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Esse gesto marca a Apropriação da festa popular, agora comparada a uma obra realizada pela prefeitura e entregue ao povo em ato solene, com dia, hora e dominadores definidos. Em 20 de março de 2012, após a divulgação de uma programação falsa nas redes sociais, o governo municipal divulgou nota esclarecendo que a programação oficial do São João 2012 seria lançada em uma coletiva à imprensa, como em todos os anos138.

A cultura tradicional e popular em si que se ampara nessa festa perde, e muito, com sua transformação de res publica em patrimônio público, isto é, bem de valor econômico,

137 Em 2011 foi iniciada pelo sistema de Bluetooth a ação São João no Celular, com o fornecimento de

informações sobre a festa e a programação atualizada automaticamente no celular de quem se cadastrou.

138 Nota Oficial – Alerta – Programação falsa do São João está sendo divulgada. Disponível em

<http://www.caruaru.pe.gov.br/unoticia/nota-oficial-alerta-programacao-falsa-do-sao-joao-esta-sendo- divulgada/> Acesso em 22 mar. 2012.

artístico, estético, histórico e turístico do município, para citar o § 1º do artigo 1º da Lei 4.717/65, que regula a ação popular. A politização da festa também ficou por conta da visita da Presidenta Dilma Roussef no dia 22 de junho de 2011. O deputado federal Wolney Queiroz, filho do prefeito de Caruaru, José Queiroz, se destaca nessa ocasião por ciceronear a Presidenta e sua comitiva pela cidade e pela festa, oferecendo em sua residência o jantar de despedida: “contrariando a torcida do contra, o avião de Dilma toca o solo da capital do São

João! #DilmaNoSaoJoaodeCaruaru” Aproveitou ainda a rede social Twitter como

sustentáculo para ironizar a concorrente Campina Grande, que não teve o privilégio da visita presidencial: “#ChupaCampinaGrande”. É a Lei do contágio (DOMENACH, 1974; TORRES, 1959), aproveitando a figura da Presidenta para amealhar alguma vantagem política.

Mesmo após nove meses de seu encerramento, a festa continua a ser utilizada como espaço de disputas políticas. O ex-prefeito de Caruaru e adversário político, Tony Gel139, agora deputado estadual, concede em março de 2012 entrevista à uma rádio local em que acusa a Prefeitura de Caruaru de não pagar corretamente o cachê dos artistas que se apresentaram na festa de 2011. A Prefeitura, então, divulga em 26 de março nota de esclarecimento em sua página oficial na internet140, declarando que os cachês foram pagos ainda no mês seguinte à apresentação, aproveitando para revidar o ataque alegando “que foi

duramente penalizada no São João de 2011, quando deixou de receber R$ 1,5 milhão do Ministério do Turismo em virtude das falhas na prestação de contas da festa em 2008 – a última realizada pela gestão anterior”. Está criado o conveniente imbróglio em ano de eleições municipais.

Incontestavelmente Caruaru tem o que se propõe: um São João diferente. Todavia, na discoteca, nas drilhas e nos concursos de quadrilhas altamente estilizadas é possível entender, de forma geral, que se descortina um processo crescente de afastamento das expressões juninas tradicionais141. Assim como Mossoró busca espaço na mídia, Patos transforma palco

139 Quando prefeito, em vídeo promocional da festa de São João de Caruru, aparecia caracterizado de caipira,

convidando a todos para participar. Após desaparecia com seu par por dentro do túnel de uma quadrilha junina.

140 Nota de Esclarecimento – Pagamento de artistas do São João 2011. Disponível em

<http://www.caruaru.pe.gov.br/unoticia/nota-de-esclarecimento-pagamento-de-artistas-do-sao-joao-2011/> Acesso em 27 mar. 2012.

141

A título de ilustração, a Prefeitura Municipal de Chapadinha, no Maranhão começou a visitar escolas em março de 2012 para divulgar a abertura das inscrições para as companhias de danças Country, Portuguesa e bumba meu boi, cujas aulas, figurino e apresentações são custeadas integralmente pela Prefeitura, inclusive no São João. Disponível em <http://tvmirante.blogspot.com.br/2012/03/prefeitura-de-chapadinha-abre.html> Acesso em 23 mar. 2012.

em palanque, e em Campina Grande há disputa pela paternidade da festa, Caruaru sobreleva como característica principal o realce aos resultados econômicos do evento, cuja profissionalização persegue o desenvolvimento local e, nesse ínterim, a apropriação tende a uma dependência que se configura de forma mútua entre a realização da festa e seus resultados econômicos para o município, com pouca presença de elementos de propaganda política.

6.1.5 Em São Luis é tempo de “guarnicê”

No mês de Junho tem o bumba meu boi Que é festejado em louvor a São João O amo canta e balança o maracá A matraca e pandeiro É quem faz tremer o chão Essa herança foi deixada por nossos avôs

Hoje cultivada por nós Pra compor tua história, Maranhão.

Humberto de Maracanã

Após percorrer as cidades de Mossoró, Patos, Campina Grande e Caruaru, retorno a São Luis com a missão de observar sua festa, agora com olhos de pesquisador. Na capital maranhense, a festa junina segue um modelo de estrutura física e atrações diferentes das demais, estando o bumba meu boi no centro das atrações. Com atenção especial nessa manifestação cultural maranhense, é necessário conhecer um pouco da tradição em que se assenta para, enfim, verificar o quanto ela está aos poucos sendo esquecida na dinâmica da festa ludovicense, principalmente por sua Apropriação pelo governo, que a transforma em festa oficial e nela, se arvorando de tutor, passa a utilizá-la para fins que não meramente “brincar”, vocação natural ameaçada e em risco iminente de ver desaparecer as suas reais características (AZEVEDO NETO, 2011).

No Maranhão, a festa junina tem suas características peculiares. Aqui os terreiros juninos também se enfeitam com elementos comuns do período, como os balões e bandeirinhas típicas e algumas pessoas, principalmente crianças, se vestem com o habitual visual caipira, mas a atenção na festa não gira em torno das quadrilhas e dos shows de grandes artistas nacionais. Aliás, os shows são de artistas locais, quando muito residentes em outros estados, que retornam a São Luis no período junino para se apresentar. No Maranhão, até o calendário tem sua razão de ser, e o próprio período junino é festejado de forma singular.

A distribuição de arraiais pela cidade me permitiu a escolha dos locais a observar. Optei pelo Arraial da Praça Maria Aragão, único realizado pela Prefeitura de São Luis, já que os demais eram apenas apoiados pelo governo municipal. O outro escolhido foi o Arraial da Lagoa, bancado pelo Governo do Estado, com apenas dois aspectos diferentes dos demais: a pretensa responsabilidade de uma associação e um camarote montado para receber as autoridades estaduais e representantes da Escola de Samba Beija Flor, que tinha São Luis como tema para o Carnaval de 2012. Neste fui por duas ocasiões.

Fora essas peculiaridades, sua disposição, estrutura e palco único seguem o padrão dos demais. Muito embora seja mais cômodo às pessoas que residem nas proximidades frequentar os arraiais de seu bairro, de forma geral os frequentadores não se limitam aos arraiais vizinhos, por ser normal visitar o maior número possível de arraiais durante o período junino.

Se a brincadeira do boi142 é o elemento central da festa maranhense, a que é ansiosamente esperada, a que atrai e agrega as demais manifestações em torno de si, o maranhense também brinca com o tambor de crioula, o cacuriá, a dança do coco, a dança do lelê, a dança portuguesa, a casinha da roça, os grupos de índios. As quadrilhas de certa forma têm importância e atenção reduzidas no folguedo e até mesmo nas festas escolares143.

A brincadeira do boi é um auto que gira em torno do casal de negros Pai Francisco e Catirina. Ela, grávida, deseja comer a língua do boi preferido do patrão, dono da fazenda. O marido mata o boi e realiza seu desejo. Descoberto, o amo ordena que caboclos, vaqueiros e índios encontrem Pai Francisco. Quando capturado, e para não ser mais maltratado, socorre-se das encantarias de um pajé, que ressuscita o boi144.

A representação dessa estória, cuja dramatização alia teatro, música e dança, segue seu calendário próprio: os ensaios, o batismo, as apresentações e a morte do novilho. A tradição manda que da Semana Santa até meados de junho, os grupos de boi ensaiem suas coreografias e aprendam as toadas (músicas) novas. Cada um toca o instrumento que quer, ainda que não seja o que vai tocar na brincadeira, e a ordem é se divertir. No dia 23 de junho, véspera do dia de São João, o boi, materializado na armação de buriti e no lombo ricamente adornado com

142 O momento, a dança em si e até os grupos culturais podem ser chamados, em conjunto ou individualmente, de

brincadeira. Assim é que o folião junino no Maranhão é conhecido como brincante e a apresentação como brincada.

143

Nas festas das escolas primárias o auto do bumba meu boi é atração principal e as crianças dançam vestidas de vaqueiros e índias. São mais de 400 grupos de bumba meu boi cadastrados junto à Secretaria de Estado da Cultura. O Complexo Cultural do Bumba meu Boi do Maranhão foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil em 30 de agosto de 2011, e a Lei Federal nº 12.103, de 1º de dezembro de 2009, instituiu o dia 30 de junho como Dia Nacional do Bumba Meu Boi.

miçangas e canutilhos, é batizado por rezadeiras e, assim, passa a ter a permissão do santo para se apresentar. A partir de julho acontecem as festas da morte do boi, que inclui seus rituais, ladainhas, apresentações, comidas e bebidas.