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Kapittel 1 Oversikt over temaet

1.4 Oppgavens oppbygning

A concepção radical de realidade construída pelo indivíduo a partir da própria experiência é um aspecto muito criticado da abordagem aqui apresentada. Para a maior parte das pessoas, ela é simplesmente incompatível com o senso comum. Outras não estão dispostas a abrir mão da noção da existência de uma realidade objetiva para além da experiência subjetiva, uma realidade que deve ser desvendada e representada na mente humana (LABURÚ et. al., 2001). Outras ainda apontam o que consideram uma contradição nas teorizações apresentadas: o construtivismo radical recusa o realismo, ao mesmo tempo em que assume a posição realista, ao admitir que uma realidade pode condicionar a ação humana (MATTHEWS, 1992).

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No original, em inglês, presentation, tradução de Glasersfeld para ‘Worstellung’. Glasersfeld ressalva aqui que esse é um termo fundamental, e objeto de controvérsia no trabalho de Kant. Quando é traduzido por ‘representação’, induz ao erro de parecer sugerir que há um original a ser representado. Neste trabalho, seguindo a indicação de Glasersfeld, utilizo o termo ‘apresentação’. (Glasersfeld, 1995).

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Kant não nega a existência de uma realidade independente da experiência humana, mas afirma que essa é inacessível a nós. “[N]ão possuimos conceitos do entendimento e, portanto, tampouco elementos para o conhecimento das coisas, senão quando nos pode ser dada a intuição correspondente a esses conceitos; daí não podermos ter conhecimento de nenhum objeto, enquanto coisa sem si, mas tão-somente como objeto da intuição sensível, ou seja, como fenômeno; de onde deriva, em consequência, a restrição de todo o conhecimento especulativo da razão as simples objetos da experiência. Todavia, deverá ressalvar-se e ficar bem entendido que devemos, pelo menos, poder pensar esses objetos como coisas em si embora não os possamos conhecer.” (1985, p. 25)

Glasersfeld (1996) reafirma ambas as posições construtivistas, mas nega o paradoxo. Segundo o autor, os realistas, na linguagem filosófica, são os que creem ser possível obter conhecimento de um mundo tal como é em si, independentemente do modo como nós o percebemos – premissa rejeitada pelos construtivistas radicais. Por outro lado, admitir a existência de possíveis condicionantes na realidade não contradiz a posição construtivista. Embora nada possamos afirmar a respeito da realidade que existe, para além dos limites de nossa experiência, podemos perceber e interpretar aquilo que acessamos. Os determinantes da realidade podem estabelecer o possível e o impossível de ser percebido, mas não podem delimitar os modos de apreender, compreender e agir humanos a serem construídos dentro de seus limites.

Assim, ao recusar compromissos metafísicos e sustentar que o único modelo de pensamento possível sobre o mundo que podemos conhecer é construído por cada um de nós, o construtivismo radical assume, ao mesmo tempo, duas posições interligadas: uma em relação ao valor que é possível atribuir ao conhecimento e outra em relação ao conceito de verdade.

A respeito da primeira, os construtivistas radicais recusam a visão de conhecimento como uma representação mais ou menos fiel de um mundo real separado do sujeito cognoscente, mas não negam que o conhecimento deva ter relação com o mundo. O problema aqui reside em definir o mundo e a relação em questão.

Como já foi mencionado, o mundo, nesta abordagem, é o que é experimentado pelo sujeito. Já a relação, essa é operativa. O conhecimento é comparado a uma “chave que nos abre caminhos possíveis” (GLASERSFELD, 2008, p. 6). Uma chave é útil se com ela conseguimos abrir um cadeado. Mas o fato de ela ser útil descreve um atributo da chave, e não do cadeado, pois é possível que outra chave compatível possa abrir o mesmo cadeado. Assim, o construtivismo radical assume que o valor do conhecimento reside em sua função. Ou seja, só podemos aferir o mérito de nossos conceitos, ideias e teorias através de sua utilização para satisfazer nossas necessidades de compreensão, explicação, predição e controle diante do meio em que vivemos.

O construtivismo radical, desse modo, assume ser uma abordagem instrumentalista. Karl Popper (1989) – apesar de considerá-la inadequada21

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Embora Karl Popper (1968) não aceite a concepção instrumental de ciência e de conhecimento, suas conclusões a respeito da verdade científica não foram definitivas, apenas indicando que as teorias podem se aproximar de uma adequação, ou seja, de uma verdade, para além da viabilidade

apresenta clara e precisamente a concepção instrumental de ciência: as teorias são ferramentas que funcionam como orientação para a ação e têm sua validade determinada pelo sucesso da atividade realizada com base em suas premissas. Nessa formulação, uma teoria é correta enquanto continuar demonstrando sua utilidade, podendo, assim, continuar sendo usada mesmo após ter sido refutada pela experiência ou substituída por outra, desde que continue funcionando dentro dos limites de sua aplicabilidade. Por outro lado, por se mostrar viável, ou seja, adaptada a um determinado âmbito experimental, uma determinada doutrina não se torna a melhor explicação para a experiência. Ela é apenas uma das construções válidas possíveis.

Em defesa da visão instrumentalista para a ciência, Glasersfeld (1996) lembra ainda que essa foi endossada já a partir da difusão das ideias evolucionistas darwinianas e de seus desdobramentos no campo científico. Foi então que a comunidade científica passou a aceitar que hipóteses podem ser alçadas à categoria de teorias, e mesmo de leis científicas, meramente por se mostrarem compatíveis com resultados experimentais, mesmo que nunca comprovem representar uma realidade objetiva.

Segundo a abordagem construtivista radical, assim, as teorias são tentativas de compreender a experiência. Tanto na vida quotidiana quanto na experimentação científica, o sujeito que se dispõe a compreender assume como real a situação experiencial em que concentra seus esforços, e as explicações que concebe são válidas apenas no âmbito específico e circunscrito de sua experimentação. Apenas quando tiver encontrado uma resposta satisfatória – auxiliado por seus conhecimentos prévios, ou por mero acaso – é que pode adotar uma atitude filosófica e concluir que a solução encontrada pode servir para organizar e explicar a experiência. Ainda assim, isso é muito diferente de considerar tal solução como uma representação da realidade.

A segunda posição mencionada acima, a do conceito de verdade, é ainda mais radical. Pelos últimos dois milênios, embora os filósofos discordassem a respeito do conceito de realidade, em geral apresentavam visões concordantes em relação à noção de verdade22 – uma noção ligada à de validade objetiva

instrumental para situações dadas.

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Em sua definição filosófica geral, verdade significa a correspondência estabelecida por meio de discurso ou pensamento, entre a subjetividade cognitiva do intelecto humano e os fatos, eventos e seres da realidade objetiva (ABBAGNANO, 2000).

(ABBAGNANO, 2000). Segundo essa visão dominante, só pode ser considerado verdadeiro algo que corresponde à realidade objetiva e independente.

Os construtivistas abandonam esse conceito tradicional de verdade e adotam o de “viabilidade” (GLASERSFELD, 1996, p. 40) ou de “explicação viável” (GLASERSFELD, 1996, p. 42) no âmbito do mundo experiencial subjetivo. Esse critério de julgamento do conhecimento é uma decorrência natural das concepções construtivistas de realidade e de conhecimento. Nossos conceitos são viáveis ou não, dependendo de como funcionam em nossa experiência e do quanto para “os contextos intencionais ou descritivos em que os usamos” (GLASERSFELD, 1996, p. 42). É importante destacar que o conceito quotidiano de verdade – conformidade à realidade experiencial, ou descrição fidedigna de uma experiência prévia – não perde sua validade. Tampouco deixam de ser válidos os acordos firmados – os axiomas – que fundamentam as experiências diárias, linguísticas, científicas ou matemáticas, por exemplo.