5.6 O PPSUMMERING AV EMPIRI I INSTRUMENTELT OG KULTURELT PERSPEKTIV
5.6.1 Oppsummering av empiri i et instrumentelt perspektiv
liv & tatziu encerra a década em que Freire mais se aproximou de certos anarquistas, sobretudo após a realização, em 1992, na PUC-SP, do “Outros 500: Pensamento Libertário Internacional”. “Parece que antes disto a relação do Roberto e da Soma com o movimento anarquista no Brasil era outra. Depois do ‘Outros 500’ ele conseguiu fortalecer certos vínculos e estabeleceu relações de cumplicidade com alguns anarquistas. Os momentos de intriga e rusga aconteceram depois” recorda Vera Schroeder. Porém, já naquele momento, ao mesmo tempo em que “havia um certo respeito”, existia também a tensão, segundo ela, entre Freire e alguns anarquistas ligados a práticas libertárias
consideradas mais “clássicas, históricas, ligadas ao sindicalismo, ao Movimento Operário”. 77
No início da década seguinte, três anos depois da publicação de liv & tatziu, em setembro de 2000, as rusgas referidas por Schroeder são explicitadas e Freire rompe, definitivamente, com a organização anarquista no “Encontro Internacional de Cultura Libertária”, realizado em Florianópolis, na UFSC. Freire havia sugerido e encaminhado à organização do evento a proposta para a criação de uma Federação Libertária no Brasil. Em São Paulo, semanas antes, em discussões abertas, variadas associações discutiram e estudaram a sugestão.78 Contudo, em Florianópolis diversas organizações reagiram a tal
77 Depoimento de Vera Schroeder: 12/11/2010. 78
Segundo Salete Oliveira “o encontro de Florianópolis foi antecedido por uma série de conversas. A proposta de Federação havia sido feita pelo Roberto. Com sua generosidade, o Edson propiciou e agitou uma série de conversas com diversas associações. O Nu-Sol propiciou essas conversas abertas, muitas delas realizadas na PUC, e que envolviam diversas associações. Quando o Nu-Sol resolveu entrar na proposta da Federação Anarquista havia a urgência de uma luta abolicionista libertária. Isso provinha de uma urgência nossa em se mover, se movimentar diante da luta antiprisional, antiencarceramento de jovens, da luta pela abolição não somente das prisões ou do direito universal mas do regime do castigo(...) Em 1999, uma série de rebeliões havia estourado na FEBEM e a moçada ainda não estava apaziguada como hoje (...) A Federação vinha de encontro a essa urgência”. A leitura dos hippomnematas, boletim eletrônico mensal produzido pelo Nu-Sol, reiteram o depoimento de Salete Oliveira. De sua primeira edição, de agosto de 1999 a décima primeira, em agosto de 2000, véspera do “Encontro Internacional”, há uma intensa problematização e acompanhamento das rebeliões ocorridas na FEBEM. Na segunda edição do hyppomnemata o Nu-Sol afirmou que “o fogo ateado, pelos adolescentes internos na FEBEM, no Dormitório 2 do Complexo Imigrantes, neste sábado, 11/09/99, explicita com todas as letras, dispensando a retórica ilustrada, que a prisão salubre ou insalubre, super-lotada ou não, centralizada ou descentralizada não serve para nada. A atitude desses adolescentes evidencia, ainda, para escândalo das sentinelas da dignidade humana, que a prisão, seja ela qual for, independente do momento histórico, é sempre tortura”. hypomnemata, No 2, setembro de 1999. Ver: http://www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php?idhypom=8
proposta, divulgando uma carta destinada “aos companheiros do Soma, do Nu- Sol e do Coletivo Libertárias”.
A carta tem início valorizando a importância da busca por uma Federação que articulasse o anarquismo no país, porém, segundo aqueles que assinam o documento, o “método” e a “oportunidade” da proposta encaminhada por Freire estavam equivocadas. As principais justificativas para o boicote seriam a baixa “representatividade” de grupos presentes no Encontro, o que impediria a decisão de formação de uma Federação, e a priorização do que chamaram de “articular bases e organizações de base”. As conseqüências da proposta “intempestiva”, palavra utilizada na carta referida, deram origem, segundo José Maria Carvalho Ferreira, “a ataques pessoais de uma violência e dogmatismo semelhantes a qualquer partido, sindicato ou religião. O que é deveras interessante”, conclui, “é hoje verificar que esses mesmos revolucionários anarquistas que criticavam a legitimidade e o reformismo das posições de Roberto Freire, sejam agora os arautos criadores de federações anarquistas” (Ferreira, 2008: 36).
Vera Schroeder relembra que, para Roberto Freire, “foi uma frustração muito grande (...) Quando chegamos em Floripa falaram que era uma armação nossa. Era um pouco óbvia a reação. Desde a abertura havia uma série de
picuinhas que não deixavam a discussão avançar”. Schroeder prossegue recordando a reação à discussão sugerida pela mesa que dividiu com Margareth Rago e Salete Oliveira. “De repente a gente viu aqueles homens de pé, apontando o dedo na nossa cara, gritando, acusando. O que nós fizemos foi somente apresentar uma proposta para se pensar numa Federação. Hoje eu vejo as coisas com certa leveza e humor mas o desrespeito foi muito grande. Eu me senti esculhambada.”79 Segundo Margareth Rago, “o que houve em
Florianópolis foi tão absurdo, um desencontro tão grande que tenho dificuldade de explicar. Foi muito triste, porque de repente todos os esforços para fortalecer, para articular, para expandir o movimento anarquista no Brasil foram jogados fora brutalmente por pessoas que se diziam anarquistas. Não deu para entender, ou antes, só deu para entender que muitos anarquistas estão longe demais do anarquismo”.80
Para além de ter sido marcada na memória pela saída de Roberto Freire, “subindo as escadas do anfiteatro, branindo a bengala”, dizendo que nunca mais agitaria nada em relação aos anarquistas, Salete Oliveira reitera, como Rago e Schroeder, a postura extremamente autoritária e machista de alguns anarquistas. “Margareth, eu e outras mulheres fomos falar e quase fomos agredidas fisicamente. Só não fomos agredidas porque nós mesmas impedimos.
79 Ibidem.
Eles explicitaram ali o quanto de autoritário e antianarquista havia naquele comportamento”. O ápice da reação do anarquismo organizado à proposição da Federação, reação que na carta de boicote diz não possuir “nenhum resquício de desafeto ou divergência pessoal”, se mostrou, segundo Salete Oliveira, “numa posição extremamente machista em relação às mulheres”81.
Ainda no mês de setembro de 2000, o Nu-Sol posicionou-se diante dos acontecimentos em Florianópolis com a divulgação de um hypomnemata. “Ficou claro o que muitos pensavam e suas formas de atuação e, sem dúvida, todos saímos de lá sabendo a respeito de federação, de redes e de grupos que não pretendem se vincular a redes ou federações para se entranharem em gloriosas solidões. Vivemos a multiplicidade dos anarquismos sem a fantasia de sermos os escolhidos, os mais conscientes, os verdadeiros, mas sabendo ser pequenos e incomensuráveis”82. Em 2002, com a primeira edição da revista verve, Passetti
problematizou em “A arte da amizade”83, a concepção organizativa de certos
anarquistas como a expressa na carta de boicote à Federação. Acompanhando as reflexões de La Boétie e Max Stirner, conclui que não há autonomia real do sujeito e que a vontade da coletividade é uma espiritualidade.
81 Depoimento de Salete Oliveira: 19/03/2011. 82hypomnemata, No 12, setembro de 2000. Ver:
http://www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php?idhypom=18
Freire diria a Jorge Goia, seis meses depois do Encontro libertário, que concentraria suas forças exclusivamente no desenvolvimento de seu anarquismo somático, pois, segundo ele, conseguiria um resultado muito melhor do que ficar pensando “em sindicalismo, em federações, com heranças ainda marxistas” (Freire apud Goia, 2001: 118). Goia, somaterapeuta que também estava presente em Florianopólis disse que “a expectativa do Bigode era grande. Ele achava que os anarquistas podiam se unir e se fortalecer. Depois dos ‘Outros 500’ a vontade dele era juntar diferentes anarquistas (...) trabalhar junto. A mágoa com a reação de parte dos anarquistas presentes foi grande”.84 Para João Da Mata, “depois de
Florianópolis houve um esfriamento do Movimento Anarquista no Brasil. Não aconteceu outro encontro daquela importância. O Roberto tinha setenta anos na época. E foi mais uma porrada que ele levou. Concluímos em conversas que o movimento anarquista era cheio de contradições e autoritarismos”.85Depois de romper com a Ação Popular e escrever livros exclusivamente dedicados a afirmação de sua perspectiva política libertária, Freire não esperava deparar-se novamente com o autoritarismo militante, muito menos, oriundo dos anarquistas.86
84 Depoimento de Jorge Goia: 12/01/2011. 85 Depoimento de João Da Mata: 08/02/2011.
86 Entretanto, após os embates, Goia, Da Mata e Schroeder concordam que Freire encontrou em
alguns anarquistas como Edson Passetti, José Maria Carvalho Ferreira e Margareth Rago, uma salutar cumplicidade para seguir vivendo e produzindo libertariamente seus escritos.
Dois anos depois do Encontro Libertário, em 2002, Freire lançou pela editora Maianga sua autobiografia Eu é um outro contando suas memórias desde a infância no Bixiga, até setembro de 2001, mês do ataque ao World Trade Center, nos Estados Unidos. Em 2003 publicou Momento Culminante, romance policial no qual desenvolveu a história de Leonardo, um detetive amador apaixonado por desvendar crimes extraordinários. Não há neste último romance nenhuma referência ao anarquismo e a presença de Wilhem Reich pode ser percebida apenas tangencialmente. Contudo, o livro, que descreve a investigação do desaparecimento de jovens amantes, apresenta a noção de Momento Culminante, instantes, segundo o professor Sabóia, um dos personagens da trama, em que as expressões culturais agônicas se assemelham às orgásticas. Neste último romance, Freire associa os momentos decisivos da vida: orgasmos e morte.
Posterior a publicação de Momento Culminante, em decorrência do desenvolvimento de uma Doença de Parkinson, Freire não conseguiria mais escrever. “Ele sempre escreveu a caneta. Nunca conseguiu, mesmo na época em que ele era repórter, escrever na máquina de escrever. Dizia que tinha dificuldades com que ele chamava de coordenação fina. Ele não conseguia tocar instrumentos, pintar” recorda Vera Schroeder.87 “Quando aquilo que mais
gostava de fazer não foi mais possível, escrever, resolveu fazer um disco com
seus filhos músicos. Quando Roberto Freire me disse isso, que iria fazer um disco, respondi: ‘Que bacana, agora só falta você dançar. Tudo o mais você já fez na vida!’ Rindo, retrucou: ‘Pois é, falta fazer ballet!’” (Scroeder, 2008, s/p). No mesmo ano do lançamento deste cd, Vida de Artista, Freire assiste a entrada da Soma na universidade com o “Curso de Introdução à Somaterapia”, na UERJ e simultâneo a este novo momento, encoraja a expansão da terapia anarquista pela Europa. Jorge Goia conta que o teve como interlocutor frequente de suas
descobertas em Londres. “As pessoas que me procuravam lá não eram pessoas
interessadas em terapia e sim pessoas já envolvidas com lutas políticas, um pessoal das okupas em Barcelona, ativistas anti-glob, em Londres. Recentemente muitas pessoas na Inglaterra formaram movimentos ecológicos. Tenho feito workshops com essas pessoas nos climate camps, acontecimentos políticos localizados nos quais os ativistas ocupam uma terra e montam um acampamento com tendas enormes onde acontecem oficinas e debates que culminam no final em ação direta. É impressionante. Uma semana antes deles partirem para o fechamento de uma usina de carvão realizei um exercício coletivo de desbloqueio. Ele me diziam: ‘é por isso que a gente vai pra porrada porquê é esse tipo de relação que a gente quer, essa troca e não o que tem sido imposto’ “ relata Goia.