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No que se refere ao conceito de ideologia de Pêcheux, ele nasce do pensador marxista Althusser. A ideologia dirige-se aos sujeitos, assegurando que eles reproduzam relações sociais por meio de aparelhos ideológicos. Esse conceito é criado por dinâmicas de poder formuladas ao longo da história. Uma vez que a ADF propõe-se a práticas discursivas abertas, no momento em que invoca a intervenção da realidade concreta, se tiver a intenção de tornar-se transformadora dessa mesma realidade, vê-se formada por uma prática discursiva contraditória. Isso ocorre porque exige individuação elaborada por um processo de assujeitamento: espera um indivíduo capaz de lidar com as escolhas que faz, depois de assujeitado.
Para Marx e Engels, as relações de poder estão fundadas no exterior por exigências de ordem material. Os humanos vivem para sobreviver, primeira e última razões para se lutar pela vida. Essa invariante justifica a exploração do homem pelo homem. É a ideologia, formada por organizações produtivas, que encoberta a violência das dominações. Até hoje a “violência, a guerra, a pilhagem, o roubo, etc., foram considerados como a força motriz da história.” (Marx e Engels: 1965, p. 17). É por isso que se afirma que o conceito de ideologia de Althusser (2001) é marxista, uma vez que o filósofo francês afirma que produção na AD nada mais faz do que reproduzir as condições de produção. Por essas condições serem de ordem econômica, presssupõem que
toda a formação social para existir, ao mesmo tempo que produz, e para poder produzir, deve reproduzir as condições de sua produção. Ela deve, portanto, reproduzir:
1) as forças produtivas
2) as relações de produção existente. (Althusser: 2001, p. 54).
O salário é o meio material que assegura a reprodução da força de trabalho. Marx parte da premissa de que esse salário não corresponde ao esforço despendido pelo trabalho. Esse excedente negado aos trabalhadores fica nas mãos de uma minoria pertencente a uma elite econômica. Ela garante, dentre outros meios, a
continuidade de seu poderio pela ligação direta há muito estabelecida entre poder econômico e poder político.
Os aparelhos ideológicos de Estado não estariam à mercê da ideologia da classe dominante, mas, no interior desses aparelhos, essa ideologia realiza-se uma vez que se torna “o palco de uma dura e ininterrupta luta de classes”. Isso significa que os aparelhos em questão “constituem, simultânea e contraditoriamente, o lugar e as condições ideológicas da transformação das relações de produção” (Pêcheux: 1997, p. 145).
A promoção de harmonia social é garantida pelos aparelhos ideológicos e repressivos, segundo Althusser (2001). Desse modo, está assegurada a reprodução das condições de produção: reprodução esta que promove ao mesmo tempo harmonia nos intercâmbios efetuados entre os membros da mesma classe e entre os membros pertencentes a classes sociais distintas.
Segundo Althusser, o distanciamento da realidade pode provar a existência da deformação imaginária voltada a iludir os homens sobre suas reais condições. Elas são pautadas, na maioria das vezes, pela exploração de uma minoria sobre uma maioria. É consensual a postura conformista diante dessa ilusão. Na verdade, a eficiência da ilusão em tornar as pessoas indiferentes frente a uma situação injusta, na maior parte das vezes, ocorre por desconhecimento.
Reportando-se a Pêcheux (1997), primeiro, costuma-se defender o princípio de que ideologia é uma idéia e não uma força material e, segundo, defende-se que a ideologia tem origem no sujeito, quando o que ocorre, conforme pontua Althusser, é que os indivíduos é que são constituídos em sujeito pela ação da ideologia.
Um sujeito assujeitado é aquele que se submete de boa vontade a um Sujeito. Pêcheux, ao analisar a proposição de Althusser, que afirma que a ideologia interpela o indivíduo em sujeito para que ele possa de boa vontade submeter-se ao Sujeito, compara dois tipos de sujeito: um com letra maiúscula, e outro com minúscula.
Com minúscula é o indivíduo interpelado pela ideologia, com maiúscula é o sujeito universal, ao qual o sujeito interpelado deve submeter-se. Nesse momento, Pêcheux remete-se a Lacan para quem esse Sujeito é o outro que discursa pelo inconsciente. O recalque inconsciente justifica-se pelo assujeitamento que se concretiza via uma imposição. O sujeito assujeitado, ao ocupar seu lugar em alguma das classes sociais existentes, assume a ilusão de que é autônomo ao agir por vontade própria. Esquece que sua inserção em uma das classes não é opcional, mas obrigatória.
Todo o sentido pressupõe interpretação e se há interpretação há ideologia e, se há ideologia, há apagamento. Apaga-se para, entre outros motivos, fazer com que os indivíduos aceitem sua condição de assujeitados, para que possam reproduzir as condições de produção de modo eficiente.
A evidência de sentido remete a uma ilusão de um sempre dito, como se não houvesse anterioridade para a constituição desse sentido. Apaga, dessa forma, a materialidade do sentido que determina que as palavras possuem sentido pela relação entre diferentes formações discursivas..
No movimento de análise textual, portanto,
Interpreta-se e ao mesmo tempo nega-se a interpretação, colocando-a no grau zero. Naturaliza-se o que é produzido na relação do histórico e do simbólico. Por esse mecanismo – ideológico – de apagamento da interpretação, há transposição de formas materiais em outras, construindo as transparências - como se a linguagem e a história não tivessem sua espessura, sua opacidade – para serem interpretadas por determinações históricas que se apresentam como imutáveis, naturalizadas. (Orlandi: 2002, p. 46).
Para a autora, esse seria o principal papel reservado à ideologia.
3.4.1. Formação ideológica
A luta de classes, ou relações de classes, segundo Pêcheux (1993), ocorre no interior dos aparelhos ideológicos. Esse afrontamento entre as diferentes classes regula as condições de produção, reproduzindo-as. É nesse palco que se inaugura, entre outras noções que englobam relações estabelecidas entre diferentes classes sociais, a noção de hierarquia. A classe dominante a questiona, em meio ao conflito, para encontrar novas formas de mantê-la ou de transformá-la. Daí afirmar-se que as relações conflituosas
entre as classes independem da vontade da classe dominante para existirem. Isso não impede que esses conflitos gerados por essas relações não possam ser usados.
O discursivo, para Pêcheux (1993), deve ser concebido como um dos aspectos da materialidade ideológica. A espécie discursiva pertence, logo, ao gênero ideológico. As FIs ligam-se, portanto, a várias FDs, dando origem a redes de FDs.
Para o pesquisador francês, uma FI caracteriza um elemento capaz de atuar, em dado momento, no interior de uma conjuntura ideológica de uma formação social específica. Dessa forma, cada formação ideológica constituiria um grupo complexo de atitudes e representações direcionadas a diferentes posições de classes em conflito.
As FDs figuram na condição de componentes de FIs, porque a ideologia, ao interpelar os indivíduos em sujeitos, sempre o faz por meio de um conjunto de FIs, embora exercendo papéis distintos ao longo da história da luta de classes.
Esses papéis são distintos, no que se refere à reprodução e à transformação das relações de produção, devido às diferentes características regionais e às características de classe.
Consideremos, como exemplo, a FI religiosa. Essa formação atua, durante o feudalismo, como forma ideológica dominante. A formação religiosa interpela os indivíduos em sujeitos por meio do Estado religioso com as cerimônias específicas que a constituem. Dessa forma, atuam nas relações econômicas e jurídicas no interior das relações de produção que se concretizam durante o período do Feudalismo:
Na realização destas relações ideológicas de classes, diversas formações discursivas intervêm enquanto componentes, combinadas cada vez em formas específicas; por exemplo, e enquanto hipótese histórica a ser verificada: de um lado, a pregação camponesa reproduzida pelo “Baixo-Clero” no interior do campesinato, de outro o sermão do Alto-Clero para os Grandes da nobreza, logo duas formações discursivas, a primeira subordinada à segunda, de modo que se trata, ao mesmo tempo, das mesmas “coisas” (a pobreza, a morte, a submissão etc...) mas sob formas diferentes (ex.: a submissão do povo aos Grandes/ a submissão dos Grandes a Deus) e também de “coisas” diferentes (ex.: o trabalho da terra/ o destino dos Grandes). (Pêcheux: 1993, p.167).