobre essa característica:
a) a influência da literatura de autores como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Euclides da Cunha, reconhecida em entrevistas e na biografia do autor;
c) presença da cultura da civilização do couro na infância de Vladimir Carvalho que morava em um centro comercial de gado, a Itabaiana da época; e de seu avô materno que fabricava artigos de couro para vaqueiros e que era descendente dos Índios Cariris;
d) a visão de mundo materialista de Vladimir Carvalho influenciada inicialmente pelo pai comunista, Luís Carvalho, pela militância do cineasta posteriormente no Partido Comunista Brasileiro e pelo aprendizado na ―escola do partido‖;
e) sua participação e militância em organizações culturais vinculadas ou não ao PCB como grêmios literários, cineclubes, Teatro Socialista e o Centro Popular de Cultura (CPC);
f) sua atuação como jornalista para diversos jornais Paraibanos e também para a imprensa pecebista, destacando a cobertura de conflitos sociais do campo;
g) seu engajamento nos debates do cineclubismo paraibano das décadas de 1950 e 1960, ressaltando o contato com o documentário de Robert Flaherty, O Homem de Aran (1934) e seu ingresso no ciclo documentarista nesta segunda década, destacando a participação em Aruanda que representou um marco na filmografia brasileira;
h) sua formação em Filosofia iniciada na Universidade Federal da Paraíba e concluída na Bahia;
censurado Cabra Marcado pra Morrer (1964/1985) de Eduardo Coutinho;
j) seu trabalho com artistas diversos como Caetano Veloso e Arnaldo Jabor.
Ao que nos interessa mais imediatamente, gostaríamos de indicar que Vladimir Carvalho foi um homem em cuja infância houve uma primeira influência que indica um olhar solidário para questões sociais que se relaciona ao seu ingresso na militância comunista. Relacionado a isto está o desenvolvimento de seu trabalho jornalístico, conhecendo mais profundamente os problemas sociais do Nordeste, por exemplo, ao cobrir os conflitos das Ligas Camponesas para o jornal do PCB Novos Rumos. Formou-se em filosofia, atuou em organizações culturais e teve contato com a literatura dita regionalista, chegando, finalmente ao debate e produção cinematográfica. Era o que podemos chamar de um ―intelectual do partido‖, figuras de ambígua relação com o PCB como mostramos adiante.