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3.2 U LIKE PERSPEKTIVER PÅ ENDRING

3.2.2 Det kulturelle perspektivet

Em entrevista ao jornal libertário O Inimigo do Rei, Freire comentou como foi movido a pensar em Coiote depois de assistir a coexistência libertária, na Itália, entre o tradutor de seu romance Cléo & Daniel e seus filhos. Foi a partir do contato, no início dos anos 1970, com outro modo de existência, do encontro com esta família anarquista que Freire decidiu levar adiante o projeto de dar forma a seu Coiote. 18 “Eu cai dentro de uma casa onde a família era anarquista.

A relação com os filhos, a forma como eles produziam e trabalhavam era chocante (...) Na Itália, na cidade onde fiquei, Forli, havia coisas bastante interessantes. Foi lá que nasceu Mussolini (risos). Foi lá que eu conheci um menino, que limpava a sede do centro anarquista deles, que uivava, e me deu a primeira idéia de escrever ‘O Coiote’”.19

Coiote faz parte assim como O Inimigo do Rei dos desdobramentos do que Edgar Rodrigues denominou “ressurgir do anarquismo” após o início da ditadura. “Ao Golpe de abril de 1964 sobrevieram inúmeras mudanças políticas no Brasil: (...) a repressão, prisões, torturas, mortes, censura à imprensa, apreensão de livros e jornais (...) Colocando a salvo a imprensa e os

18

Esta afirmação leva em conta o período em que Roberto Freire escreveu o romance. No prólogo ele afirma: “Trabalhei onze anos para escrever este livro”. Freire iniciou Coiote em 1975, dois anos antes da emergência de O Inimigo do Rei.

documentos sobre anarquismo que existiam, os libertários voltaram à propaganda dentro das cercas jurídicas do novo regime” (Rodrigues, 1993: 75).

Edgar Rodrigues, importante arquivista das práticas libertárias no Brasil, cita entre algumas produções de resistência que sobreviveram ao Golpe ainda na década de 1960, o jornal libertário Dealbar dirigido por Pedro Catallo, em São Paulo; as palestras que ocorriam no Centro de Estudos Professor José Oiticica no Rio de Janeiro; o “Nosso sítio”, espaço de práticas libertárias em Mogi das Cruzes, e a sessão brasileira do CIRA (Centro Internacional de Pesquisas sobre o Anarquismo), fundado por Pietro Ferrua, em 1967, e que mantinha correspondência com anarquistas de todo o planeta, traduzia textos, colaborava na edição de livros libertários, promovia palestras, funcionava como biblioteca e arquivo além de promover um curso sobre anarquismo em 1968, ano de promulgação do AI-5, que contou com a presença de John Cage. 20

A morte de Edgar Leuenroth, militante libertário reconhecido por sua atuação como jornalista, editor de periódicos libertários e integrante do Centro de Cultura Social, em 1968, e de Pedro Catallo, sapateiro, editor de jornais e

20

Pietro Ferrua relembra a divertida tarde em que o humorado músico anarquista falou aos participantes do curso sobre como cozinhar cogumelos. Interrompido por um provocador que afirmava esperar dele uma receita para a Revolução e não uma descrição culinária exclamou: “ ‘ Como vocês querem fazer uma revolução se os telefones não funcionam? ‘ “. Cage se referia a dificuldade de contato com Ferrua via telefone no Rio de Janeiro. Segundo Ferrua “ele ainda não sabia que nós tínhamos tentado em vão conseguir uma linha de telefone num restaurante ao lado, o que, no Brasil dos anos 1960, significava ficar meia hora na fila, esperar o sinal de linha livre, achar o número do hotel, ceder o aparelho para a pessoa de trás, retomar a fila e assim em diante, às vezes podendo chegar a mais de duas horas de espera” (Ferrua, 2009: 185).

responsável pela produção de inúmeras peças de teatro operário, no ano seguinte, somadas à prisão de dezoito militantes no Rio de Janeiro e o fechamento do Centro de Cultura Social de São Paulo, fez com que os libertários no Brasil se resguardassem, estrategicamente, no início dos anos 1970. Foi precisamente com a emergência do Inimigo do Rei, em 1977, época em que parte da população, no Brasil, se voltou contra a Ditadura, que o anarquismo retornou vigoroso, assumindo um discurso que incorporava, assim como a literatura de Freire, as reivindicações liberadoras dos costumes experimentadas por certos jovens a partir de 1968.

O Inimigo do Rei, em suas primeiras edições, se contraposicionou às discussões sobre a anistia, que haviam sido iniciadas a partir de 1975, mas que ganharam fôlego nos anos seguintes, principalmente na transição do governo do General Ernesto Geisel para o de João Batista Figueiredo. Criticando a distinção realizada por militantes de esquerda, em outros jornais, entre presos políticos e comuns, a equipe do jornal libertário reclamou anistia ampla, incluindo nos processos os presos ditos “comuns”. A sétima edição do jornal foi lançada com foto na capa de um homem com os braços para fora das grades, com destaque para a frase “Eu também quero sair” e, na décima edição, Antônio Carlos Pacheco questionou a imprensa de esquerda, que fizera o maior

alarido pelo último preso político no Ceará e, no entanto, calara diante das cadeias superlotadas do Brasil.21

A relação de cumplicidade entre Roberto Freire e a equipe que produzia o jornal na Bahia se estendeu para além do espaço das páginas. Com propostas de liberação do sexo, das drogas, dos costumes autoritários, tanto a equipe que produzia o periódico, quanto Freire, problematizaram a rigidez da militância esquerdista durante a ditadura militar e “abertura política”. Antônio Carlos Pacheco, integrante de O Inimigo do Rei, relata que “alguns anarquistas achavam que essas discussões não cabiam naquele momento. Diziam que Émile Armand já tinha falado sobre isso há mais de cem anos mas que tinha uma ditadura que oprimia a classe operária. Nós respondemos que era uma questão importante e que continuaríamos a tocar no assunto”.22

Em sua segunda edição, lançada em maio de 1978, a equipe que produzia o jornal dedicou uma resenha especial ao livro de ensaios de Roberto Freire viva eu viva tu viva o rabo do tatu. “A irreverência do título do livro, principalmente para o intelectual pequeno burguês que confunde ‘estar sério com ser sério’, deve estar gerando polêmica em qualquer meio onde ele já foi lido (...) é todo um grito, como já dissemos, um grito por liberdade, um grito de luta” (O Inimigo do Rei, 2. Maio./1978).

21 Ver: Simões, 2007: 168-180.