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A vida só é suportável para o homem se ela fizer sentido. (JUNG, 1990, p. 414).

Conforme Campbell (1994, p. 171), o homem das civilizações arcaicas foge do terror do Caos que habita seu mundo e constrói sua realidade tendo como necessidade básica o reencontro com o divino, o mágico, o mítico, o sobrenatural. Existir realmente para o homem primitivo significa caminhar de mãos dadas com o Cosmos e a esfera transcendente, o que é apenas possível se vivenciado a partir da estrutura que o mundo religioso comporta, ou seja, a partir de uma estrutura erguida com base no conceito de “sistema do mundo” das sociedades tradicionais. Esse sistema é constituído a partir do espaço delimitado que representa a abertura das vias que conduzem os homens aos deuses, promovendo a comunicação com os três níveis cósmicos da existência: Terra, Céu e mundo dos mortos (regiões inferiores). Por isso, a necessidade de o homem religioso “viver o mais perto possível do centro do Mundo” (ELIADE, 2001, p. 43)11. Em outras palavras, a realidade, para a mente primitiva, é dividida em duas esferas, transcendente e imanente, e tem como critério discriminatório, entre uma realidade e outra, o tempo sagrado (cíclico e heterogêneo) e o tempo profano (linear e homogêneo).

Ainda segundo Campbell (1994), o espaço é compreendido como “arquétipo celeste e modelo transcendente” (p. 177) por não ser escolhido livremente pelo homem, mas indicado pelos deuses durante a performance ritual. Uma vez reconhecido, o espaço precisa ser consagrado – ou seja, deixar de ser profano e se tornar sagrado – para, posteriormente, ser habitado. A escolha e a ritualização do espaço têm a função original de imitar o mito primordial da criação, quando o caos é transformado em Cosmos pelos antepassados míticos.

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Eliade (2001) define o “Centro do Mundo” como o espaço (consagrado) em que se vive (p. 64). As crenças sobre o “Centro do Mundo” e sua articulação com os níveis cósmicos traduzem a importância da localização dos templos e santuários sagrados, auxiliando a “tornar visíveis aos olhos mortais as grandes linhas da ordem da natureza” (CAMPBELL, 1994, p. 176).

Para o autor, “a ideia de um lugar sagrado é onde as paredes e as leis do mundo profano possam se dissolver para depois revelar alguma maravilha” (CAMPBELL, 1994, p. 179). Entretanto, para transformar a terra deserta em território sagrado é preciso seguir as normas que organizam o Caos e o transforma “simbolicamente em Cosmos mediante uma repetição ritual da cosmogonia” (ELIADE, 2001, p. 34).

Tendo em vista que o mundo dos homens é uma réplica do modelo divino da Criação e o homem deve-se manter o mais próximo possível do sagrado, a terra descoberta é recriada, renovada e santificada, fazendo do mundo humano, criação divina (ibidem). De acordo com Eliade (ibid., p. 35), criar novamente o território, renovando as energias locais, significa consagrar este lugar. Essa espécie de repetição da cosmogonia é responsável por estabelecer a íntima relação entre Cosmos e consagração territorial que fundamenta toda estrutura do pensamento mítico. Assim, o homem religioso habita “o coração do real” (ibid., p. 36), participa do ser, integra-se à realidade absoluta, distancia-se do Caos, da desordem e do horror de estar no vazio, diante do nada.

Diante da divindade a criatura só pode se sentir fraca, incapaz, totalmente dependente. Nem a pedra, nem a árvore, nem o animal, nem o homem são sagrados e sim aquilo que revelam; a hierofania faz que o objeto se torne outra coisa, embora permaneça o

mesmo. Um objeto ou uma pessoa não é “apenas” aquilo que se vê; são sempre sinais

sensíveis de algo que está por trás das aparências sensíveis. (ELIADE, 2001, p. 18).

Em suma, a construção de uma atmosfera impregnada de santidade inicia-se com a escolha do território para habitação e realização dos rituais. Posteriormente, a performance ritual continua com a delimitação temporal, que completa “agora os preparativos que conferem àquele espaço consagrado sua estrutura visível” (TURNER, 1974, p. 45). Assim como o espaço, que precisa ser consagrado, o tempo também se divide em dois intervalos de periodicidade: o tempo sagrado e o tempo ordinário.

Conforme visto anteriormente, os rituais primitivos apresentavam como premissa básica solucionar, entre outros aspectos, a questão da continuidade temporal. Separando o tempo sagrado do profano, o homem revive um tempo mítico primordial, sentindo-se uno com a Eternidade (ELIADE, 2001, p. 20). Conforme Campbell (1994, p. 175), o tempo sagrado12 é um tempo circular, criado pelo homem e sacralizado pelos deuses durante a performance ritual. A fusão do mundo humano com a esfera transcendente é encarada pelo homem religioso como uma espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos. Sobre a importância das festas para o homem mítico, Eliade diz:

Na festa reencontra-se plenamente a dimensão sagrada da Vida, experimenta-se a santidade da existência humana como criação divina. No resto do tempo, há sempre o risco de esquecer o que é fundamental: que a existência não é “dada” por aquilo que os modernos chamam “natureza”, mas sim, que é uma criação dos Outros, os

Deuses ou os seres semi-divinos. (ELIADE, 2001, p. 64).

Assim, ao comemorar periodicamente o calendário sagrado, o homem primordial evita que sua festa comemorativa se desvaneça, uma vez que o calendário traz a possibilidade de repetir anualmente os mesmos eventos, nas mesmas festas rituais, como uma “sucessão infinita de eternidades” (ibid, p. 66). Por essa razão, a oportunidade de retornar ao Cosmos, reviver acontecimentos míticos, transcender o limiar da mortalidade e assemelhar-se ao modelo da perfeição criadora salva a experiência de vida do Caos e do fim permanente, dando sentido à existência e vinculando uns aos outros.

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Para exemplificar essa concepção arcaica de tempo mítico, Eliade (2001) cita a festa de Ano Novo. O ritual de Ano Novo representa a recriação do Mundo a partir de um recomeço cíclico dos meses que o compõem. Para as civilizações ocidentais, o ano começa em janeiro, potencialmente puro e virgem, mas, com o passar dos meses, começa a acumular angústias sucessivas até atingir o ápice do desgaste psicológico e ansiedades do tempo

cíclico. Por isso, o mês de dezembro é visto pelo autor como “o mais tenso do ano”, pois é o momento do Caos,