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Algumas abordagens de base cognitiva-representacional já incrementaram os estudos de identidade nas organizações de diversas maneiras. Caldas e Wood (1997), por exemplo, sugeriram novas perspectivas a serem exploradas em estudos de identidade, como: agregar a investigação do processo de construção individual e coletivo da identidade; aprofundar entendimento na interação entre os diversos níveis de identidade e explorar as lacunas no quadro conceitual sobre os níveis de identidade. Brown (2001), por outro lado, indica o potencial do conceito e da temática de identidade ser explorado e aprofundado por múltiplos níveis de análise integrando insights analíticos no nível micro, meso e macro. Já para Alvesson e Empson (2008) a temática da identidade a nível individual requer interpretações locais sensitivas associadas às distintas identidades organizacionais das pessoas a partir: da percepção dos seus trabalhadores sobre conteúdo e processos de trabalho; da gestão da organização e relacionamento entre seus membros, em estruturas e sistemas formais e informais; visão de si mesmos como indivíduos (contexto da organização/aspectos morais e mitológicos) e da interface externa (visão de si mesmos e dos outros/imagem no mercado perante aos clientes e competidores e outros).

No entanto, existem sugestões destes autores de base cognitiva-representacional para que se ampliem metodologias de estudo da identidade nas organizações a partir do corpo, as quais são concretizadas especialmente nas pesquisas de Corbett (2006) e Harquail e King (2010) sobre identidade com uma perspectiva embodied. Neste sentido reforço no Quadro 3 os fundamentos teóricos que priorizei nesta dissertação baseada em: Bourdieu (1988), Castro (2004), Wainwright e Turner (2004), Wainwright, Williams e Turner (2006), Corbett (2006), Rosa e Brito (2010) e Harquail e King (2010), os quais associam o corpo como recurso metodológico e/ou epistemológico para uma compreensão da identidade.

Quadro 3 – Estudos de identidade com o corpo nas Ciências Sociais e na Administração. ESTUDOS DE

IDENTIDADE nas Ciências Sociais na Administração

COM O CORPO

COMO

NARRATIVA Castro (2004) Rosa e Brito (2010)

COMO PESSOA (EMBODIMENT) Habitus - Bourdieu (1988); Wainwright e Turner (2004), Wainwright, Williams e Turner (2006)

Corpo sensorial - Corbett (2006); Cognição Embodied – Harquail e King (2010)

Fonte: A autora (2012).

Um estudo que nos fornece uma pista inicial acerca da relação entre o corpo e identidade é o texto Scents of Identity: Organisation Studies and the Cultural Conundrum

of the Nose, de Corbett (2006). Explorando a temática dos sentidos corporais (corpo

sensorial) e da identidade, Corbett (2006) expõe que o odor é processado inicialmente no sistema límbico, como explosão emocional antes de atingir o córtex, onde o reconhecimento cognitivo ocorre. Segundo o autor, o efeito do odor pode diferir dependendo da percepção ocorrer consciente ou inconscientemente. Assim, a influência do cheiro no comportamento é mais poderosa quando não é percebida conscientemente, e a experiência consciente geralmente oferece inibição do efeito nas reações emocionais (CORBETT, 2006). As implicações da classificação do cheiro para o indivíduo, como por exemplo, boa a partir de perfumes e desodorantes e ruim quando oriunda de odores do corpo como o suor, desenvolve uma identidade olfatorial e conjuntos de cheiros que são socialmente manipulados.

Essa pesquisa, portanto, foca na questão dos sentidos corporais, mais especificamente o sentido do olfato, para trabalhar a idéia de que tal sentido possui significados sociais que são atribuídos a partir da percepção do odor. Para o autor o cheiro tem um significado simbólico sobre a interação humana e a identidade social, permitindo a dissolutilidade das relações objeto/sujeito, pois ele penetra no corpo e só faz efeito quando sentido. O odor e o olfato, numa relação entrelaçada, fazem parte da dinâmica sócio- cultural e provocam fortes reações físicas e emocionais (prazer e desgosto), por exemplo, provendo uma ferramenta de manutenção da ordem social, dos posicionamentos de diferentes grupos e classes sociais. A cultura sensorial do cheiro oferece um marco olfatório para as pessoas expressarem e regularem suas identidades pessoais e sociais. O cheiro

realiza um papel importante em organizar a identidade e a diferença, em estabelecer fronteiras entre o self e o outro (CORBETT, 2006).

Mesmo que de maneira específica, pelo sentido do olfato, Corbett (2006) demonstra haver uma relação entre corpo (sensorial) e identidade e nos permite, assim, pensar que perceber a identidade a partir de um corpo sensorial nos abre um novo caminho para compreender a questão da identidade individual e nas organizações. Corbett (2006) sugere a investigação dos sentidos nas organizações e em sistemas culturais sensoriais, como a audição e visão, a partir de estudos etnográficos.

Harquail e King (2010), por outra ponta, discutem e sugerem a inserção do

embodiment nos estudos de identidade nas organizações. Para isso, estes autores

consideram que as pessoas constróem suas crenças sobre o que é distintivo, contínuo e central nas organizações a partir de suas experiências embodied (conhecimento abstrato do recurso sensoriomotor) e cognição embodied (interpretação e retenção de experiências físicas baseadas em conceitos reforçados pelo conhecimento sensoriomotor vivenciado): corporais cinestésicas, visual-espacial, temporal-aural e emocional (inclusive as sensações). Em tal pesquisa Harquail e King (2010) baseiam-se metodologicamente em um livro publicado como narrativa verídica de um trainee sobre suas percepções no ambiente de trabalho. Contudo, apontam, por exemplo, que uma pessoa na organização, percebe, entende e expressa mais de um tipo de informação concomitantemente além das suas capacidades que já se encontram embodied. Com isso, tais autores reforçam que além da sua articulação verbal, as pessoas possuem outras expressões corporais relevantes a serem investigadas, como a cognição embodied. Nesse sentido, eles sugerem pesquisa sobre como as pessoas baseadas na presença e interação física no contexto de tempo e espaço, nos seus corpos articulam sensações físicas, experiências e memórias ao construírem seus auto- conceitos de identidade nas organizações.

Corbett (2006), Harquail e King (2010), portanto, trazem o olhar mais corporal (embodied) para os estudos de identidade buscando investigar os membros organizacionais nas suas vivências experienciadas fisicamente/cinestesicamente (visual-espacial, temporal- aural, emocional, por exemplo, no olfato) em seus corpos (embodied); e não somente na sua faculdade narrativa. Já Pink (2011) na área das Ciências Sociais, busca inserir o corpo na

investigação da identidade, nos estudos de performance, especialmente em touradas aprofundando a temática da espacialidade a partir de pesquisas etnográficas.

Outro estudo que adota uma perspectiva incorporada (embodied) para o estudo da identidade é o de Wainwright e Turner (2004) e Wainwright, Williams e Turner (2006). Tal estudo busca trabalhar as identidades dos bailarinos a partir dos habitus individual, institucional e coreográfico4 baseando-se metodologicamente apenas nas narrativas dos bailarinos. Para isso tais autores pesquisaram em diversas companhias de dança os elementos constitutivos da identidade do „corpo balético‟ do bailarino em companhias profissionais, a partir das lesões, das rotinas de treinos, ensaios e espetáculos e do „dançar com a alma‟ na incorporação de diferentes linguagens coreográficas.

Assim, o ponto em comum entre a maior parte dos autores discutidos nas seções deste capítulo – com exceção de Castro (2004), Wainwright e Turner (2004), Wainwright, Williams e Turner (2006), Corbett (2006), Rosa e Brito (2010), e Harquail e King (2010) – é conceberem a identidade como um atributo sócio-cognitivo representacional, baseados primordialmente nas narrativas de seus pesquisados, ignorando demais faculdades sensitivas ou cinestésicas de seus corpos que expresse suas identidades embodied. Com o intuito de investigar a temática da identidade a partir do corpo (embodied) foi construída a seguir uma seção sobre os estudos de embodiment.

4 Os conceitos de habitus individual, institucional e coreográfico encontram-se explicados no quadro 1 desta

4 EMBODIMENT

Uma compreensão embodied5 da vida social humana se baseia na experiência corporal diária, no reconhecimento da noção de corpo como centro da experiência humana e no modo com que os corpos são empregados, treinados, educados e usados nos espaços, inclusive o de trabalho (STYHRE, 2004). Com intuito de elucidar a temática do

embodiment dividi este capítulo em três seções, como segue: 4.1 Conceituando o embodiment; 4.2 Visões embodied das organizações; e 4.3 Visão embodied da cultura.