1. Introduction
1.2 Governing massified higher education
A origem da disciplina História da Educação encontra-se indissociavelmente ligada ao surgimento e à (re)organização dos cursos de formação de professores, na Europa e nos Estados Unidos, na transição entre o século XIX e XX. A História da Educação enquanto disciplina apareceu como disciplina propedêutica para os estudos das ciências da educação, voltadas para os fundamentos teórico-metodológicos.
A disciplina História da Educação refletiu um conjunto de fatores relacionados à sistematização escolar nos países europeus no decorrer do século XIX. Os avanços das Ciências Naturais (Física, Química e Biologia) inspiraram a formatação das chamadas Ciências Humanas, ampliando a visão científca para outros objetos de abordagem, como a educação.
Referente ao tempo e ao espaço de introdução da História da Educação, na Europa do século XIX, percebe-se também um grande problema, relativo às relações ensino / investigação como constituição de campo autônomo do saber científico, bem como suas repercussões enquanto saber escolar na formação dos professores. Segundo Nóvoa (1994, p. 14),
De início, a História da Educação incidiu sobre a evolução no tempo dos princípios educativos. Era uma reflexão essencialmente teórica, que tinha como argumento central a ideia que a educação só podia ser compreendida na sua temporalidade histórica e que, portanto, a ciência pedagógica devia ter a história como fundamento [...]. Em meados do século XIX, esta visão da História da Educação era já objecto de viva contestação. Uma das críticas mais autorizadas veio de Herbart, um dos fundadores da pedagogia científica, que reclamou uma escrita histórica de maior utilidade prática para os professores. Por detrás desta posição adivinha-se a emergência de uma filosofia positivista da educação, baseada em factos observáveis (e, se possível, mensuráveis), que desvaloriza a historicidade própria da reflexão pedagógica. [...] A preocupação natural de dar resposta a necessidades de formação dos professores levou a uma utilização acrítica da investigação histórica. Pouco a pouco, a História da Educação transformou-se num instrumento de legitimação das ideias presentes dos educadores, numa espécie de receituário de ensinamentos expondo as práticas a adoptar ou a evitar.
Ao longo do século XIX, a História da Educação vinculou-se às aprendizagens práticas e metodológicas nos programas de estudos de formação de professores. Surgiram embates nos meios acadêmicos, que caracterizaram não apenas a disciplina História da Educação, mas todas aquelas caracterizadas como Ciências da Educação em geral.
Tais características remontaram não só ao percurso e à situação da História da Educação em países europeus, mas também nos Estados Unidos e na América Latina. Enquanto disciplina, a História da Educação surgiu
[...] vinculada a programas institucionais de formação de professores, e, por isso, fortemente radicada no campo das ciências da educação, a História da Educação ocupou, até muito recentemente, nesse campo, a posição de saber subsidiário. Cabia- lhe funcionar curricularmente como espécie de vestíbulo introdutório de outros estudos, fornecendo-lhes o “contexto” ou a “origem” de uma determinada questão, a ser adequadamente estudada por especialistas de outras “ciências” da educação, tidos como mais autorizados. Esse estatuto da disciplina em programas de formação docente produziu uma espécie de naturalização: a disciplina não se define pela partilha e discussão de procedimentos que lhe conferem o estatuto de conhecimento historiográfico, para definir-lhe pela referência a um objeto, que, na falta da definição aludida, se reifica, se naturaliza. (CARVALHO, 2005, p. 33)
A partir de 1860, foram lançadas as primeiras obras que tratam da História da Educação e foram ministrados os primeiros cursos em instituições superiores e Escolas Normais, em diversas localidades europeias.
Os primeiros manuais de História da Pedagogia ou da Educação foram a obra de T. Fritz, Esquisse d’un système complet d’instruction et d’éducation et de leuer histoire (Strasbourg, 1843) e o manual de Karl Schmidt (1819-1864) – Geschichte der Pädagogik, dargestellt in weltgeschichtlicher. Entwicklung und in organischem Zuzammenhang mit dem Kulturleben (1860-1862), obra publicada em 4 volumes.
Segundo Bastos (2002), em 1875, Célestin Hippeau publicou a obra L’instruction publique en Italie, em que reproduziu os conteúdos curriculares de História da Pedagogia, lecionados na Escola Normal feminina de Florença. Ao cumprimentar os políticos locais pela inclusão da citada disciplina no currículo de formação de professores, Hippeau observou:
[...] na França, onde existem excelentes livros de educação, não será possível tornar obrigatório em todas as escolas normais estes cursos de pedagogia dogmática e histórica que nenhuma pessoa pode contestar a utilidade. Estou precisamente sob os meus olhos com a História da Pedagogia, de Jules Paroz, diretor de escola normal, onde descubro similaridades com o programa da escolar normal de Florença. (HIPPEAU, 1875, p. 415 apud BASTOS, 2002)
Os estudos pioneiros de escrita disciplinar da História da Educação foram os do teórico da educação e político francês Jules-Gabriel Compayré (1843-1913), sendo suas obras utilizadas como modelo para a produção de outras obras de História da Educação, bem como para o ensino da disciplina nos cursos de formação docente.
A partir de 1879, Compayré contribuiu diretamente para o desenvolvimento de uma História da Educação na França, publicando primeiramente a obra Histoire critique des doctrines de l’education en France depuis le seizième siècle, apresentada em concurso promovido pela Academia de Ciências Morais e Políticas.
Sua formação acadêmica voltada para a Filosofia, bem como sua atuação como docente, contribuiu diretamente para as primeiras e notáveis vinculações entre as reflexões filosóficas e a nascente História da Educação. Consequentemente, destaca-se em suas obras (Cf. Quadro 1) uma abordagem mais voltada para a História das ideias pedagógicas.
Quadro 1 – Destaques da produção bibliográfica de Compayré (1843-1913)
Obra Ano da publicação
Philosophie de David Hume (tese de doutoramento) 1873
Histoire critique des doctrines de l'éducation en France depuis le seizième siècle
(Prêmio Bordin) 1879
Éléments d'éducation civique et morale 1880
Histoire de la pédagogie 1886
Cours de morale théorique et pratique 1887
Notions élémentaires de psychologie 1887
L’Instruction civique, cours complet, suivi de notions d'économie politique à l'usage
des écoles normales primaires et des écoles primaires supérieures 1888
Organisation pédagogique et législation des écoles primaires (pédagogie pratique et administration scolaire)
1890
Psychologie appliquée à l'éducation 1890
Études sur l'enseignement et sur l'éducation 1891
L'Évolution intellectuelle et morale de l'enfant 1893
Yvan Gall, le pupille de la marine, livre de lecture courante (degrés moyen et
supérieur, classes primaires des lycées et collèges) 1894
L'Enseignement secondaire aux États-Unis 1896
Herbert Spencer et l'éducation scientifique 1901
J.-J. Rousseau et l'éducation de la nature 1901
Les Grands Éducateurs. Jean Macé et l'instruction obligatoire 1902
Les Grands Éducateurs. Pestalozzi et l'éducation élémentaire 1902
Les Grands Éducateurs. Félix Pécaut et l'éducation de la conscience 1904
Les Grands Éducateurs. Herbart et l'éducation par l'instruction 1904
Les Grands Éducateurs. Montaigne et l'éducation du jugement 1905
Les Grands Éducateurs. Charles Démia et les origines de l'enseignement primaire 1905
Les Grands Éducateurs. Le P. Girard et l'éducation par la langue maternelle 1907
Les Grands Éducateurs. Horace Mann et l'école publique aux États-Unis 1907
L'Éducation intellectuelle et morale 1908
Jules Gaufrès, sa vie et son œuvre 1909
Fénelon et l'éducation attrayante 1911
Fröebel et les jardins d'enfants 1912
Fonte: elaborado e adaptado pelo autor da tese conforme: http://www.assemblee-nationale.fr/sycomore/fiche.asp?num_dept=7926 (Acesso: 08.mar.2011).
Por meio da análise dos títulos produzidos por Gabriel Compayré, nota-se a envergadura e o alcance que tais estudos tiveram em produções posteriores, inspirando o trabalho de autores na escrita de manuais escolares, utilizados em instituições não apenas francesas, mas em muitos países da Europa, América, etc..
As obras de Compayré investigaram temas ligados à evolução das ideias pedagógicas, com o intuito não só de descrever as matrizes filosóficas em vigor na França, mas também suas repercussões no processo educacional escolar. Destaca-se a abordagem das questões morais e cívicas e o processo de assimilação dessas noções específicas, ainda mais na infância. Busca também a descrição das formulações legais e instrucionais voltadas para o ensino secundário, inspirando uma historiografia das normatizações dos sistemas nacionais de educação, como o do ensino secundário dos Estados Unidos.
Compayré também abordou nomes do pensamento pedagógico, cujas obras e ações representaram referências ao sistemático esforço de consolidação das instituições escolares, especialmente na Europa: Herbert Spencer, Jean-Jacques Rousseau, Jean Macé, Pestalozzi, Félix Pécaut, Herbart, Charles Démia, Montaigne, P. Girard, Horace Mann, Jules Gaufrès, Fénelon e Fröbel.
Nota-se também a preocupação de Compayré com o estatuto das “Ciências da Educação”. Suas obras refletiram o interesse em investigar com embasamento empírico e teórico capaz de oferecer condições para a aplicação na realidade, reflexo da tendência de “cientificização” da Pedagogia. Neste sentido, pode-se observar outra de suas obras: Cours de Pedagogie Théorique et Pratique5, de 1897. Gabriel Compayré dividiu a obra em duas partes: Pedagogia Teórica / Pedagogia prática. Tal divisão denota a fundamentação teórica dos conhecimentos instrucionais, mas também sua aplicação, bem como sua funcionalidade no cotidiano docente.
Outras obras fundamentais de Jules-Gabriel Compayré, Histoire de la Pedagogíe (1886) e Histoire critique des doctrines de l’éducation en France depuis le seizième siècle (1879) marcaram o princípio de uma produção de obras voltadas para a descrição, análise e enumeração dos principais fatos e autores que direta ou indiretamente influenciaram a evolução das ideias, métodos, princípios, organização e práticas das questões educativas.
Seus cursos de Filosofia e de História da Educação, oferecidos na Universidade de Toulouse, foram precursores na trajetória da História da Educação enquanto disciplina ofertada em cursos de formação de professores. Nesse momento, História e Pedagogia foram concebidas de forma intrínseca e interligada, denotando a importância da visão integrada, consideradas interdependentes entre si.
5 Verificar a descrição geral da obra citada em: http://michel.delord.free.fr/comp-cptp-tdm.html (Acesso:
Afirmando que as doutrinas pedagógicas contribuem para formar o espírito e estabelecer os costumes, defende que uma História da Educação bem compreendida é, numa forma reduzida, uma História do pensamento, podendo substituir vantajosamente no ensino popular a difícil História da Filosofia e da Religião. Compayré defende, assim, o lugar legítimo e indiscutível da História da Pedagogia na formação dos educadores e atribui, como finalidade do ensino da História da Educação, mostrar por meio de repetições, insucessos, retrocessos o progresso sempre contínuo e o encaminhamento insensível para soluções mais racionais e mais ideais. Compayré defende que as doutrinas pedagógicas não são fruto de acontecimentos fortuitos; têm as suas causas políticas, morais, religiosas e devem ser estudadas dentro do seu contexto, evitando cair numa Filosofia das ideias. (FELGUEIRAS, 2008, p. 492)
É perceptível que a nascente História da Educação esteve intimamente relacionada à abordagem dos grandes filósofos que direta ou indiretamente influenciaram na formação de ideias consideradas pedagógicas. E, assim, influenciou a produção de inúmeros outros textos, manuais de História da Educação, em todas as partes do mundo. Em sua 29.ª edição, a obra Histoire de la Pedagogíe possui a seguinte constituição de matérias:
Quadro 2 – Matérias da obra Histoire de la Pedagogíe (Gabriel Compayré, 29.ª ed.)
Introdução
Lição primeira – A educação na Antigüidade Lição II – A educação na Grécia
Lição III – A educação em Roma
Lição IV – Os primeiros séculos da era cristã e a Idade Média
Lição V – O Renascimento e as teorias da educação do século XVI: Erasmo; Rabelais e Montaigne Lição VI – As origens protestantes do Ensino Primário: Lutero e Comênio
Lição VII – As congregações do ensino: Jesuítas e Jansenistas Lição VIII – Fénelon
Lição IX – Os filósofos do século XVII: Descartes, Malebranche e Locke Lição X – A educação feminina no século XVII: Jacqueline Pascal e Maintenon Lição XI – Rollin
Lição XII – As origens católicas do Ensino Primário: La Salle e as escolas cristãs Lição XIII – Rousseau
Lição XIV – Os filósofos do século XVIII: Condillac, Diderot, Helvétius e Kant Lição XV – As origens da educação laica e nacional na França: La Chalotais e Rolland Lição XVI – A Revolução: Mirabeau, Talleyrand, Condorcet
Lição XVII – A Convenção: Lakanal, Daunou Lição XVIII – Pestalozzi
Lição XIX – Os sucessores de Pestalozzi: Fröebel, Girard Lição XX – A Pedagogia feminina
Lição XXI – A teoria e a prática da educação no século XIX
Lição XXII – A ciência da educação: Herbert Spencer e Alexandre Bain Lição XXIII – O movimento pedagógico contemporâneo na França e no exterior
Fonte: elaborado e adaptado pelo autor da tese segundo: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k73046f/f524.image (Acesso: 10.mar.2011)
A abordagem da sucessão de objetos de investigação da obra acima elucida que Gabriel Compayré assumiu uma concepção linear e sucessiva dos eventos históricos ligados
aos processos educacionais, demonstrando alguns aspectos como: 1) apenas algumas primeiras e poucas páginas da obra foram dedicadas à abordagem das questões educacionais históricas no período antigo e medieval (aproximadamente 10% da obra), sendo destaques as sociedades consideradas clássicas: Grécia e Roma; 2) a modernidade recebeu grande destaque de Compayré, sendo aludida como momento do surgimento da escolarização de fato no ocidente, por meio da obra de protestantes e católicos; 3) forte presença de pensadores ligados especificamente à Filosofia, principalmente franceses, demonstrando o entendimento de que tal saber influenciou diretamente as concepções educativas presentes ao longo da História do ocidente; 4) logicamente, Gabriel Compayré enfatizou os eventos ligados à educação na França, compreendendo que a educação laica e nacional teve suas origens nas ideias iluministas e consolidadas após a Revolução burguesa (1789-1799); 5) das vinte e três lições enumeradas, duas são curiosamente dedicadas à educação feminina, explicitando, nesse sentido, a preocupação com o respectivo papel, os fins e os meios para tal empreendimento; 6) reflexo das tendências da 2.ª metade do século XIX, Compayré destacou também as questões ligadas ao surgimento de uma “Ciência da Educação”, voltada para a abordagem teórica e prática dos saberes necessários para a educação escolar.
Compayré, por outro lado, em sua obra Histoire critique des doctrines de l’éducation en France depuis le seizième siècle (1879), desenvolveu uma abordagem das questões teóricas e doutrinais da questão educacional em dois tomos. A obra foi desenvolvida tendo em vista seu curso de Filosofia da Educação, ofertado na Universidade de Toulouse, e muito influenciou também no surgimento da História da Educação, enquanto disciplina. A seguir, o sumário da obra:
QUADRO 3 – Histoire critique des doctrines de l’éducation en France depuis le seizième siècle (Gabriel Compayré, 1879)
PRIMEIRO VOLUME
Introdução – Visão geral da História da Educação desde a Antigüidade até a Idade Média. Livro Primeiro:
Os reformadores da educação no Século XVI Cap. I – Rabelais
Cap. II – Montaigne
Cap. III – Erasmo e a Renascença; Ramus e a Reforma Livro Segundo:
As grandes corporações de ensino
(Continuação) Cap. I – Os Jesuítas
Cap. II – Os oratorianos Cap. III – Os jansenistas
Livro Terceiro: A educação do século XVII Cap. I – A educação dos príncipes
Cap. II – A educação das mulheres Cap. III – O espírito filosófico da educação
Livro Quarto:
A Universidade de Paris e suas reformas sucessivas Cap. I – Os estatutos de Henrique IV e a História da Universidade de Paris no século XVII Cap. II – Rollin e o tratado dos estudos
SEGUNDO VOLUME Livro Quinto:
Rousseau: seus precursores, seus discípulos Cap. I – A educação do século XVII e os precursores de Rousseau
Cap. II – Jean-Jacques Rousseau
Cap. III – Os discípulos e as contradições de Rousseau Livro Sexto: Os filósofos do século XVIII Cap. I – Dumarsais e Condillac
Cap. II – Diderot e Helvétius
Livro Sétimo:
As origens do espírito laico da educação do movimento parlamentar de 1762 Cap. I – A expulsão dos jesuítas – La Chalotais
Cap. II – Rolland e a organização dos estudos
Livro Oitavo: A Revolução Francesa
Cap. I – A Assembleia Constituinte – O projeto de Mirabeau e o relatório de Talleyrand Cap. II – A Assembleia Legislativa e Condorcet
Cap. III – A Convenção – As utopias
Livro Nono: O século XIX e a educação Cap. I – A Universidade da França e os teóricos da educação no século XIX Cap. II – Por uma teoria da educação
APÊNDICE – Extrato do Relatório de M. Gréard e o Discurso de M. Bersot sobre o concurso promovido pela Academia de Ciências Morais e Políticas.
Fonte: elaborado e adaptado pelo autor da tese segundo: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k816475.r=gabriel+compayr%C3%A9.langPT (Acesso: 10.mar.2011)
Percebe-se também, dessa forma, que Compayré elaborou ambas as obras de maneira muito similar. Seu principal foco consistiu na promoção e desenvolvimento de um discurso teórico que demonstrou o surgimento das questões educacionais ao longo da História, englobando a descrição dos elementos responsáveis pela consolidação da Pedagogia. Destacou principalmente aquilo que em sua concepção são essenciais para a fundamentação teórica e prática para a consecução de uma escolarização sob responsabilidade dos estados nacionais.
Portanto, o surgimento da História da Educação enquanto disciplina confirmou-se no chamado “Momento Compayré”, nos dizeres de Nanine Charbonnel apud Nóvoa (1994), em sua obra Pour une critique de la raison éducative. Por sua vez, afirmou também a existência de uma segunda fase, o “Momento Pedagogia Experimental”, em que a Pedagogia é reclamada como uma das áreas científicas, por incorporar características pretensamente experimentais e objetivas.
Na França, em 1882, surgiu o primeiro curso superior de Pedagogia na Faculdade de Letras de Bordeaux, com a finalidade de racionalizar os métodos pedagógicos e de consolidar uma ciência da educação. Conforme Gautherin (2002), consistiu no momento da invenção da pedagogia universitária.
Conforme Nóvoa (1994), com a consolidação da Psicologia experimental, percebeu- se uma continuidade e uma predominância de uma razão psicológica nas chamadas “Ciências da Educação”. Houve a necessidade de uma implementação de análises científicas para consolidar as abordagens pedagógicas como iniciativas conformadas com os critérios exigidos pela Psicologia.
Nota-se que a História da Educação gradativamente sofreu as influências dessa tendência cientificista, por ser caracterizada como uma das áreas de abordagem das “Ciências da Educação”.
A busca pelo prestígio no campo das ideias científicas culminou na História da Educação, enquanto disciplina, voltada primeiramente para a reconstrução historicista do processo educativo, bem como do esforço de teorização das ideias pedagógicas.
Posterior e gradativamente, assumiu lugar de disciplina meramente descritiva de fatos, ideias e práticas educativas, reduzida aos cursos de formação de professores.
Na verdade, o sucesso da História da Educação no início do século XX, com a conquista de um espaço significativo na formação de professores e de uma importante dinâmica editorial, faz-se à custa do esvaziamento das suas dimensões epistemológicas e heurísticas. Trata-se de uma História que perdeu o sentido da sua própria História, e que adoptou um registro técnico e descritivo. Nestas condições o
seu declínio era inevitável, pois deixou de ter uma função crítica e teórica e, num tempo obcecado por medidas e observações, deixou de ter qualquer interesse prático para a formação de professores. (NÓVOA, 1994, p. 18)
Além da menção a Gabriel Compayré, como um dos pioneiros da produção acadêmica voltada para a História da Educação, torna-se evidente também a citação às contribuições teóricas e metodológicas de dois outros pensadores para o desenvolvimento da História da Educação: Wilhelm Dilthey (1833-1911) e Émile Durkheim (1858-1917).
Na virada do século XIX para o XX, ambos os intelectuais foram atuantes na produção da História da Educação como disciplina voltada para a formação de professores. O primeiro seguiu as tendências filosóficas do historicismo alemão, enquanto o segundo apoiou- se numa perspectiva sociológica positivista francesa.
A situação avançada dos processos de escolarização na Alemanha, a tradição filosófica idealista e a atuação de pensadores como Herbart e Fröbel permitiram que a Alemanha se lançasse, na segunda metade do século XIX, na produção voltada para o desenvolvimento das “ciências do espírito”.
Dilthey aprimora investigação sobre as relações entre a História e a Psicologia. Logo, “o caminho teórico da ‘crítica da razão histórica’ e as tarefas profissionais e cotidianas de Dilthey o levaram ao trabalho com História da Pedagogia e da educação.” (GHIRALDELLI