Em palco simples se apresentam as quadrilhas juninas e os trios de forró tradicional, que atraem um público de maior idade e menor poder aquisitivo. O local é conhecido como xerém, pela distinção social percebida no espaço de reprodução. Na Pirâmide pude perceber uma segregação tácita. Ali um travesti dançava livremente no espaço que, imagino, lhe pareceu mais condizente. Do outro lado, dois rapazes embriagados dançavam sozinhos ao lado do palco, quando uma fileira de cerca de dez policiais em fila indiana, padrão de vigilância adotado pela Polícia Militar durante a festa, parou para revistá-los, na frente de todos e sem nenhuma razão aparente. Liberados, voltaram a dançar, resignados com sua condição social, contudo não deixando de aproveitar o momento de descontração proporcionado pela festa aparentemente gratuita.
Pode-se ver de tudo na festa, da gente de roupa simples, carregando expressões da cultura nordestina como os chapéus de vaqueiro utilizados no dia-a-dia ou ganhos como peça de publicidade distribuída no Parque, “atuando como um estímulo à emotividade das pessoas no que tange às suas questões de pertencimento; ao seu imaginário já construto pela memória, usos e costumes das vivências familiares e sociais” (NÓBREGA, 2009), às pessoas trajando indefectíveis camisas quadriculadas e chapéus de caubói, aquelas que optam por ostentar um figurino que faça bonito na festa, como esse visual americanizado, aceito pelo charme do estrangeiro.
Além da Pirâmide, o Parque do Povo conta com três palhoças que servem como ilhas de forró, destinadas aos 150 trios de forró tradicional, previamente cadastrados na prefeitura. A Palhoça Zé Lagoa leva o nome de conhecido conjunto folclórico da década de 70, a Palhoça Zé Bezerra homenageia ator e radialista campinense e a Palhoça Seu Vavá teve seu nome
retirado do programa de rádio O Forró de Seu Vavá, líder de audiência em sua época, apresentado na Rádio Borborema pelo campinense Genival Lacerda.
Seus espaços menores cercados de gravetos e representando cenograficamente fachadas de casas simples do interior no estilo porta e janela, embalam os casais que dançam o forró tradicional ou estão à disposição para ensinar os primeiros passos aos turistas. Banners pregados na parede atrás do palco anunciam a presença de escola de dança: “La Barca e Prefeitura Municipal Dançando com o Turista”.
O Parque do Povo ainda conta em seu espaço interno com a área denominada Vila Nova da Rainha, antigo nome da cidade, onde são comercializados produtos do artesanato local e podem ser vistas a fogueira cenográfica de 18 metros de altura e a Cidade Cenográfica, que conta com réplica de fachadas de igreja e de um conjunto de casas, como uma “fantasia e caricatura do ‘evento original’ do meio rural; como se a própria festa na roça não fosse, igualmente, uma criação e uma invenção do discurso folclórico” (LIMA, 2010, p. 78).
Próximos, a Vila da Imprensa, local destinado aos jornalistas, e o Recanto da Poesia, corredor também com casinhas do interior com rebocos externos deixando aparecer os tijolos, dando a ideia dos elementos que compõem a vida rural, onde foram expostos folhetos do poeta e cordelista Manoel Monteiro, homenageado da festa de 2011, juntamente com o cantor e compositor Genival Lacerda.
Essa representação fantasiada dissimula os objetivos mercadológicos da apropriação da cultura tradicional e popular na imposição de uma identificação que adquire uma “condição de presentificação, materializada através de símbolos, mitos, cenários e figuras do cotidiano rural e religioso com que se constrói o universo simbólico dessa formação discursiva heterogênea” na festa junina (LUCENA FILHO, 2009).
Na área dos restaurantes podem ser encontradas barracas, pavilhões e quiosques que oferecem pratos nordestinos e a comida típica do período junino, além dos 450 vendedores ambulantes cadastrados pela prefeitura que se destinam a vender bebidas nas áreas mais próximas do palco. Restaurantes e bares da cidade se fazem presentes no Parque do Povo, como o badalado Bar do Cuscuz, localizado na orla do Açude Velho, espaço urbano privilegiado por novas construções e equipamentos de lazer e ponto turístico da cidade, tendo como público-alvo a classe média jovem da cidade.
Em 2011, a prefeitura premiou com o Troféu Maria Bonita as barracas, quiosques e pavilhões que melhor representaram o São João campinense. Instituído por lei municipal, esclareceu o vereador autor do projeto que essa ação teve como objetivo resgatar as raízes
históricas do São João tradicional e enriquecer a cultura, premiando as ideias mais originais e criativas. A premiação foi entregue pelo prefeito Veneziano em seu gabinete99.
Na verdade, ainda que tente justificar a ação como resgate da tradição, a festa do Maior São João do Mundo já deixou de tangenciar a cultura tradicional não por ser grandiosa, cara e modernizada100, mas porque seu valor cultural não está mais em poder das comunidades culturais originais, apropriados pelo governo, que decide sobre tudo, quem, quando e onde. A tentativa de resgatar uma tradição não é o mesmo que resgatar trinta mineiros presos numa mina de carvão. A cultura não está materializada aqui ou acolá, ela permeia o ambiente e a vida das pessoas. Isso destoa da afirmação de Nóbrega (2009, p. 10) para quem
os atos de diversão e entretenimento revelam as características mais explícitas da festa, com os participantes dançando, cantando, brincando, assistindo aos shows, comendo, bebendo, passeando, visitando as montagens cenográficas, paquerando, namorando, entre outras atividades. Tanto que é cabível a compreensão totalizante, inclusive sob a forma de uma
conceituação genérica e abrangente de ser o povo quem “faz a festa”, de
modo que suas iniciativas de participação e envolvimento delineiam a magnitude geral do evento, configurando sua grande atratividade lúdica adaptada e aproveitada pelos projetos político-eleitoreiros, econômicos e comunicacionais.
Acredito que não. São os projetos políticos-eleitoreiros que determinam a dinâmica da festa e consequentemente influenciam comportamentos, tanto é que a autora admite que a atratividade lúdica passa por uma transformação exógena, porque “adaptada e aproveitada”. Se a intenção é a aglomeração, contrata-se a banda ou o artista de renome para chamar o público. Não é o povo quem “faz a festa”, ele apenas a consome, movimenta, da cor, atendendo aos escondidos projetos políticos-eleitoreiros, não havendo, portanto, como considerar duas apropriações simbólicas, a política e a popular, como dicotômicas e sim como excludentes.
A tradição da/na cultura existe nas pessoas e se realiza na espontaneidade da vida e não em leis, ações estratégicas e gabinetes oficiais. Tanto é que profissionalização e internacionalização são os vocábulos mais presentes nos discursos dos gestores públicos responsáveis pela festa que, redefinida, ultrapassa o localismo e se vale de elementos juninos para ser “reinventada, apropriada e conservada como um espetáculo de cenários, cores, luzes
99 SÃO JOÃO 2011: PMCG premia espaços melhor ornamentados. Disponível em
<http://www.pbagora.com.br/conteudo.php?id=20110628093313&cat=paraiba&keys=sao-joao-pmcg-premia- espacos-melhor-ornamentados> Acesso 09 set. 2011.
100
Na estética e também na base tecnológica. Além do site oficial e das redes sociais, desde 2010 o sistema de bluethoot atualiza os presentes em tempo real, via celular, sobre as novidades da festa.
e sons; como uma festa comercializada, que significa marketing turístico, econômico e social, cultural e político” (LIMA, 2008, p. 18). Um evento que se propunha a resgatar tradições talvez encontrasse melhor lugar não na Secretaria de Desenvolvimento Econômico, mas na Secretaria de Cultura.
Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico de Campina Grande, o volume de negócios estimado em 2011 foi de R$ 100 milhões de faturamento na economia da cidade, com um acréscimo de 15% a 20% nas vendas do comércio, em relação ao ano de 2010101. Nada com a tradição, mas com a economia local. É certo que a cultura, ao lado da dimensão simbólica, possui uma dimensão econômica.
Entretanto, O Maior São João do Mundo se notabiliza pelos números, não pela espontaneidade na reprodução das manifestações da cultura tradicional e popular. É isso o que propõe. Se elementos simbólicos existem, estão ali para compor um cenário que leve o turista, público-alvo, a experimentar o estar em uma festa nordestina, simulacro ainda aceito pela maioria pelo simples fato de ser uma novidade para quem é de fora.
No discurso de abertura da festa, proferido em 04 de junho de 2010102, ressalta o prefeito a trajetória de profissionalização do evento durante sua gestão da seguinte forma:
Vocês que estiveram em 2009, em 2008, em 2007, em 2006, em 2005, puderam verificar que ano após ano a Prefeitura foi qualificando, profissionalizando, planejando melhor o São João de Campina, para que enfim chegássemos a estar vivenciando uma festa tão bonita, grandiosa, democrática, para todos, enfim.
A Lei da ampliação (DOMENACH, 1974; TORRES, 1959) é utilizada ao defender que as ações do governo vêm a cada ano, desde o início de seu mandato, melhorando o evento até chegar à beleza, grandiosidade e democracia da festa. Mesmo que não tenha sido assim, a estória é contada por seu protagonista e acredite quem não se dispuser a verificar sua veracidade, afinal, “suficientemente repetida, a afirmação acaba por criar, primeiramente, uma opinião e, mais tarde, uma crença” (LE BON, 2002, p. 224).
Na verdade, é preciso saber gerir um evento que atrai dois milhões de pessoas e ocupa os 2.568 leitos dos 28 estabelecimentos cadastrados como hotéis, pousadas, motéis e albergues na cidade. Juntas, Campina Grande e Caruaru captaram R$ 11,5 milhões em patrocínios em 2011, sendo “uma excelente oportunidade para que as empresas, de olho no
101 Vital busca melhorias e investimentos para tornar o São João 2012 o melhor de todos os tempos. Disponível
em <http://senadorvitaldorego.com.br/noticia/vital-busca-melhorias-e-investimentos-para-tornar-o-sao-joao- 2012-o-melhor-de-todos-os-tempos/> Acesso em 23 mar. 2012.
mercado nordestino, que está em franca expansão, possam reforçar as suas marcas diante de um grande público”, de acordo com o secretário de Desenvolvimento Econômico
campinense103. Então, se a festa serve para aquecer a economia da cidade, o discurso da tradição há muito passou a ser peça de retórica, servindo para reafirmar sua necessidade e legitimar a Apropriação da cultura.
Além dos recursos públicos advindos do Ministério do Turismo, do Ministério das Comunicações, do Ministério de Minas e Energia, da Petrobras, da Infraero, da Caixa Econômica, do Banco do Brasil e do Banco do Nordeste, a versão de 2011 conseguiu o patrocínio de grandes empresas como Schin, Havaianas, Sony, Sky, Redecard, Hipercard, Itaú, Bradesco, Cachaça 51, Bauducco, Luftal, Contigo!, Avon, Ron Montilla, Hyundai, Extra, Night Power. Talvez esse patrocínio privado fosse o suficiente para arcar com os custos de uma festa mais modesta e original, mesmo que para isso houvesse a redução das atrações, principalmente os artistas de renome nacional que recebem altos cachês para aviltar a tradição junina. Mas, dessa forma, não atrairia um público tão grande e os negócios não teriam o retorno publicitário desejado.
Então, a festa deve crescer para, atraindo mais público captar mais patrocínios ou deve crescer para, captando mais patrocínios atrair mais público? Não há dilema nem situação antagônica, a festa tem que crescer e basta. É esse seu tino econômico e político, sobretudo ao ver o vídeo promocional da festa de 2009104, que enaltece Campina Grande como local adequado para grandes investimentos. A festa não é diferente, já que
mais de um milhão de pessoas passam pelo Parque do Povo durante os 30 dias do Maior São João do Mundo. São pessoas com um considerável poder de compra. É uma grande oportunidade para agregar valor às marcas dos patrocinadores. Investir num evento como esse é ter certeza de um retorno garantido.
A reprodução da expressão da cultura tradicional está sob a rédea do governo e agora “proporciona empregos, desenvolve o comércio local, gera divisas e impulsiona o
turismo”. Em suma, a tradição citada no vídeo passa a ser utilizada como chamariz para que
“pessoas com um considerável poder de compra” garantam o retorno dos investimentos.
103 CG e Caruaru captam mais de R$ 11,5 milhões em patrocínios para São João; Skol e Nova Schin investem
pesado. Disponível em <http://www.paraiba.com.br/2011/06/27/69700-cg-e-caruaru-captam-mais-de-r-115- milhoes-em-patrocinios-para-sao-joao-skol-e-nova-schin-investem-pesado> Acesso em 29 jun. 2011.
A mídia nacional dá atenção para O Maior São João do Mundo em seus telejornais e demais programas105, fora a página na internet, que transmite ao vivo as apresentações no palco principal do Parque do Povo, e nas redes sociais (Twitter, Orkut, Facebook) e blogs variados que diariamente abrem espaços para divulgação de notícias e discussão sobre assuntos ligados à festa. Sua internacionalização ficou em 2011 com a Rede Record, que a transmitiu ao vivo durante quatro horas nos dias 21, 22, 23 e 24 de junho, através da Record News e da Record Internacional para o Brasil e mais de 150 países.
Em 2011 as festas de Caruaru e Campina Grande receberam uma comitiva de jornalistas da França, Portugal e Argentina, selecionados por serem “de países definidos como de
altíssima prioridade para a promoção do Brasil como destino turístico”106. O aumento do fluxo de turistas é a política pública que se manifesta de forma evidente quando se fala na festa de Campina Grande e nas demais. Em abril de 2012, em entrevista à imprensa paraibana107, o senador Vital do Rêgo, toma para si a responsabilidade pela visita desses jornalistas estrangeiros
Com o propósito de consolidar a imagem do São João em nível internacional o senador também intermediou junto a EMBRATUR, a vinda de uma comitiva de jornalistas da Argentina, Portugal, Espanha e França que fizeram uma visita a pontos turísticos de Campina Grande
e pela transmissão internacional da festa:
Ele lembrou que o São João de Campina em 2011 foi visto por mais de 150 países através da Record News e da Record Internacional. O senador que foi decisivo para que a emissora levasse as imagens da festa para os mais importantes países do planeta, não tem dúvida de que as transmissões da edição 2012 também repetirá o sucesso do ano passado, devendo inclusive, ficar acima das expectativas.
O senador, que é irmão do prefeito de Campina Grande, também fica responsável por captar recursos para a festa. Nada melhor do que uma festa para tutelar, nesse jogo caracterizado por “uma dinâmica via de mão dupla, jogos de poder flutuantes, idas e vindas, consensos e conflitos em contínuas mediações” detectadas e avaliadas nesses detalhes e
105
Como o Câmera Record, o Jornal Hoje e o Domingão do Faustão, os dois últimos da Rede Globo.
106 Presidente da Embratur na Argentina. Promoção no país e na Copa AMERICA. Disponível em
<http://www.brasilturis.com.br/canal_materia.neo?Materia=24352> Acesso em 07 set. 2011.
107 Vital inicia luta para expandir divulgação do Maior São João do Mundo versão 2012. Disponível em
<http://www.folhadosertao.com.br/portal/noticia.php?page=noticiaCompleta&id_noticia=7285> Acesso em 09 abr. 2012.
encaminhamentos, conforme Nóbrega (2009), para algum ganho político-eleitoreiro. Em abril de 2012, com o título “Vital e Veneziano vão à Petrobras e conseguem garantia de patrocínio para São João 2012”, publica em sua página pessoal108
o que segue:
Nós conseguimos a garantia da presença da Petrobrás, como patrocinadora do nosso São João e, mais que isso, de que há uma grande possibilidade de a empresa ampliar a sua participação este ano, com um patrocínio maior, o que nos deixou muito felizes.
Não é difícil atentar que a festa, que sem oposição encontra na figura de Ronaldo Cunha Lima sua paternidade, está atualmente nas mãos dos atuais detentores locais do poder, que a planejam, captam recursos, realizam e colhem os frutos políticos de sua apropriação. O “nosso São João” tem novo dono, ainda que Ronaldo não tenha deixado por completo o imaginário campinense, como no cordel abaixo, de autoria de João Dantas109:
Campina Grande querida Você merece um poema Tua paisagem bonita Faz inspirar o meu tema Por isto te batizaram
RAINHA DA BORBOREMA. Por você Campina Grande Tenho um respeito profundo Daqui e de outros países Vem gente a cada segundo Pois só você é quem faz
O MAIOR SÃO JOÃO DO MUNDO. Este grande arraial
Foi Ronaldo que inventou Aqui em Campina Grande Ele se multiplicou
Atravessou oceanos O seu nome consagrou.
Até hoje, no Parque do Povo são mantidas placas da época em que Ronaldo Cunha Lima estava à frente da prefeitura. Residindo na capital paraibana e combalido por problemas
108 <http://senadorvitaldorego.com.br/noticia/vital-e-veneziano-vao-a-petrobras-e-conseguem-garantia-de-
patrocinio-para-sao-joao-2012/> Acesso em 26 abr. 2012.
109 João Dantas é atualmente vereador em Campina Grande e faz oposição ao atual prefeito. Com ele ampliei
meus conhecimentos sobre Lampião e seu bando. Tem montado, com recursos próprios, o Sítio São João, réplica de um sítio do interior onde são encontrados edifícios, veículos e objetos antigos retratando a vida no campo. Por razões políticas, o Sítio São João deixou de ser montado no Parque do Povo, e hoje está provisoriamente instalado na Rua Manoel Tavares, próximo ao SENAC.
de saúde, a figura do pai do Parque do Povo e da festa é tanto associada ao evento que o prefeito Veneziano decidiu convidá-lo a participar da solenidade de reinauguração do Parque do Povo, em 1º de maio de 2012, ocasião em que seria homenageado110.