I.I Hvem? Ruth Thomsen og Stavanger Aftenblads kvinnelige journalister
6.5 De opprørske 1970-årene
O último artista que destacaremos aqui é Rodrigo Braga. Nascido em Manaus (AM) em 1976 e radicado em Recife (PE), Rodrigo Braga foi um dos artistas que participou da exposição Geração 00 – A Nova Fotografia Brasileira, também com imagens da série Desejo Eremita. Nesta exposição o artista apresenta quatro imagens desta série: Desejo Eremita 12, Desejo Eremita 2, Desejo Eremita 13 e Desejo Eremita 3 [Figura 52].
Desejo Eremita (2009) foi um projeto contemplado pela Fundação Nacional de Artes – FUNARTE, no Programa de Bolsas de Estímulo à Criação Artística na categoria Fotografia, que apresentou uma série de 17 imagens, resultado de uma residência de imersão do artista numa zona rural entre as pequenas cidades de Tabira e Solidão – ambas no Sertão de Pernambuco, a 400 km do Recife213. Submetendo-se a uma ação ritualística e performática e afastando-se do ritmo incessante da metrópole, o artista se propôs a experimentar a rotina de viver em um novo ambiente, como um eremita, ligado aos aspectos mais crus e ritualísticos da natureza. Essa imersão profunda no ambiente natural levou-o a um estado criativo mais instintivo, mais próximo aos sentidos e aos sentimentos, numa espécie de busca e reconhecimento interior.
Figura 52. Rodrigo Braga, Desejo Eremita 3, 2009.
Braga esteve no Sertão pernambucano em dois períodos no ano de 2009: num primeiro momento, vivenciou o período chuvoso e conviveu com uma paisagem incomum - o do verde abundante. Num segundo período, conviveu com o contraste das adversidades da seca. Em entrevista feita por Bitu Cassundé (curador e diretor do Museu Murillo La Greca de Recife), o artista conta:
Nos dois casos me deparei com ambientes extremamente ricos em aspectos simbólicos para meus trabalhos. Isso me deu mais elementos do que eu imaginava para a produção das imagens. Esperava uma paisagem mais desértica e monótona, mas acabei me deparando com inúmeras possibilidades. Enfim, juntei um pouco de mim e outro tanto de tudo o que me rodeava e devolvi a série de fotografias Desejo eremita, que, certamente, é desdobramento de trabalhos anteriores, tanto pelas investigações estéticas quanto pelas preocupações discursivas. 214
Na tentativa de ultrapassar os estereótipos construídos ao longo dos últimos séculos acerca da relação homem-sertão e da cultura popular nordestina, o artista debruçou-se sobre um ambiente até então pouco vivenciado por ele, numa experiência direta com a natureza.
213 Um ano antes de o projeto ser aprovado, o artista havia vivenciado uma experiência parecida com esta: uma residência artística na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, da qual resultou a série Paisagens, 2008.
“Vislumbro estabelecer, através da imagem, uma relação mais espacial e sensorial do que cultural”, diz em entrevista para o blog Olhavê215. Certamente o aspecto cultural do lugar também
teve forte influência em seu processo de trabalho. Nele, o artista teceu relações com algumas pessoas locais e conviveu com histórias brutais de violência humana e animal, da região. Segundo Braga, “ao rever as imagens ele percebeu que certo teor rude não é casual, e sim reflexo de uma realidade muito peculiar e por isso mesmo instigante”216.
A proposta de uma radicalização da experiência de imersão sobre um tema ou situação através de uma poética em curso, tem sido uma constante nos trabalhos de Braga. O artista deixa claro também que o projeto é a potencialização de uma pesquisa sobre a linguagem fotográfica em dissolução de fronteiras com outras linguagens artísticas (como a performance e a Land Art), adentrando também a uma maior abertura de resignificações para a fotografia de paisagem. Nesta junção entre performance e land art – onde a fotografia apareceria como registro da performance, num trabalho in processing, através de um embate relacional com os elementos naturais que o cerca, as imagens desse trabalho surgem em plena ação criativa enquanto processo. Ou seja, não foram definidas de antemão, mas sim construídas através de uma produção em processo que dependeu inteiramente do envolvimento do artista com o seu entorno, e de sua nova realidade geográfica e temporal. Esse isolamento também serviu para um profundo autoconhecimento. A troca física e simbólica vivenciada pelo artista neste novo ambiente teceu relações de forte cunho autobiográfico.
O artista, sempre ligado com sua intimidade e autoconhecimento, em entrevista ao blog Olhavê, diz:
De fato, em meu processo, já existe uma costumeira prática de expurgar e produzir imagens a partir de um universo quase sempre muito particular e até mesmo psicológico. Contudo, nessa nova produção, me proponho a provocar certa entropia em meu próprio processo de criação, no sentido de instaurar procedimentos até então novos na minha dinâmica de trabalho. Embora esteja em condição de isolamento, também busco uma alteridade junto à paisagem. Uma tentativa de me identificar naquilo que está ao meu redor e, também, perceber como esse entorno reverbera em mim. 217
215 Entrevista disponível em: <http://www.olhave.com.br/blog/?p=1667>. Acesso em: 23 mai. 2012.
216“Rodrigo Braga na Amparo 60”, por Mariana Oliveira. Disponível em: <http://www.overmundo.com.br/agenda/ rodrigo-braga-na-amparo-60>. Acesso em: 16 mai. 2012.
217 Entrevista publicada em 20/03/2009 para o blog Olhavê. Disponível em: <http://www.olhave.com.br/blog/?p=1667>. Acesso em: 16 mai. 2012.
De fato o trabalho de Rodrigo Braga dialoga sim com elementos de sua vida. O processo criativo de Rodrigo Braga implica, ao mesmo tempo, em construção de analogias (metáforas) e transbordamentos (metonímias) daquilo que ele é. Não daquilo que ele é no dia a dia, mas de suas potências, aquilo que já lhe pertence e que só a arte pode revelar. O que Rodrigo Braga faz não é encenar aquilo que a sociedade não nos permite ser, mas revelar aquilo que invariavelmente também somos: matéria, corpo, carne, fluídos, natureza. O que ele registra com sua câmera tem a força de um ritual.
Ronaldo Entler nos diz que a série Desejo Eremita não é a história de um artista cansado da cidade. É o mito de um homem que se confronta com a natureza em estado estranho, cru, fétido, viscoso, caótico (nada a ver com natureza doce e redentora dos ecologistas, que plantam árvores para salvar o planeta). Mitos são essa forma arcaica, sentida e poderosa de dar conta da realidade, diante da qual nossa moral também vê hoje duas possibilidades: ou os explica conforme as convenções da ciência ou os despreza como sinônimo de mentira. Essa obra é o registro de uma expedição feita pelo artista, que o leva da civilização a um lugar distante e selvagem que é também ele mesmo. 218