Kapittel 6 Drøfting og oppsummering
6.2 Analysen og den gode byen
Na abordagem construtivista radical, a realidade é “o domínio das estruturas perceptuais e conceptuais relativamente duradouras que conseguimos estabelecer, usar e manter no fluxo de nossa experiência” (GLASERSFELD, 1996, p. 200). O contínuo processo de estabelecimento, uso e manutenção das estruturas da realidade experiencial é realizado através de repetidas experimentações, por cada um de nós, através dos processos de assimilação, desequilibração, adaptação e reequilibração, em nossos contatos constantes com nosso meio e com os outros (PIAGET, 2001).
Essa construção subjetiva e intersubjetiva de conhecimento – e, por conseguinte, da própria realidade – não dá conta apenas do senso comum. Também a elaboração do conhecimento científico42 pode ser compreendida nos termos da
concepção radical, conforme Glasersfeld (1996, p. 196):
Formulamos explicações, fazemos previsões e até conseguimos controlar certos acontecimentos no campo da nossa experiência, que é a realidade em que vivemos. Tudo isto e, sobretudo, qualquer tentativa de gestão, envolve aquilo a que chamamos senso comum e também, por vezes, conhecimento científico.
Partindo da ideia básica de que só podemos perceber o mundo a partir da história de nossas ações biológicas e sociais, Maturana apresenta, em Cognição,
ciência e vida cotidiana, um roteiro para a investigação e para a produção de
explicações científicas para os fenômenos que percebemos em nossa realidade. Segundo o biólogo chileno, quando um pesquisador acredita que um determinado fenômeno, ou seja, uma experiência ou uma sequência de experiências, necessita
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Neste trabalho, adoto a concepção construtivista de conhecimento científico, um tipo de conhecimento que, embora resultante de experimentações realizadas sob condições rigidamente controladas e, por isso, repetíveis, é elaborado através dos esforços de organização da experiência por parte dos investigadores. Os conhecimentos assim construidos não refletem uma realidade independente do mundo experiencial dos pesquisadores, mas se configuram na própria realidade experimentada (GLASERSFELD, 2008; MATURANA, 2001).
de uma explicação, ele percorre a série definida de quatro passos apresentada abaixo:
• O primeiro passo é definir o fenômeno a ser investigado e explicitar com clareza as condições, ou seja, os condicionamentos, sob as quais o fenômeno é estudado.
• O passo seguinte é propor um processo gerativo ou um mecanismo ad hoc, – ou, em suas palavras, um arranjo de condições – que gere o fenômeno a ser explicado. Esse mecanismo é necessário para que o pesquisador possa identificar e formular explicações para os aspectos relevantes, interessantes ou surpreendentes do fenômeno estudado, o que será realizado no último estágio do estudo.
• O terceiro passo é produzir, a partir de coerências operacionais percebidas a partir do mecanismo gerativo proposto, explicações a respeito desta e de outras experiências possíveis não consideradas naquela proposição; ou seja, este passo busca as relações entre os eventos observados para compreender, explicar e realizar previsões a respeito do fenômeno observado.
• Por último, o pesquisador deve demonstrar a operacionalidade das compreensões, explicações e previsões realizadas frente à realidade, explicitando as condições sob as quais o mecanismo proposto levou à observação do acontecimento previsto.
No modelo proposto por Maturana, o método científico não se refere a uma realidade ontológica. A investigação científica é um modo regulado e rigoroso de realizar experiências, cujo foco se volta para o mecanismo e para as condições que produzem o fenômeno. As hipóteses formuladas pelo pesquisador inter-relacionam as experiências. Do mesmo modo, as previsões também se referem apenas às experiências realizadas naquelas determinadas condições. Assim, as experimentações produzem seus resultados no domínio experiencial dos observadores.
Essa abordagem para a ciência, que não faz referência a uma realidade independente, mas se ocupa apenas de processos produtivos, não busca a objetividade. Maturana afirma que apenas a “objetividade entre parênteses”
(MATURANA, 2001, p. 59) é possível43. Nessa visão de ciência e de conhecimento,
há tantas explicações quantos domínios explicativos, há tantas realidades quantos observadores, e todas são legítimas. Segundo o autor, os pesquisadores que trabalham na perspectiva da objetividade entre parênteses criam um espaço de convivência que obedece à natureza biológica das relações humanas, que é cooperativa. Nesse ambiente de profundo respeito por seu próprio trabalho e pelo trabalho do outro, não há coação ou submissão. O que pode haver é a sedução, quando um investigador incorpora o trabalho do outro em seu domínio, sem negar- se a si mesmo.
Segundo Glasersfeld (1996), a diferença fundamental entre o conhecimento científico e o senso comum é que o primeiro é construido através de experiências controladas e explicitadas em todas as suas condições e, por isso, repetíveis. Nesse sentido, o modelo de Maturana oferece um modo seguro de lidar com as experiências que são a própria realidade que conhecemos e na qual nos movemos.
Em relação à objetividade, Glasersfeld (1996, p. 201) acredita que os construtivistas radicais não poderiam deixar de tratar da diferença entre o “conhecimento que queremos confiar como se fosse objetivo e construções que consideramos questionáveis, ou até ilusórias” [grifo meu]. Ou seja, mesmo em uma abordagem que lida com o mundo experiencial, é necessário que o conhecimento construido pelo sujeito seja, além de viável, confiável.
O valor do conhecimento científico, assim, embora não dependa de uma concepção tradicional de verdade – que requer uma adequação à imagem do que ela pretende representar – necessita de viabilidade e de confiabilidade, que neste contexto específico significa sucesso no alcance dos objetivos do experimento científico, ou seja, na previsão dos fenômenos da experiência.
Alguns críticos do construtivismo radical afirmam que, como abordagem para o conhecimento científico, ele falha em reconhecer que existem teorias melhores e piores, por não admitir que a comunidade científica se valha de regras de uma realidade independente para avaliar as teorias. Em última instância, afirmam esses críticos, o construtivismo radical não diferencia o conhecimento científico de outras formas de conhecimento (LANGURÚ et al., 2001).
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Maturana opõe a objetividade entre parênteses à “objetividade sem parênteses” (MATURANA, 2001, p. 59), a concepção tradicional de objetividade que considera a existência de entes independentes das pessoas, buscada em uma concepção de ciência em que o pesquisador se vê em uma situação de acesso privilegiado à realidade.
É possível responder a essa crítica com a evocação do próprio conceito de viabilidade, que envolve a existência de obstáculos e de condicionamentos que interferem na realização da experiência e na elaboração de predições. Do mesmo modo como o ambiente constrange os organismos vivos e elimina variantes que de alguma forma transgridem os limites em que eles são possíveis e viáveis, o mundo experiencial, seja na vida diária, seja no laboratório de experimentação científica, constitui o campo de teste para nossas teorias (GLASERSFELD, 2008, p. 8).
Há, então, teorias piores e melhores, segundo a medida como elas são constrangidas pelo mundo experiencial. É sempre possível, e até mesmo provável, que elementos de uma realidade independente impeçam ações e frustrem esforços no experimento. Mas, ressalva Glasersfeld, essa realidade se manifesta apenas através de falhas nas ações, nas predições e nas formulações dos sujeitos. Não temos como descrevê-la, a não ser em termos de experimentos e de teorizações que se mostram infecundos. Então, na concepção radical de ciência, a avaliação das teorias, assim como os experimentos, só pode ocorrer no âmbito da experiência.
Assim, por melhor que uma explicação funcione dentro da moldura dos objetivos científicos – explicação, predição e controle – ela não pode ser apresentada como uma descrição de uma realidade independente. Tampouco pode ser considerada a única interpretação possível para as experiências científicas. Do ponto de vista do construtivismo radical, todos nós – os organismos vivos em geral, o que inclui cientistas, estudantes e leigos – enfrentamos nosso meio criando e experimentando “chaves” (GLASERSFELD, 2008) que nos possam abrir os caminhos da sobrevivência biológica e cognitiva.
Foi com esse espírito, e segundo o modelo proposto por Maturana (2001), que cursei o caminho experimental deste estudo, conforme descrito abaixo.
3.2 A DEFINIÇÃO DO FENÔMENO A SER INVESTIGADO E A EXPLICITAÇÃO