5.4 Changing flight sequences
5.4.1 Operators
As teorias feministas ressaltam que as diferenças entre homem e mulher são produzidas corporalmente e socialmente, ou seja, “os corpos não nascem [...] eles são feitos, moldados” (STYHRE, 2004, p. 107), em ordem para representar (vivenciar) certas operações. Os teóricos consideram os corpos, feminino e masculino, como pólos de intersecções sociais (BUDGEON, 2003), políticas e administrativas. Pelas teorias feministas, os corpos humanos devem ser examinados nas suas práticas e pelos seus usos
estratégicos, ou seja, os corpos estão sujeitos a inscrições e atividades como um recurso (inclusive) organizacional (STYHRE, 2004).
As organizações fazem uso explícito destes corpos e de modo particular de suas competências essenciais, como por exemplo aponta Aalten (2004) ao analisar práticas associadas aos gêneros (feminino ou masculino) em alguns passos embodied na técnica do
ballet.
Seguindo esta linha de estudos feministas, alguns focam nas práticas embodied específicas de cada gênero, como por exemplo: nas práticas de religião pentecostal nas mulheres de Salvador (RABELO; MOTA; ALMEIDA, 2009); nas práticas sociais e raciais
embodied hierarquizadas no ensino de dança em escolas de segundo grau em jovens
mulheres negras americanas (ATENCIO; WRIGHT, 2009); na transmissão da dança japonesa em mulheres a partir de experiências multisensoriais (HSU, 2008); na imagem corporal e reflexividade de uma identidade embodied em indivíduos „gays‟ do sexo masculino (DUNCAN, 2010), nas práticas pedagógicas embodied entre professora e alunos no âmbito do ensino acadêmico de Administração compondo uma hierarquia de masculinidades do corpo como rede de poder e status (SINCLAIR, 2005) ou ainda como o modo de atirar uma bola no corpo das mulheres se constitui diferente dos homens (YOUNG, 1980).
Estes exemplos de estudos feministas focam na construção corporal e social do feminino e masculino, e nos remetem a importância de considerar a análise de práticas
embodied associadas a estes gêneros, inclusive a maneira que estes corpos são considerados
nas organizações como um recurso estratégico conforme seu gênero.
4.2.3 Perspectiva da Prática
As teorias da prática estão baseadas nos estudos de Pierre Bourdieu (1988) e de Michel de Certeau (1984 apud STYHRE, 2004), sendo estes estudos que aprofundam conhecimentos sobre como os seres humanos agem, reagem e interagem individualmente em sistemas sociais. Michel de Certeau, por exemplo, analisa as práticas da vida rotineira, considerando-as preenchidas por significados em sua constituição; como ela nos aparece, sujeito a reprodução e negociações entre os membros da sociedade e da comunidade local.
Bourdieu (1988) analisa as práticas a partir dos habitus, considerando “o corpo como princípio gerador e unificador de todas as práticas” (CSORDAS, 1988, p.8). A estratégia dos estudos de Bourdieu (1988) é quebrar a dualidade entre corpo-mente e signo- significado no conceito de habitus. Este autor define o habitus em sistemas de disposições duráveis e transpostas, escapando do objetivismo, buscando uma visão de seres humanos operantes de acordo com esquemas e regras compartilhadas, dados objetivos e subjetivismo (STYHRE, 2004). Para Bourdieu (1988) as práticas são convertidas em esquemas motores retidos no corpo, uma necessidade social transformada em natureza. Enquanto o sujeito retém consciência de seus arredores, do que o cerca, e subseqüentes memórias de experiência, ele realiza práticas que se relacionam entre si e reflete a concepção de habitus, como uma técnica do corpo, um motor dissociado.
Bourdieu (1988) amplia o conceito anterior de habitus de Marcel Mauss (1974), para uma coleção de práticas, um sistema de disposições perduradouras com qual a inconsciência é um princípio de gerações e estruturações de práticas e representações coletivamente inculcadas, focando na psicologia internalizada contextualizada no ambiente comportamental. O habitus constitui um corpo com todos os seus sentidos, socialmente informado, um sistema de estruturas cognitivas, avaliadoras e organizadoras da vida no mundo. Para Bourdieu (1988) partes das práticas e estruturas permanecem obscuras aos olhos de seus próprios produtores. No aprendizado de práticas, de significados culturalmente ensinados, é díficil, por exemplo, a percepção do poder no ritual de prática. Os princípios de suas produções são em si mesma seus produtos e através destas imagens
embodied as disposições dos habitus manifestadas nos rituais de comportamento são
compartilhadas a um nível de consciência em um corpo socialmente informado.
Ao analisar os habitus, Bourdieu (1988) considera o estilo de vida característico de cada agente ou de uma classe de agentes, pois os campos são repletos de diversidade e multiplicidade de práticas e lógicas diferentes. O autor considera o campo como o espaço simbólico permeado por um conjunto de práticas estruturadas e estilos de vida distintos e distintivos presentes objetivamente e subjetivamente em relações mútuas. O espaço social, denominado campo, é constituído de três dimensões: o volume de capital, a estrutura de capital e a evolução no tempo das propriedades. As diferenças entre os campos podem ser distinguidas pelas suas condições de existência, conforme o volume global de capital,
conjunto de recursos e poderes que são utilizados de acordo com o capital econômico, capital cultural e capital social dos agentes das classes (BOURDIEU, 1988; KRECKEL, 1983). A posição social do agente no campo resulta na conjunção do capital escolar, capital cultural herdado e sua trajetória e são estes os fatores capazes de mudar a posição social do indivíduo neste espaço.
Nesse contexto Bourdieu trabalha a partir de um conceito de habitus de classe como uma forma incorporada da condição de classe e dos condicionamentos impostos por esta. O
habitus de classe e em particular, os sistemas de esquemas classificadores constituem-se em
um conjunto de agentes de uma classe objetiva que produzam sistemas de disposições homogêneas, engendrando práticas semelhantes, situados em condições de existência e condicionamentos homogêneos e com um conjunto de propriedades comuns, objetivadas e muitas vezes garantidas juridicamente (BOURDIEU, 1988, 2000). Para representar este contexto ele cria a seguinte fórmula: [(habitus) . (capital) + campo = prática].
Os fatores determinantes de uma classe social são o volume e a estrutura de seu capital, constituindo uma estrutura de relações entre todas as propriedades pertinentes (sexo, idade, origem social ou étnica, status matrimonial, residência, disposição das relações de produção), conferindo seu próprio valor a cada uma delas e exercendo efeitos sobre as práticas. A multiplicidade destes fatores conduz a uma sobreposição de determinações biológicas, psicológicas e sociais na formação da identidade socialmente definida, como por exemplo, a sexualidade ou o envelhecimento (BOURDIEU, 1988).
As estratégias de reprodução (mobilidade), consciente ou inconsciente dos indivíduos tendem a aumentar ou conservar seu patrimônio e conseqüentemente manter ou melhorar sua posição na estrutura das relações de classe. A trajetória do agente reflete de maneira estreita a posição ocupada no espaço social e a seguridade sobre seu próprio valor, o próprio corpo, ou sua forma de falar. O corpo é submetido à representação social dos outros, refletindo categorias de percepção e apreciação (aceitação, regras, repressão), mesmo em suas reações passivas e inconscientes (BOURDIEU, 1988; EVERETT, 2002; AZEVEDO, 2003).
As estratégias dos agentes dependem: do volume e estrutura de capital que o grupo possui (econômico, social e cultural), do estado do sistema dos meios de reprodução (leis, instituições de legitimação) e do estado de relação das forças entre as classes existentes. O
espaço social encontra-se hierarquizado em dimensões: verticais, volume de capital global ascendente ou descendente, por exemplo, de pequeno a grande patrono; e transversais, reconversão de uma espécie de capital em outra diferente, de capital dominante a capital dominado, de um campo para outro-horizontal, por exemplo, maestro e filho tornam-se comerciantes, ou, em planos diferentes, maestro e filhos tornam-se patronos de indústria.
O sistema de usos do corpo na sociedade transforma estes campos a partir de mecanismos estratégicos de manipulação. O modo de manipulação das classes ocorre através da integração simbólica, do adestramento do corpo, de forma visual, no trabalho, na sexualidade, entre outras (BOURDIEU, 1988). Enquanto o sistema antigo tendia a produzir identidades sociais bem definidas, a nova lógica do sistema escolar e do sistema econômico, inclusive do sistema de tempo e do sistema de culto ao corpo que os agentes devem dedicar as atividades nos campos, causam uma instabilidade estrutural neste novo sistema de representação da identidade social e nas aspirações que nela se encontram legitimamente incluídas. Esta instabilidade de estratégias individuais e coletivas, espontâneas e organizadas, tende a levar os agentes a crise pessoal e a crítica social, abalando suas identidades (BOURDIEU, 1988).
Para Bourdieu (1988) e Michel de Certeau (apud STYHRE, 2004) a multiplicidade de habitus, leis, normas e artefatos que interagem junto aos corpos humanos dentro do campo social são experiências embodied, as quais podem ser percebidas nas ações dos indivíduos; caminhando, falando, consumindo, trabalhando e interagindo através e com os seus corpos. A partir dos estilos de caminhada, fala e vestimenta as pessoas desenvolvem e carregam uma forma física de seus corpos, os moldam e aprendem como apresentá-los (STYHRE, 2004), estilos estes que estão diretamente associados aos estudos de identidade.