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Journalisters yrkesidealer

In document Å SKRIVE I MOTVIND (sider 33-36)

I.I Hvem? Ruth Thomsen og Stavanger Aftenblads kvinnelige journalister

3. TEORETISK GRUNNLAG

3.5 Journalisters yrkesidealer

Seguindo na mesma linha, podemos citar outro artista presente nesta mostra que faz um diálogo entre o surrealismo inserido em vários dos trabalhos de Michals e o erotismo próprio dos trabalhos de Mapplethorpe.

Veterano entre os artistas desta mostra, o pintor e fotógrafo surrealista francês Pierre

Molinier (1900-1976) começou sua produção por volta de 1950, principalmente por meio de

fotomontagens de cunho erótico. Fez sua primeira fotografia aos 18 anos e conseguiu a primeira exposição de suas pinturas em Paris no ano de 1956, com a ajuda do escritor e poeta André Breton. Foi um travesti e fetichista assumido, um frequentador assíduo dos bordéis franceses e marcou uma época com sua arte obsessiva e apaixonadamente erótica. Alimentava um fetiche por sapatos, meias e pernas. Em suas imagens, apresenta corpos que exibem sua autossuficiência, liberdade e um grande narcisismo sexual, tudo isso mergulhado numa atmosfera decadente repleta de perversões obsessivas.

162 SONTAG, op. cit., p. 138. 163 Idem, ibidem, pp. 15, 26 e 27. 164 BARTHES, op. cit., pp. 68, 78 e 89.

Antes de Sherman, como vimos anteriormente, Molinier já trabalhava com a ajuda de uma ampla gama de artifícios e adereços - manequins, próteses entre outros vários acessórios. O artista também focou suas imagens principalmente em seu próprio corpo, fazendo inúmeros autorretratos onde aparece travestido como mulher. Suas fotografias eram feitas para seu próprio prazer erótico e demonstram claramente suas obsessões e impulsos. Erotismo, fetichismo, sexualidade, morte, desejo, perversão, androginia e confusão de gêneros são algumas das características que permeiam suas fotografias. Estas evocam uma espectral estranheza: em diversas fotomontagens, cria híbridos de homens e mulheres, manequins e humanos, falos e acessórios, que nos envolvem em um cenário de perversão que flutua em mutações semióticas de sua linguagem identitária. Destacamos aqui apenas duas das quatro imagens que foram apresentadas na exposição Eu me desdobro em Muitos (2011): Eu, Hanel (1960) e O que eu gostaria de ser (1969) [Figura 36 e Figura 37].

Figura 36. Pierre Molinier, Eu, Hanel.1960.

Cópia em gelatina de prata (fotomontagem)

Coleção Maison Européenne de la Photographie, Paris, anos 1960 – 1970, 17,5 x 12,5 cm.

Figura 37. Pierre Molinier, O que eu gostaria de ser, 1969.

Cópia em gelatina de prata (fotomontagem)

Coleção Maison Européenne de la Photographie, Paris, 1969, 17,5 x 12,5 cm

Ao se referir à Hanel, na Figura 36, fala da sadomasoquista alemã Hanel Koeck, sua fiel colaboradora que se faz presente em ambas as imagens aqui apresentadas. Além de ter se tornado modelo de muitas de suas fotomontagens, Hanel também se tornou a personificação do ideal imaginário-andrógino do artista. São várias as características que essas imagens de Molinier nos trazem - o corpo reconfigurado, o manequim, a duplicação, entre outros. Porém, detemo-nos aqui em apenas alguns importantes aspectos. Nas duas imagens percebemos a ânsia do artista em ser representado como mulher. Para tal empreendimento, primeiramente vestia acessórios eróticos próprios do gênero feminino: espartilho ou bustiê, cinta-liga, meia de seda e salto agulha. Logo depois, o artista apagava seu próprio sexo no negativo ou na hora da impressão das fotografias. Desta forma, Molinier construía suas imagens conforme suas próprias fantasias.

Nesta breve análise das imagens de Molinier, vale destacar ainda a afirmação colocada por Le Breton (2003), de que o corpo “deixou de ser uma identidade de si, destino de uma pessoa, para se tornar um kit, uma soma de partes eventualmente destacáveis à disposição de um indivíduo apreendido em uma manipulação de si e para quem justamente o corpo é a peça principal da afirmação pessoal”165. O corpo apresenta-se assim, como objeto modulável e

manipulável da existência pessoal exibindo uma identidade escolhida, por vezes provisoriamente,

para a afirmação de uma identidade. É assim que Molinier trabalha seu corpo em suas imagens – como um objeto manipulável suscetível a muitos emparelhamentos e reconfigurações. Mais adiante veremos que essas radicalizações deixam de apresentar-se apenas em imagens corporais e ganham novas configurações mostrando-se, por vezes, diretamente talhadas em carne viva, como é o caso da body-art e dos trabalhos da artista ORLAN.

Le Breton (2003) afirma que, “longe de serem a evidência da relação com o mundo, feminilidade e masculinidade são o objeto de uma produção permanente por um uso apropriado dos signos, de uma redefinição de si: conforme design corporal, tornam-se um vasto campo de experimentação”166. Esta descrição é colocada por Le Breton ao remeter-se à análise do

transexualismo, porém encaixa-se de forma considerável a analise das imagens produzidas por Molinier: seus corpos aqui apresentam-se “como uma identidade da não identidade, ou melhor, uma reivindicação de si que nasce de não se sentir ligado a uma situação definida e definitiva, mas, ao contrário, em trânsito, em transformação, em relação, em fluxo”. 167

Molinier almejou atingir um estado permanente da perversão múltipla: transformando-se em um híbrido de homem e mulher, formou uma nova criatura de gêneros simultâneos - um hermafrodita ou mesmo um transexual – que ao invés de mudar de sexo por meio da operação cirúrgica, empreende tal mudança a partir da imagem fotográfica. Le Breton coloca que “o transexual é um viajante em seu próprio corpo, cuja forma e cujo gênero mudam à sua vontade, levando a termo a condição de objeto de circunstância de um corpo que se tornou modulável e determinável não mais com relação ao sujeito, mas ao momento”. Ou seja, “O travestir é, aliás, uma dimensão essencial da body art, que manifesta a vontade de se liberar dos limites da identidade sexual” 168. Nestas confusões, hibridações e intercalações de gêneros, o corpo aparece

como algo suscetível de transformação e reconfiguração, torna-se um campo vasto de experimentação e afirmação da identidade do sujeito.

Iniciando seu trabalho em uma época anterior aos demais artistas citados, provavelmente Molinier tenha influenciado de forma substancial seus trabalhos. Suas fotomontagens se tornaram uma espécie de trocadilho visual que poderia vir a antecipar as construções pós-modernas de Cindy Sherman, em seus usos de artifícios, como manequins e próteses, e em várias de suas

166 LE BRETON, op. cit., p. 32.

167 VELENA apud LE BRETON, ibidem, p. 33. 168 LE BRETON, ibidem, p. 34.

fotografias encenadas, ou ainda, alguns aspectos da cultura gay que tanto atraiu os artistas da década de 60 e 70, como vimos em Mapplethorpe.

As imagens de Molinier nos fazem lembrar o relacionamento entre o surrealismo e o desejo freudiano de morte. Para Freud, o desejo de morte é um desejo, bem como uma compulsão, um desejo tão poderoso como o erotismo. Pode ser por isso que, nesse desejo de morte, Molinier tenha cometido suicídio, em 1976, atirando em sua própria cabeça em frente ao espelho de seu estúdio, onde por anos, ele havia promulgado e fotografado seus rituais eróticos de autotransformação.

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