Nunca é demais repetir que exportar sempre foi a grande saída para ativar a economia amazônica, desde os tempos coloniais. Nas palavras de Benchimol (1996, p.2), “isso aconteceu tanto nos antigos tempos das ‘drogas do sertão’ como por ocasião do ciclo da borracha e dos produtos do extrativismo da floresta e do rio”.
No município de Santarém de hoje, a atividade agrícola é considerada uma das mais promissoras para o futuro da economia local, cujo destaque é o plantio de grãos. Concordar ou discordar, apenas, com os avanços e as promessas deste ramo de atividade para ativar a economia santarena e dos benefícios que ela estaria trazendo para sua população, não ajuda a entender o que há de mais profundo no percurso de consolidação do processo de acumulação do capital e do longo processo de “reconstrução” do viver amazônico.
O movimento dos tratores, o ranger das motosserras, o vai-e-vem de grandes navios e o embarque de produtos agrícolas em navios com bandeiras que muitos moradores locais nunca ouviram falar, e que pouco sabem sobre o peso que elas têm no mundo globalizado, ainda que sintam seus impactos, são dinâmicas com as quais todos passam a conviver sem que tenham a exata noção do seu alcance.
Apenas uma certeza tem perdurado ao longo do tempo: é nesse processo de economia de altos e baixos que a região amazônica tem completado cada período de sua história sem ter construído uma base consistente no seu processo de desenvolvimento, de modo a colocá-la na vanguarda das discussões e das decisões das questões nacionais, especialmente daquelas que afetam os interesses de suas populações e o uso dos recursos naturais. O papel de “subserviência” e de dependência quase extrema em relação aos grandes centros financiadores e compradores das mercadorias produzidas em pequena ou em larga escala, a tem colocado no papel de assistência aos interesses que lhe são alheios, seja no aspecto econômico seja na disponibilidade de conhecimento das coisas que lhe são próprias, entre outras condições.
Assim, a região parece estar cumprindo, apenas, o papel de retaguarda das pretensões externas, sem voz ativa o bastante para expressar seus limites, seus anseios e suas crenças. Tem lhe restado, nos dias de hoje, a função de ficar inventariando os hectares de florestas que são derrubadas, as toras de madeira que
saem mundo afora, o nível de degradação dos solos, a vastidão das grandes posses de terra, o número de covas que tem abrigado seus filhos combatentes na parte do solo que lhes têm cabido naqueles latifúndios, o número de palafitas e de favelas que se formam no entorno dos centros urbanos, onde florescem verdadeiras cidades sem documento.
Em um percurso de vida com essa feição, as relações sociais e as emoções tendem a funcionar no mesmo sentido dos altos e baixos de uma economia dominada por ciclos. As pessoas se movem seguindo o curso, ora do progresso (possibilidades de trabalho e de sonhos acalentados) ora da exaustão (promessas vãs dos que chegam e voltam deixando grandes crateras nos solos, consideráveis extensões de rios envenenados, barrancos propensos às constantes erosões e velhas palavras, vazias, que o tempo consumirá), e passam a viver suas emoções também permeadas por ciclos de euforia e de frustração. As histórias não são contadas para filhos e netos de forma linear, como qualquer história criada por alguém que tem o domínio de sua trajetória, com início, meio e fim, mas como fragmentos de um percurso que a memória não alcança, pois tantas foram as rupturas.
Os períodos benéficos do crescimento por ciclos são sempre transitórios, mágicos e imediatistas, do ponto de vista econômico, mas eternos do ponto de vista dos seus efeitos sociais, culturais e ecológicos, cujas fraturas (as constantes mobilizações, o desarranjo familiar, a ilusão do trabalho prometido, a perda das identidades, a desorganização dos ecossistemas, entre outras), somam-se às “bombas-relógio” que são ativadas por conta da disputa pela terra, extremamente concentrada.
Ou seja, o tempo amazônico tem acontecido pela ação dos homens e pela prática da dependência. Não é o tempo do amanhã, mas o de ontem que norteia as ações empreendedoras do presente, calcadas na secular prática dos grandes domínios, que foram sendo garantidos por bulas papais, leis, estatutos, atos administrativos e pelas zelosas práticas de manutenção do status quo por parte do Estado, que tem propiciado as ações de apossamento da terra com o perfil concentrador, por intermédio das políticas que concebe e das oportunidades que cria.
O negócio da produção de grãos dos dias atuais é um daqueles momentos em busca da valorização do capital que para lá se mobilizou, embalado pelo sonho da prosperidade. Muito já se especulou sobre o fracasso do avanço e da consolidação do projeto soja na Amazônia, fosse pela possível retração do mercado comprador, pela pressão ambiental ou pelo hipotético risco de pragas que dizimariam as plantações. O futuro, todavia, parece ser bastante promissor para expansão e consolidação do agronegócio: “pesquisadores da Embrapa apostam no plantio de 20 milhões de soja no Pará. É o equivalente ao que se cultiva hoje em todo o país” (ÉPOCA ONLINE, 2008, p.1).
Os produtores se comprometem a plantar grãos somente nas áreas que já foram desmatadas, porém são grandes as extensões de terra adquiridas para esse fim e crescentes os índices de desmatamento denunciados com freqüência. Os empreendedores da soja contam com o financiamento de grandes empresas multinacionais como a CARGILL e a BUNGE Alimentos.
Tradicional produtor de arroz, Santarém tem uma grande vantagem sobre os outros pólos de grãos: pode proporcionar duas safras ao ano, pois as chuvas duram mais tempo. Lá a soja está sendo introduzida na segunda safra, em rotação com a cultura de arroz. No ano passado, o BASA financiou R$ 19,9 milhões para plantação de grãos na região. Além disso, as multinacionais da soja também apóiam os produtores. O gaúcho Pio Stefanelo, que chegou a Santarém em 1998 e hoje é proprietário da única sementeira da região, é financiado pela CARGILL: ''eles me adiantam os insumos, que são o mais caro, e eu pago na safra'', explica (ÉPOCA ONLINE, 2008, p.2).