4. Theoretical framework
4.2 Research design
4.2.1 Operationalizations
A consolidação da educação feminina escolar em Patrocínio – Minas Gerais ocorreu como parte do processo histórico educacional expressivo em que a Oligarquia rural necessitava de instituições voltadas para a instrução e a doutrinação, de modo a formar suas filhas, preparando-as para o exercício do matrimônio, tornando-as dedicadas e prendadas esposas e mães da família tradicionalmente patriarcal, seguindo os preceitos e os bons costumes, preservando a unidade familiar.
Por sua vez, o Estado mineiro também estimulou a implantação de Escolas e Colégios Normais, como o de Patrocínio e de outras cidades das regiões do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba, para garantir a formação de mestres, voltados para a atuação docente nas escolas primárias, especialmente nos Grupos Escolares.
Já a Igreja Católica Apostólica Romana, por meio da atuação missionária de Ordens e Congregações religiosas, responsáveis diretamente pela implantação, manutenção e consolidação das escolas e colégios confessionais, buscava a garantia do processo de evangelização e doutrinação moral da sociedade contemporânea por meio da oferta do ensino escolar, dentre outras estratégias. A formação de normalistas em Patrocínio – Minas Gerais também voltou-se para os aspectos da doutrinação religiosa, tornando-as mulheres piedosas e cristãs.
A formação de normalistas, então, abrangia destacadamente três aspectos, interligados entre si: o familiar (formação dos bons costumes, tradicionais), o civil (instrução voltada para a formação de professoras) e o religioso (doutrinação moral cristã). Por isso, “as prescrições dos discursos religiosos direcionados à família, também estão presentes nesse processo de constituição das representações das professoras, futuras mães, que atuariam no lar e na escola”. (NEVES, 2006, p. 2.941)
Isso demonstrou a ocorrência de uma gradativa passagem da vida feminina exclusivamente privada, reclusa em seus lares (sejam dos pais ou dos esposos), para uma dimensão também social. Essa perspectiva era percebida no meio social hegemônico em Patrocínio – Minas Gerais, formada principalmente por famílias de produtores rurais. Foi o reflexo de novas funções sociais das mulheres, não apenas esposas e mães devotadas à família e à religião, mas também dedicadas à missão do ensino escolar, como professoras. Com isso,
O Estado, é claro, preocupa-se com outras funções, na esfera da educação, além de zelar pelo cumprimento da freqüência obrigatória das escolas oficiais e outros estabelecimentos aprovados ou registrados. Um dos seus papéis consiste em assegurar a manutenção de certos padrões de aprendizagem, assim como encorajar
uma certa soma de experimentação e inovação. [...] Uma das funções deliberadamente assumidas pelo Estado [...] foi a de guardião dos padrões religiosos e morais da sociedade futura, através do estabelecimento da educação moral e religiosa. [...] indubitavelmente, [...] implica uma preocupação do Estado com a educação total da sua população: todos os aspectos da personalidade humana são abrangidos [...]. (MORRISH, 1975, p. 95)
Notou-se o compromisso das atividades burocráticas e da estrutura do Estado no sentido de proporcionar as condições básicas para o processo de doutrinação moral, assim como o de doutrinação religiosa, como forma de preservar a harmonia social e a manutenção do status quo. Além dos instrumentos legais e da máquina estatal, outra instituição considerada importante para as prerrogativas da solidariedade social, como diriam os durkheimianos, seria a educação e os valores difundidos pela família. Por isso,
A socialização da família é muito mais do que uma simples questão de formação de hábitos ajustados à vida doméstica, de aprendizagem de meia dúzia de regras e de aceitação ou rejeição das sanções familiares. É o começo daquela internalização da cultura da sociedade a que pertence a sua família e que prosseguirá durante toda a vida do indivíduo, a menos que ele sofra alguma alienação parcial ou total dessa cultura. É certo que o seu lar e família podem ajudá-lo nessa internalização; é igualmente certo, porém, que a própria constelação de ideias, crenças e práticas dos pais pode militar contra tal internalização. (MORRISH, 1975, p. 95)
Por sua vez, milenarmente tradicional é o vínculo da Igreja Católica Apostólica Romana com as questões educacionais, haja visto que os princípios teológicos somente fazem sentido quando abordados sob uma perspectiva antropológica globalizante, em que são contempladas as inúmeras dimensões da vida humana, na sua relação com a realidade, seja natural ou sobrenatural. A Encíclica papal Divini Illius Magistri, de 1929, definiu as possíveis instâncias da educação contemporânea, assim como o papel da Igreja enquanto educadora social, como também a interdependência com a família e o Estado, e a submissão desses aos princípios eclesiais. Dessa forma,
A educação é obra necessariamente social e não singular. Ora, são três as sociedades necessárias, distintas e também unidas harmonicamente por Deus, no meio das quais nasce o homem: duas sociedades de ordem natural, que são a família e a sociedade civil; a terceira, a Igreja, de ordem sobrenatural. Primeiramente a família, instituída imediatamente por Deus para o seu fim próprio que é a procriação e a educação da prole, a qual por isso tem a prioridade de natureza, e portanto uma prioridade de direitos relativamente à sociedade civil. Não obstante, a família é uma sociedade imperfeita, porque não possui em si todos os meios para o próprio aperfeiçoamento, ao passo que a sociedade civil é uma sociedade perfeita, tendo em si todos os meios para o próprio fim que é o bem comum temporal, pelo que, sob este aspecto, isto é, em ordem ao bem comum, ela tem a preeminência sobre a família que atinge precisamente na sociedade civil a sua conveniente perfeição temporal. A terceira sociedade em que nasce o homem, mediante o Baptismo, para a vida divina da graça, é a Igreja, sociedade de ordem sobrenatural e universal, sociedade perfeita, porque reúne em si todos os meios para o seu fim que é a salvação eterna dos homens, e portanto suprema na sua ordem. Por conseqüência, a educação que
considera todo o homem individual e socialmente, na ordem da natureza e da graça, pertence a estas três sociedades necessárias, em proporção diversa e correspondente, segundo a actual ordem de providência estabelecida por Deus, à coordenação dos seus respectivos fins. (PIO XI, 1929)
O catolicismo defendia a convivência e a associação entre ambas as instâncias do poder temporal, assumindo e reconhecendo a importância da família e da sociedade civil para a educação e formação humana. O indivíduo somente seria inserido na sociedade com a atuação de ambas as instâncias. Porém, a finalidade de vivência terrena não seria o fim último da humanidade. A escatologia católica defendia a possibilidade da vida eterna como a finalidade maior da existência humana e, por isso, a Igreja Católica era considerada a instituição legítima para a condução da educação humana, considerada hierarquicamente superior à família e à sociedade civil.
Para a Igreja Católica, todas as atividades educacionais, sejam instrutivas ou doutrinárias, deveriam se fundamentar nos princípios da concepção de vida, de mundo e de sociedade elaborados no âmbito da doutrina eclesiológica, sendo sustentada conforme quatro pilares de destaque: as Sagradas Escrituras, a Filosofia Perene (especialmente a Escolástica), o Magistério (santos, papas e concílios) e a tradição, entendida como conjunto de doutrinas essenciais e práticas religiosas não presentes oficialmente em documentos sagrados, porém, aceitos por sua ortodoxia e pela sua autoridade.
Como uma das agentes principais dos processos educacionais, a mulher foi concebida como dotada de certas habilidades e características que a qualificam como educadora nos mais diversos ambientes sociais, como mãe e professora. De qualquer forma,
[...] a escola normal desempenhou papel relevante na formação profissional e na elevação da cultura da mulher brasileira. O magistério, entendido como um prolongamento das atividades maternas, passa a ser visto como ocupação essencialmente feminina e, por conseguinte, a única profissão plenamente aceita pela sociedade, para mulher. (NOVAES, 1984, p. 22)
Supostas características femininas como a doçura, a meiguice, o zelo, a visão aguçada e detalhista eram qualidades morais e psicológicas, consideradas naturais, que habilitariam a mulher como a responsável primordialmente pela educação, seja dos próprios filhos ou dos seus alunos, no exercício do magistério especificamente voltado para o desenvolvimento da infância. Percebeu-se um processo de feminização do trabalho docente voltado para o Ensino Primário.
A escola, como um espaço social que foi se tornando, historicamente, nas sociedades urbanas ocidentais, um locus privilegiado para a formação de meninos e meninas, homens e mulheres é, ela própria, um espaço generificado, isto é, um espaço atravessado pelas representações de gênero. Em nosso país, como em vários outros, esse espaço foi, a princípio, marcadamente masculino (LOURO, 1997a, p. 77).
Mesmo assim, a Igreja Católica inicialmente considerava desfavorável a dedicação das mulheres casadas às atividades profissionais. A preferência era que as professoras fossem mulheres solteiras. Com isso, segundo a autora de manuais escolares (como a Pequena História da Educação, 1936, em coautoria com a Madre Maria Augusta Cooman), Madre Francisca Peeters (religiosa de Santo André):
O trabalho fora de casa para a mulher casada é sempre uma calamidade. O seu papel primordial, é o mesmo no século XX que no tempo em que a Sagrada Escritura elogiava a mulher forte. Um economista do século XVIII, Moeser, diz mui acertadamente: “O lugar da mulher, da mãe, da rainha da casa, o lugar no lar é o mais bello de todos”. Os encargos domésticos são pesados demais para que sobre tempo para outras funcções. E se estas funcções se substituem à principal, é a desordem. A ausência forçada da mãe é um elemento de despovoação, ou ao menos causa prejuízo à educação dos filhos. Considerando só o ponto de vista econômico, a mulher ganha alguma coisa, é verdade; mas quanto mais gasta pelas despesas supplementares que a sua ausência exige: concertos, cuidados diversos que são sempre mais dispendiosos e mais descuidados quando são desempenhados por mercenários. Acima de tudo há o prejuízo moral. Nada substitue para a família a presença materna. Mas há mulheres que não podem ou não querem por motivos legítimos fundar um lar. Para ellas as condições da vida moderna offerecem um campo de acção muito mais extenso que nas épocas passadas. Mas convem não se esquecer de que a mulher nada lucrará em minimizar os seus dotes de mulher para se masculinizar. A psychologia feminina é differente da masculina. Deus fez da mulher o complemento do homem. Se fossem completamente semelhantes como se poderiam completar? Por conseguinte, as tarefas que se impuzer a mulher livre do seu tempo, deveriam estar de accordo com as suas aptidões naturaes: confecção, obras sociaes, educativas, hospitaleiras, etc.. (PEETERS, 1935, p. 40 – 1)
A Figura 14, reprodução digitalizada da “Oração a Mestra” [sic], do caderno de Práticas de Ensino, confirmou a ideia de que o ofício de professora pode ser compreendido como importante elemento na formação da nação e da raça brasileira, como educadora e, dessa maneira, exemplo de retidão moral e proteção para os estudantes.
No frontispício de seu Caderno de Prática de Ensino, a normalista Elza Nunes (1957) assim descreveu as relações e os valores necessários para o trabalho docente nos educandários onde forem atuar: “A escola deve ter muito do lar, um pouco do tempo e nada do quartel. Fazei-vos amar, e não temer”. Eis, por exemplo, a oração transcrita em caderno, enaltecendo a figura da mestra como exercício de um sacerdócio do ensino:
Figura 14 – Oração a Mestra (Caderno Práticas de Ensino – Elza Nunes).
Fonte: acervo particular de Elza Nunes.
Com isso, suas ações perpassavam pela busca do progresso da mocidade, garantido a conservação dos costumes conforme os ideais católicos. Seu apostolado era entendido como prática fraternal no sentido de transformar a ignorância em ciência, considerando o ensino como atividade de doutrinação moral, conforme os deveres e os valores como a lealdade. Sua missão tem o aval da Igreja, pois se trata de evangelização no ambiente escolar.
Tradicionalmente, nas escolas a professora era vista como "segunda mãe". Hoje virou moda chamá-la de "tia". As professoras, parece, internalizaram essa perspectiva que vê a escola como um novo lar. Costumam referir-se à escola como
"a casa" [...] Ora, a professora precisa sentir-se "em casa". Assume o papel de "mãe" ou de "tia", identificando-se mais como um "parente postiço" da criança do que como sua mestra. (NOVAES, 1984, p. 105-6)
As virtudes consideradas cristãs eram valorizadas como condição básica para o exercício docente, sendo a professora guardiã da boa conduta, praticante do apostolado do ensino, como forma de instrução e doutrinação das crianças no ambiente escolar. Essa condição feminina era vista como dom divino e missão para a melhoria das coisas humanas. Tais virtudes eram consideradas não como competências adquiridas com a experiência e o ambiente cultural, mas como condição natural, comuns a todas as mulheres. Com isso,
[...] Gina Lombroso, (a alma da mulher) acha para a caracterizar uma expressão feliz: emquanto o homem é “egocentrista” a mulher é “alterocentrista”, i. é, busca o seu ponto de apoio, e também os seus moveis de acção fora de si. Sua intelligencia é mais intuitiva do que discursiva, mais inclinada à analyse do que à synthese, ciosa de applicações mais do que de theorias. Por índole, a sua actividade é mais dirigida pelo sentimento do que pelo raciocínio. Querer transformar esta situação é querer violentar a natureza. As qualidades se perderão, sem que se adquiram as virtudes do outro sexo. (PEETERS, 1935, p. 41)
Por outro lado, a formação docente nos cursos normais expressava a exigência gradativamente do Estado, de natureza legal, com os conteúdos e as metodologias, necessárias para a capacitação docente. Disciplinas como a História da Educação passaram a compor os currículos escolares do Ensino Normal a fim de incorporar parte dos avanços científicos, não apenas aquelas voltadas para as ciências ditas naturais (Física, Química e Biologia), mas também as humanas (Psicologia, Sociologia e História). Por isso,
Nesta situação, sobremodo confusa, o problema da formação do magistério faz-se o problema máximo da educação brasileira. Somente pela reformulação integral dos moldes e padrões da formação do magistério será possível injetar na expansão desordenada do sistema escolar as forças de revisão, reforma e correção que se impõem para sua gradual reconstrução. Será o novo professor que irá dar consistência e sentido às tendências de popularização da educação primária e do primeiro ciclo da escola média; que irá tornar possível e eficiente o curso de colégio, com suas preocupações de dar cultura técnica, cultura preparatória ao ingresso na universidade e cultura geral de natureza predominantemente científica; e que irá preparar a transformação da universidade para as suas novas funções de introduzir a escola pós-graduada para a formação dos cientistas e a formação do magistério superior, tendo em vista as transformações em curso no sistema escolar, sem esquecer que lhe caberá, inevitavelmente, uma grande responsabilidade na difusão da nova cultura geral que a atual fase de conhecimentos humanos está a exigir. (TEIXEIRA, 2001, p. 203 – 4)
Todas essas questões, desafios e condicionantes ligados à educação feminina interferiram no cotidiano escolar do Colégio Normal Nossa Senhora do Patrocínio. Assim, houve também interferência nas expectativas em relação à vida privada e pública das normalistas, especificamente entre os anos de 1947 (quando o educandário passa a ofertar o
Curso Normal de 2.º ciclo) e 1971 (quando ocorre a Reforma de 1.º e 2.º graus), que têm diante de si algumas questões pertinentemente ligadas ao seu papel social, no contexto histórico de Patrocínio e região.
Figura 15 – Normalista Maria Fidalma do Nascimento (1949).
Fonte: acervo particular de Maria Fidalma do Nascimento.
Na foto de formatura, a normalista Maria Fidalma do Nascimento segurava a obra “Prática de Ensino”, de Theobaldo Miranda Santos, autor católico de manuais escolares, da Companhia Editora Nacional. Entende-se que os ideais valorativos de ação e amor situavam- se em torno da vivência sacramental, principalmente a Eucaristia, e a missão apostólica de difusão dos valores tradicionais católicos, como restauração da hegemonia católica nos meios sociais.
Em torno da Figura 15, destacou-se o lema “Ação! Justiça! Amor!”, do movimento Ação Católica, importante por arregimentar leigos para atividades apostólicas da Igreja Católica. Além disso, a mensagem associava o magistério ao sacerdócio, como trabalho apostólico e obra de amor. Neste sentido, considerava-se que
[...] as mulheres tinham, por natureza, uma inclinação para o trato com as crianças, que elas eram as primeiras e naturais educadoras, portanto nada mais adequado do que lhes confiar a educação escolar dos pequenos. [...] Para tanto seria importante que o magistério fosse também representado como uma atividade de amor, de entrega e doação. A ele acorreriam aquelas que tivessem vocação. (LOURO, 1997b, p. 450)
Conforme os depoimentos das normalistas, algumas das estudantes do Colégio Normal Nossa Senhora do Patrocínio dedicaram-se exclusivamente ao seu papel social de esposa e mãe, não exercendo as atividades docentes. A dedicação ao núcleo familiar e à formação doméstica dos filhos tornou-se a prioridade em decorrência ainda dos próprios valores ligados aos costumes tradicionais e patriarcais das famílias oligárquicas rurais.
Segundo tais hábitos culturais, a mulher deveria assumir suas responsabilidades do lar, inclusive a educação dos filhos, deixando o trabalho e a condução dos negócios aos cuidados do esposo.
Por isso, as palavras da normalista Maria Fidalma do Nascimento que, mesmo com um histórico de formação considerado impecável como normalista, não exerceu o magistério: “ganhei bolsa de estudo para fora, mas eu já tinha um namorado que era a causa, a razão da [...] minha vida. Não tão boa! Com o qual eu me casei: Edson Marques.” (NASCIMENTO, 2011). Dedicou-se exclusivamente à vida familiar, do lar, conforme a vontade do marido.
Por outro lado, outras normalistas do Colégio Normal Nossa Senhora do Patrocínio dedicaram-se ao trabalho docente, porém não puderam prosseguir os estudos em nível superior pelos mesmos motivos: a obrigação de assumir a educação dos filhos, como prioridade diante da carreira acadêmica.
Assim, “Fiz só até o Normal. Não fiz faculdade, porque, na época, já com criança “pequenininha”. E tive que morar com os pais, porque minha mãe não aceitou que eu ficasse sozinha em casa. Desde os sete anos de idade estudei no Colégio das Irmãs [...].” (NUNES, 2011a).
Em outras situações, o trabalho docente foi exercido por algumas das normalistas, assumindo não apenas um cargo de regente de turmas, como professora, mas também como diretoras. A normalista Zulma Laura de Oliveira, por exemplo, ajudou na fundação, instalação e consolidação do processo de escolarização da cidade de Romaria – Minas Gerais (antiga “Água Suja”), a convite dos padres dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, que mantinham e administravam o Santuário Nossa Senhora d’Abadia, importante centro de peregrinação religiosa das regiões do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba.
Desde menina eu falava, minha ideia era essa: vou ser professora da zona rural. Queria ser professora na roça. Formei e no fim de dezembro, o padre lá de Romaria, ele conversou com os outros padres daqui, porque todos eram dos Sagrados Corações [...], foi e conversou com o padre depois da missa, eu ajudava na Igreja Santa Luzia, ajudava as crianças e fazia a coleta. Na hora em que acabou a missa, o padre falou assim: “Eu preciso falar com a senhora [...]. O padre de Romaria veio aqui e quer uma normalista para ir fundar uma escola lá, porque lá não tem escola”. Aí, eu esperei minha irmã, que tinha casado e estava lá em Araguari, e aí eu falei para ela [...]: “[...] eu quero ir para Romaria, eu quero ir ser professora lá”. Aí, no dia 28 de dezembro de 1953, conversei com ele [o pai], e ele deixou eu ir, mas achando que eu não agüentava ficar lá. Porque Romaria naquela época nem era cidade, pertencia a Monte Carmelo [...], era Vila Romaria. Não tinha nada, só poeira e a Igreja. [risos] E eu fiquei dez anos. E aí fui pra lá, cheguei lá no dia 13 de janeiro de 1954 [...]. Naquele tempo, poucas pessoas eram normalistas, poucas pessoas tinham estudo. E lá, eu pegava assim, livros na biblioteca dos padres. Tirava o nome das editoras, tirava os endereços, e escrevia [...], eu era datilógrafa, coisa que ninguém sabia escrever à máquina [...], então, eu escrevia as cartas e mandava para as editoras. E aí, eles mandavam alguns livros e assim eu formei a biblioteca de Romaria com esses livros que eu ganhava, que as editoras encaminhavam para mim. Depois, quando eu vim para cá, para o Joaquim Dias, eu assumi a direção do Joaquim Dias e eu fiz a mesma coisa. Eu formei a biblioteca. (OLIVEIRA, 2011)
A perspectiva de atuação como professora, ou mesmo como diretora de escolas, era muito boa, pois havia grande demanda por normalistas, devido à expansão quantitativa do Ensino Primário, sob responsabilidade do Estado. Como eram poucas as pessoas alfabetizadas, as normalistas assumiam importante papel na sociedade, não só como alfabetizadores, mas também como lideranças nas cidades onde atuavam mesmo em questões partidárias.
O trabalho docente no Ensino Primário passava aos poucos por um processo de