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De gyldne 1960-årene

In document Å SKRIVE I MOTVIND (sider 75-83)

I.I Hvem? Ruth Thomsen og Stavanger Aftenblads kvinnelige journalister

6.4 De gyldne 1960-årene

De fato, uma obra de arte pode apresentar-se utilizando tanto as técnicas mais tradicionais, como as mais avançadas. Eis a interdisciplinaridade característica da arte contemporânea. Se no trabalho de Fernanda Magalhães as fotocolagens, através de recortes de imagens de revistas, são uma característica presente em sua obra, em Helena de Barros tem-se o predomínio da manipulação digital, em obras em que se apropria de cenas clássicas da História da Arte, de lendas e estórias infantis, onde a artista torna-se personagem destas, através de autorretratos fotográficos. Assim como no trabalho de ORLAN, Helena de Barros utiliza a tecnologia digital como aliada para a concretização de suas ideias artísticas, transformando sua identidade através da contaminação do real pelo virtual, por meio de programas de manipulação de imagem.

Se as novas tecnologias causaram um rompimento de fronteiras entre diferentes linguagens artísticas – dança, cinema, teatro, fotografia – uma vez que a disseminação de instalações multimídias e de performances favoreceu a união de todos esses meio de expressão, no caso específico da fotografia, com o surgimento das técnicas e programas de manipulação digital da imagem, foi às novas e diversas possibilidades, comparado com os procedimentos anteriores a prática fotográfica– tais sejam a colagem e fotomontagem feitas manualmente ou de

forma analógica. Assim sendo, retrabalhar imagens tornou-se uma prática fácil e corriqueira com a arte digital.

A história da evolução da técnica sempre esteve ligada a história da evolução humana. Assim como o forte desejo de fotografar pessoas e de as pessoas serem fotografadas precipitou e influenciou de forma relevante a invenção da fotografia. Desde os primórdios da fotografia, seja por meio de retoques e interferências na imagem fotográfica, ou mesmo nas fotomontagens surrealistas, a manipulação de imagens sempre foi uma constante na arte fotográfica e sempre esteve limitada por questões técnicas.

Com o surgimento das tecnologias digitais, assim como a disseminação do uso de computadores e da internet na sociedade, uma série de mudanças foi instaurada dentro do processo de comunicação. É principalmente a partir dos anos 70 que vários artistas se lançam na busca de descobrir as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias - através da vídeo-arte, da fotografia, dos computadores, entre outros meios. É nessa lógica que se começa a utilizar meios digitais de manipulação de imagem. Desta forma, as ferramentas digitais, assim como a o uso da manipulação digital de imagens, tornam-se uma prática muito comum no meio artístico e social.

É nesta direção que nos leva o trabalho da artista Helena de Barros. Utilizando meios de manipulação de imagem de maneira lúdica, a artista hibridiza sua própria imagem com diversos personagens da ficção. Seu trabalho é assumidamente repleto de referências de trabalhos de outros artistas - releituras de obras clássicas, de mitos, lendas e estórias infantis. Uma de suas obras mais conhecidas é a série Wonderland, inspirada em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, exposta desde 2003 na comunidade virtual “Fotolog.com”, que alcançou reconhecimento do público com mais de 1.200.000 pageviews e foi contemplado com artigos em jornais, revistas e livros nacionais e estrangeiros.

Especializada na área de tratamento de imagem digital, em arte-finalização e pré- produção de projetos, esta designer carioca tornou-se uma espécie de musa dos fotologs206 com a criação de sua personagem “Helenbar”- uma espécie de avatar, ou mesmo alter ego virtual da artista, que através dela encarna diferentes personagens, resignificando artisticamente a noção de representação de sua própria imagem. Seu alter ego envolve-se em diversas tramas digitais, onde

206 Fotolog é um espaço de comunicação em rede que tem sido utilizado como registro cotidiano por seus usuários, como uma espécie de diário on-line. Trata-se de uma variação do blog, com a diferença de que nos blogs o texto aparece como elemento principal e no fotolog a imagem fotográfica é o destaque da mensagem.

o corpo é referenciado tanto por citações à História da Arte quanto pelas identidades fluídas e plurais dos sujeitos contemporâneos.

Figura 48. Helenbar, O Fruto, 2008.

Impressão em tinta pigmentada sobre papel algodão. 50 x 50 cm.

O trabalho de Helenbar remete, em alguns aspectos, aos trabalhos dos outros artistas até então aqui apresentados, assim como traz características constantes da produção de autorretratos fotográficos: a encenação característica do gênero retrato; a reinvenção de si como personagens de ficção; o uso da própria imagem; a apropriação e releitura de obras clássicas. Nas seis imagens apresentadas pela artista na exposição Eu me Desdobro em Muitos (2011) estas características se fazem presentes. Destaquemos apenas a imagem digital “O fruto”, de 2008 [Figura 48].

Nesta imagem, Helenbar recria a cena bíblica cristã do pecado original, com Eva sendo seduzida por uma serpente e entregando-se ao ímpeto de experimentar o fruto proibido pelo Deus criador. A consequência, como é de conhecimento geral, foi a expulsão do casal Adão e Eva do Paraíso, dando início aos sofrimentos e mazelas da humanidade. Helenbar profana o mito criacionista cristão e, utiliza elementos tecnológicos da contemporaneidade para engendrar seu gesto.

Há uma sofisticada ironia nesta imagem que parece vir de sua contradição com a história original. Helenbar, grávida, é apresentada na imagem segurando uma maçã - fruto que se tornou símbolo do pecado original e também é símbolo de paixão, desejo e sexualidade. “Bendito é o fruto do vosso ventre”, escreve a artista a cerca da imagem. Faz-se assim uma referencia a gestação, a mulher e a fertilidade207. Porém, a Eva, de Helenbar, não é uma pecadora. É tanto uma contestadora de normas e discursos. A transgressão que encarna não é pecaminosa, tampouco amoral. A transgressão está tomada do corpo e na assunção ao âmbito do artifício, do fabricado, do ordinário. A artista insere-se em um contexto da imagem como ilusão, onde qualquer expectativa da fotografia como cópia fidedigna do real foi abandonada. Em um cenário natural, a artista constrói a artificialidade computacional da cena.

O trabalho de Helenbar pode ser considerado um típico exemplo de hibridação e reapropriação de imagens em obras fotograficas - duas características, segundo vários autores, próprias da contemporaneidade. O hibridismo, o simulacral e o lúdico tornam-se a tônica dos autorretratos fotográficos da artista.

Sobre o uso de autorretratos, em entrevista a Revista Web Design, a artista comenta:

Sou a melhor pessoa para interpretar as minhas ideias, pois sei exatamente o que estou buscando, expressão, conceito e resultado gráfico. Não tenho que discutir com ninguém, é completamente autoral. Acho que seria mais difícil conseguir o mesmo tipo de resultado com uma equipe. Numa equipe, sempre existem divergências conceituais ou estéticas, tem que estar todo mundo muito afinado pra funcionar. 208

Esta pode ser uma das características que levam estes artistas a trabalharem suas próprias imagens frequentemente sozinhos. Outra questão que ainda pode ser levantada a partir do trabalho do trabalho de Helena de Barros é a superexposição do sujeito nas redes virtuais, onde aparecem centenas de autorretratos fotográficos. Se a superficialidade e a autoexposição fotográfica é uma das características que imperam hoje nas redes virtuais, vimos que essa exposição no trabalho da artista Helena de Barros, reconhecida como uma das musas dos fotologs artísticos foi o impulsionador de sua carreira artística.

In document Å SKRIVE I MOTVIND (sider 75-83)