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5.6 O PPSUMMERING AV EMPIRI I INSTRUMENTELT OG KULTURELT PERSPEKTIV

5.6.2 Oppsummering av empiri i et kulturelt perspektiv

No início dos anos 2000, como Nathan Zuckerman, personagem de Philip Roth que decide após experimentada existência sair de cena e abandonar Nova Iorque, os jantares, o cinema, a televisão, o telefone celular, DVD, computador, os rituais eleitorais, para continuar a viver na “Era da Máquina de Escrever”, ignorando propositadamente a “World Wide Web”, Freire decide retirar-se das agitações de São Paulo e morar em Cotia. Nesse momento reitera seu desconforto com a velhice, incomodo explicitado desde a metade da década anterior. “A vida de um velho não é nada agradável. Não é uma coisa boa. A gente ultrapassa o limite da saúde, da juventude, muito além do que devia ultrapassar. (...) O que faz de bom um velho? Qual é a sua produção? Ficam os afetos. Afetos de dependência. Eu não gosto. Eu gosto das pessoas, de amar as pessoas, mas quando passo a depender delas eu me sinto mal”.88

Mesmo reclamando da velhice, Freire passa a morar por iniciativa própria num recanto reservado a pessoas velhas, pois não admitia a possibilidade de tornar-se dependente de seus filhos. Foi precisamente nesse instante, apresentado por Buí, amigo e secretário de Freire com quem eu aprendia capoeira, que conheci Bigode. Passei a visitá-lo regularmente. A cada

encontro levava um toblerone, paixão que ele sustentou até o fim da existência, ao lado do uísque, das poesias de Rimbaud e das partidas do São Paulo Futebol Clube, seu time do coração.

Com o copo cheio em uma das mãos - era o único morador do recanto que bebia e se automedicava -, Bigode comentava passagens da vida, contava sobre algumas existências extraordinárias com as quais havia convivido. Era freqüente, mesmo fundeado em Cotia, fora de cena, vê-lo com seu óculos e tapa-olho de pirata, tomando um trago. Sua conversa sedutora, em alguns momentos, transformava aquele lugar macilento e insuportável em uma pequena taverna.

Anarquistas de além-mar e de vários cantos do país desembarcavam por ali. Na companhia de certos homens e mulheres libertários, Bigode ainda partia para novas viagens. Como no palácio de alabastro de John Ward, marinheiro inglês do século XVII, que converteu-se a pirataria com cinqüenta anos de idade, em Cotia, algumas conversas inauguravam navegações desconhecidas.

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Em 2007, Freire gravou uma intensa e divertida entrevista para a série de programas os Insurgentes, produzida pelo Nu-Sol e pela Tv Puc. Na entrevista gravada em Os Insurgentes reitera a importância de seu encontro com Julien Beck para a descoberta de Wilhem Reich e retoma a importância da palavra Tesão, na passagem entre a década de 1970 e os anos 1980, no Brasil, para o desenvolvimento de sua reflexão. A palavra, segundo ele, não era utilizada por outra juventude no mundo tampouco constava na definição de dicionários em outras línguas. Com quase oitenta anos, afirmou que o Tesão proferido pelos jovens significava sensualização da existência, ativador e ânimo de vida. “O brilho, o calor, a energia só possuem força se ricos em sensualidade”. Completou esbanjando seu humor libertário que “numa obra de arte, pintura, escultura, o que eu mais procuro é sua força sensual (...) lendo um livro ou escutando música a atitude é a mesma. Hoje mesmo ouvi, por exemplo, o ‘Trem Caipira’ de Vila Lobos com um arranjo extraordinário e fiquei num tamanho estado de sensualidade. Fiquei de sensibilidade dura”.89 Entretanto, o que

marcou a última entrevista de Roberto Freire foi sua problematização do Anarquismo no Brasil. Afetado ainda pelos acontecimentos de 2000, em Florianópolis, diz: “muitos anarquistas são ligados a Psicanálise e de um certo

89 Ver o programa gravado com Roberto Freire na série Os Insurgentes, produzida pelo Nu-Sol

modo ao comunismo também (...) Tenho dificuldades com certos anarquistas pois muitos são autoritários”90.

Questionado sobre seu interesse recente nas práticas de Émile Henry, jovem anarquista francês que fabricou e lançou bombas, em 1894, como resposta a violência organizada pelo Governo francês e sua polícia, que desde o final da Comuna de Paris perseguiam sistematicamente os libertários por todos os cantos da capital francesa, Freire recobra seu humor singular e diz que se possuísse uma bomba a jogaria exatamente nos anarquistas. “Porque ser anarquista não é dizer e sim viver, namorar, transar de modo anarquista (...) Mas a bomba que eu jogaria nos anarquistas é a bomba que descrevi em Coiote, isto é, a bomba anárquica. Uma personagem do romance havia sido amante de Wilhem Reich e descobrira com ele um jeito de fabricar esta bomba. Enquanto a bomba atômica mata todo mundo, esta bomba orgástica faria o mundo inteiro gozar”91. Freire assegura que está tudo pronto para o lançamento da bomba.

“Basta sermos mais radicais e terroristas”, completa. Se despede da intensa entrevista realizada numa tarde gostosa de verão na PUC-SP propondo além da bomba uma nova maneira de cumprimento libertário. Entre a “saúde” e a “anarquia”, palavras proferidas entre amigos anarquistas, ele acrescenta uma terceira: o Tesão.

90 Idem. 91 Idem.

Em Os Insurgentes Freire encerrou o grande silencio92 em que havia

mergulhado desde sua mudança para Cotia. Na entrevista revela as limitações e dificuldades decorrentes do Parkinson mas diz que aquela tarde na companhia de jovens e experientes anarquistas fez muito bem para sua saúde. É que ele, desde o deslocamento das retinas no início dos anos 1980, passando pelas fortes crises de angina pectoris na década seguinte e do desenvolvimento do Parkinson no início do século XXI, encontrou na companhia de seus amigos libertários outra saúde.

Maria Cristina Amorim Vieira em “O desafio da grande saúde em Nietzsche” ao analisar o “Convalescente”, capítulo pertencente a terceira parte de Assim falou Zaratustra, conclui que a convalescença seria o momento em que “não se trataria de pensarmos em vida e morte opondo-se entre si, mas pulsando simultaneamente, sinergicamente. Este é um dos aspectos mais difíceis deste pensamento, pois não pressupõe a escolha de uma outra vida em detrimento desta” (Vieira, 2000: 74).

Mesmo afetado por estas adversidades Freire afirmou uma saúde imensa, esta saúde que não se tem mas que consiste numa batalha daquele “cuja alma anseia haver experimentado o inteiro compasso dos valores e desejos até hoje existentes e haver navegado as praias todas desse

92 Nietzsche chama de grande silêncio o instante em que Zaratustra, em convalescença, ouve a

convocação de seus animais para que abandone sua caverna. Depois de certo tempo ouvindo Zaratustra emudeceu. “A serpente, porém, e a águia, ao vê-lo assim calado, respeitaram o

“Mediterrâneo” ideal, aquele que quer, mediante as aventuras da vivência mais sua, saber como se sente um descobridor e conquistador do ideal, e também um artista” (Nietzsche, 2007: 286). Seguindo a reflexão de Nietzsche em A Gaia Ciência percebemos Freire como um conquistador permanente desta grande saúde, pois, quanto mais a navegação da vida é arriscada, segundo o filósofo, mais força se adquire para lidar com as enfermidades e seguir adiante.

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