4 Fremtidig behov for infrastrukturmidler
4.7 Bredere perspektiver for utvikling av FORNY
Desse espaço sertanejo castigado pela sua condição climática, algo emerge na diegese do documentário que quebra essa imutabilidade trágica108:
No princípio era o silêncio/ quando a terra amanhecia / e entre nós as aves livres / o resto o sol ganharia. / Outrora, pontas de lançamento / marcavam cruzes no ar. / Em torno do fogo, a dança / dançavam os reis do lugar. / Dentro do mato o tapuia / entre cantos de concriz / celebrando as aleluias / do reino que sempre quis.109
(CARVALHO, O País de São Saruê, 1971, Sequência 2, 7’07 - 7’34’’). O homem aparece, simbolizado pelos índios que se reuniam em torno do fogo a dançar, ―os reis do lugar‖: são os donos do reino encantado que o narrador da poesia, a própria terra, ―sempre quis‖. A descrição pesada e triste do espaço é quebrada pela alegria e riqueza da chegada dos homens, os índios, em um reino antigo de felicidade e encanto. Os homens são apresentados pela poesia sob duas características atribuídas ao indígena: a alegria – simbolizada pela dança em torno do fogo e pela celebração de aleluias– e pelo caráter guerreiro simbolizado pela lança – arma indígena aludida pela figura de linguagem ―pontas de lançamento‖. Ao caráter sofrido e quieto da terra, a poesia traz os homens com o contraste da luta e da festa. Eles rompem a quietude. Monta-se uma oposição entre o silêncio e a morte – representada por tudo aquilo que o sol ganhava, exceto as aves que podiam voar para longe; e
filme, a segunda estrofe que se segue a esse verso se refere à presença humana no sertão, como que antecipada pela referida figura de linguagem. Essa interpretação é útil adiante.
108 É importante ressaltar, novamente, a diferença entre diegese e discurso fílmico. Diegese se refere ao enredo proposto pelo filme, o ―mundo‖ elaborado pelo filme. Embora esse conceito seja usualmente utilizado para a ficção, utilizamos aqui para pensar no mundo do documentário como a realidade segundo a qual o texto apresenta, com os dados e visibilidades que ela fornece e da forma como apresenta. Se na diegese o homem surge neste momento, no discurso fílmico, ele apareceu novamente, pois já foi referido nas inscrições gráficas que iniciaram o filme, contextualizando o filme.
a dinamicidade que o homem traz ao sertão. Esses homens, os indígenas tapuias, realizam o próprio desejo da terra, construindo o ―reino que [a terra] sempre quis‖. As aleluias assumem outra dupla função: simbolizam um canto religioso e de alegria, mas que, colocado no plural, pode se referir à diversidade divina dos indígenas politeístas, portanto anteriores ao encontro com o branco cristão e a catequese. Esse verso caracteriza o homem dessa terra o tapuia.110
Esse verso que analisamos é declamado enquanto se ouve uma música popular animada, embalada ao som de pífano, contrastando com o anterior silêncio permeado pela voz grave e empostada de Echio Reis.111 Também a nível sonoro, o filme apresenta a terra de maneira triste e árida e os índios, homens que habitaram a terra na origem, de maneira alegre.
As imagens que se seguem são de planos médios, permitindo englobar o homem e o meio. As primeiras figuras humanas no filme são mostradas em relação com o meio natural: a vegetação sertaneja. Embora a poesia fale sobre os tapuias, somos apresentados a homens contemporâneos à produção do filme, sertanejos populares, trabalhadores que podemos identificar pelas roupas e pelos objetos de trabalho em mãos – foices, facões etc. Metaforicamente utiliza-se a dialética de imagens e sons para ligar o elemento dos tapuias aos sertanejos atuais, não apenas ligando figuras históricas e sociais, mas duas temporalidades – a origem e o tempo contemporâneo da filmagem.
Neste sentido, identificamos elementos essenciais para nossa análise: a) uma relação ambígua entre a terra e o homem, representada em uma relação de domínio, mas também de proteção e conflito; b) uma distinção entre a imutabilidade da terra e a dinâmica humana; c) a origem dos sertanejos relacionada ao caráter indígena; d) o conflito entre natureza e homem, no qual o segundo domina a primeira, através do trabalho; e) a ligação a nível diegético da narrativa de duas dimensões temporais para construir uma espécie de gênese.
Tais elementos podem ser entendidos à luz da referida matriz euclidiana. Em Os
Sertões, há exatamente esta relação ambígua entre o homem e o meio. Seu livro, a fim de
contar a história do conflito de Canudos, começa com uma caracterização do meio, o sertão, para apresentar o homem (relacionando raça e meio em acordo com a cultura histórica da época) e em seguida descrever sob essa ótica os eventos de Canudos.112 Utilizando de modelos
110 Na Paraíba, convencionou-se dividir os indígenas em duas categorias: os tupis e os cariris, ou tapuias. Os tupis eram índios que tinham uma língua de matriz comum que dá o nome ao grupo. Podem ser identificados dois grupos na Paraíba: os potiguaras e tabajaras. Estes dois estavam em constante conflito. Os tabajaras foram os primeiros a ter contato à época da colonização, criando laços com os portugueses. Os cariris ou tapuias, existiam em maior número e ocupavam a área do sertão.
111 O pífano é uma flauta transversal, aguda, parecida com um flautim. Ela tem timbre intenso e estridente. É originário da Europa Medieval e tradicional em regiões do Nordeste fazendo parte de uma cultura popular nas quais é confeccionada por populares e tocada de ouvido, sem partitura.
112 Nísia Trindade Lima afirma que ―nos textos de Euclides da Cunha encontramos a tentativa de tipificação sistemática do homem brasileiro, com ênfase na dimensão ecológica, ou seja, em sua relação com o ambiente‖ (1999, p. 31).
narrativos do documentário clássico, especialmente flahertyano, O País de São Saruê faz construção semelhante, apresentando o meio, o homem e depois sua ―luta‖. Porém o filme não aborda um confronto militar e declarado como Canudos, mas o conflito cotidiano do sertanejo com o ambiente natural e com o mundo do trabalho em uma sociedade de classes.
Se tanto Vladimir Carvalho quanto Euclides da Cunha constroem a ideia de um sertanejo caracterizado em relação com o meio, no escritor o clima e a mestiçagem serão os grandes motores históricos para esse entendimento do social. O escritor se inseria em um momento de recente abolição dos escravos no Brasil, o que gerou um forte impacto nas reflexões de intelectuais sobre a identidade nacional. Nísia Trindade Lima indica que Raça e herança colonial são temas importantes e centrais do pensamento social brasileiro nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX (LIMA, 1999, p.27).113
No contexto das teorias raciais do final do século XIX e início do século XX, Os
Sertões explica questões psicológicas e comportamentais através de postulados étnicos com
base na formação racial do Brasil: negros, indígenas e portugueses. A mestiçagem negra não teve o mesmo peso que a indígena na formação do sertanejo, por isso Euclides da Cunha foca muito mais no último. Para o autor a mestiçagem foi, na maioria dos casos, prejudicial (CUNHA, 2011, p. 113), sendo diferentes as misturas ocorridas no sertão e na cidade, no primeiro houve uma homogeneização que levou a raça única do sertanejo.114 Nessa comparação, valoriza a mestiçagem sertaneja cujo isolamento teria sido benéfico; para Cunha na luta entre as raças, há uma eliminação lenta da raça inferior (para ele negros e indígenas) que se dilui no ―cruzamento‖. Nesse caminho surgem mestiços ―mutilados inevitáveis do conflito que perdura‖ que possuem qualidades negativas. Pois ―neste caso a raça forte não destrói pelas armas, esmaga-a [a raça fraca] pela civilização‖. Conclui sobre os sertanejos:
Ora, os nossos rudes patrícios dos sertões do Norte forraram-se a esta última. O abandono em que jazeram teve função benéfica. Libertou-os da adaptação penosíssima a um estádio social superior, e, simultaneamente, evitou que descambassem para as aberrações e vícios dos meios adiantados.
A fusão entre eles operou-se em circunstâncias mais compatíveis com os elementos inferiores. O fator étnico preeminente transmitindo-lhes as tendências civilizadoras não lhes impôs a civilização.
Este fato destaca fundamentalmente a mestiçagem dos sertões da do litoral.
113 Nísia Trindade Lima indica também que a geração após a Proclamação da República (1889) adotava um estilo de abordagem que opunha dois brasis. Esse tipo de elaboração pode ser encontrado em Euclides da Cunha e mesmo em autores posteriores como Alberto Torres, Oliveira Vianna e Gilberto Freyre (1999, p.28). Essa influência pode ser identificada na própria ideia presente no título Brasil, terra de contrastes de Roger Bastide ou no Outro Nordeste de Djacir Menezes, cujo título polariza com o Nordeste de Gilberto Freyre. 114 Euclides da Cunha afirma ―Ora, toda essa população perdida num recanto dos sertões lá permaneceu até
agora, reproduzindo-se livre de elementos estranhos, como que insulada, e realizando, por isso mesmo, a máxima intensidade de cruzamento uniforme capaz de justificar o aparecimento de um tipo mestiço bem definido, completo.‖ (CUNHA, 2011, p. 109); e ainda ―A uniformidade, sob estes vários aspectos, é impressionadora. O sertanejo do norte é, inegavelmente, o tipo de uma subcategoria étnica já constituída‖ (CUNHA, 2011, p. 113).
São formações distintas, senão pelos elementos, pelas condições do meio. O contraste entre ambas ressalta ao paralelo mais simples. O sertanejo tomando em larga escala, do selvagem, a intimidade com o meio físico, que ao invés de deprimir enrija o seu organismo potente, reflete, na índole e nos costumes, das outras raças formadoras apenas aqueles atributos mais ajustáveis à sua fase social incipiente (CUNHA, 2011, p. 117).
Com esta base Euclides da Cunha defendeu que o sertanejo possui características específicas em ―antítese‖; não é um degenerado, mas um retrógrado (CUNHA, 2011, p. 116); é um forte, mas aparentemente fatigado, ―aparência de cansaço que ilude‖, entre ―extremos impulsos e apatias longas‖ (CUNHA, 2011, p. 119). Cunha aproxima sertanejo do vaqueiro e podemos afirmar que também valem as características que atribui ao último: ―forte, esperto, resignado e prático‖, herdadas tanto pela formação racial quanto pelo contexto seco e triste no qual sobrevive. Ressalta ainda sua ―servidão inconsciente‖ que permite que, mesmo com os patrões distantes, sejam bastante leais. Indica ainda a religiosidade e misticismo desse grupo.
Em O País de São Saruê a caracterização do sertanejo não é centrada na questão racial, mas na relação do homem com o meio através do trabalho. Não há menção sobre as teorias raciais nem tentativa estética tão forte de relacioná-las. Há, no máximo, a indicação da origem sertaneja no elemento indígena. Também mostra o sertanejo como um forte, porém não como fatigado, nem degenerado ou retrógrado. Valoriza-o pelo trabalho. A figura do vaqueiro e a figura do sertanejo agricultor estão dispostas e são exibidas como duas possibilidades da vida sertaneja, valorizando um aspecto não tão presente no romance euclidiano.
As características da servidão, da religiosidade e da relação com a seca estão em dimensões próximas, mas não iguais. A relação ambígua entre homem e meio em Euclides é, inicialmente, semelhante à construída por Vladimir Carvalho. Se o livro trata de longas descrições do solo, da vegetação e do clima, os planos e a narração poética apresentados neste capítulo, apresentam tais conteúdos através de som e imagem. Euclides da Cunha apresenta e interpreta esses personagens sociais segundo as teorias sociológicas que abraçara em sua época, assim como Vladimir Carvalho. Assim, a matriz euclidiana é reelaborada autoralmente em linguagem cinematográfica e na apropriação de outras fontes intelectuais do cineasta. Apresenta em imagem o que é descrito verbalmente no livro. Interpreta, esteticamente, esse habitat e seus homens, explicando a relação entre seus elementos formadores.115
A terra em Os Sertões é exibida como hostil, dura, mas também como um elemento
115 Cabem dois comentários aqui. A centralidade da relação homem e meio, ou seja, animal e habitat, para Euclides da Cunha no livro, mas também a influência de outras leituras de Vladimir Carvalho e da própria prática cinematográfica. O cineasta teve como um reconhecido grande mestre, nos estudos e no fazer documentário, o professor de geografia e cineasta Linduarte Noronha. Em suas aulas foram apresentadas autores como Franz Boas, destacados na biografia do documentarista de O País de São Saruê.
ao qual o sertanejo, especialmente o vaqueiro, está adaptado.116 Daí o conflito apresentado com o sol e com uma terra seca, hostil à vida, mas que ao mesmo tempo deseja o homem, como dito pela poesia durante a introdução desse espaço. Se no filme o sertão ―fala‖ em primeira pessoa através da poesia, dizendo que o reino da alegria e de trabalho dos indígenas era o que ―sempre quis‖, no romance de Euclides da Cunha o escritor mostra como o sertão é uma terra que castiga seus homens: ―[o] heroísmo tem nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias espantosas. Não há revivê-las ou episodiá-las. Surgem de uma luta que ninguém descreve — a insurreição da terra contra o homem‖ (2011, p.137). Se aqui apresenta um duro quadro de luta do homem com a terra, em outro momento, nas origens históricas da ocupação do sertão, mostra a ambiguidade dessa relação:
Batidos pelo português, pelo negro e pelo tupi coligados, refluindo ante o número, os indômitos Cariris encontraram proteção singular naquele colo duro da terra, escalavrado pelas tormentas, endurado pela ossamenta rígida das pedras, ressequido pelas soalheiras, esvurmando espinheirais e caatingas. Ali se amorteciam, caindo no vácuo das chapadas, onde ademais nenhuns indícios se mostravam dos minérios apetecidos, os arremessos das bandeiras. A tapui-retama misteriosa ataviara-se para o estoicismo do missionário. As suas veredas multívias e longas retratavam a marcha lenta, torturante e dolorosa dos apóstolos. As bandeiras, que a alcançavam, decampavam logo, seguindo, rápidas, fugindo, buscando outras paragens (CUNHA, 2011, p.111).
Os indígenas, tapuias, ocupando o sertão e sobrevivendo às investidas das bandeiras, encontraram na terra sertaneja um refúgio ao qual seus inimigos não conseguiam se adaptar. Apesar disso, essa terra é apresentada como um ―colo duro da terra, escalavrado pelas tormentas, endurado pela ossamenta rígida das pedras, ressequido pelas soalheiras, esvurmando espinheirais e caatingas‖, ou seja, um lugar de sequidão, dureza, espinhos, rústico de se viver. O substantivo ―colo‖, materno e acolhedor, em referência à ocupação do sertão, é apresentado com elementos nada confortáveis e receptivos. Esta ambiguidade, como vimos, está presente na elaboração estética do filme: mostra-se um espaço duro, mas que abraça o sertanejo; porém não indica a proteção desse espaço ao indígena, como Cunha; o acolhimento está presente na afeição do espaço ao indígena. A oposição terra e homem é mais forte em Os
Sertões que em O País de São Saruê. Isto se explica pela diferença fundamental nas visões
dos autores: no escritor o homem é definido pela sua relação com o meio; já no cineasta o homem se entende em relação com o trabalho e com outros homens na relação de classes.
Ao identificar a origem indígena do homem sertanejo exibido em seu cotidiano de
116 Euclides da Cunha ressalta que o sertanejo é o vaqueiro, relegando pequeno espaço para um sertanejo essencialmente agricultor pela própria característica da terra na crença do romancista (CUNHA 2011, p. 125).
trabalho durante o filme, Vladimir Carvalho propõe que a exploração e sujeição dos indígenas no processo de colonização – quando o nosso continente inicia uma relação com o mundo capitalista europeu – é semelhante ou mesmo episódio anterior do sofrimento dos sertanejos à época do documentário, exibidos pelas suas filmagens. As oposições discursivas euclidianas e do cineasta se referem a uma dicotomia maior entre vida e morte. Essa dicotomia é um conflito presente no fio narrativo dessas duas elaborações artísticas.