2.2 C HOICE OF ACTORS
2.2.1 The UN in Haiti
A organização produtiva da região de Santarém reflete as diferentes inserções e fixações das populações migrantes ao longo do tempo, especialmente a nordestina e a sulista, que chegaram mais fortemente no decorrer dos séculos XIX e XX. Os espaços em disputa para a reprodução do capital também passam a exigir estratégias diferenciadas diante das peculiaridades dos ecossistemas amazônicos.
Uma das dinâmicas em curso no mesmo espaço refere-se às manifestações das diferentes identidades culturais, que criam momentos de tensão entre os protagonistas, ainda que expressadas de modo sutil. Elas vão se inserindo no contexto das relações sociais locais, ora compondo com aquelas já existentes ora se colocando em destaque.
Determinadas formas de expressão dessas novas identidades (hábitos, comportamentos...) têm se manifestado com mais força ante aquela local, interpretada por muitos como de menor representatividade diante dos “sinais” que simbolizam o espírito do empreendedorismo. Essas novas atitudes não demonstram, apenas, serem sinais demarcatórios da fronteira entre “vencedores” e “fracassados”, que personificam lados opostos da lógica capitalista, mas também para evidenciar a condição de “superado” ante o processo de modernização em curso, que exige novos métodos, novas posturas, novas atitudes e crenças, além da condição de “ser capaz de ter”, que são elementos mais condizentes com o espírito do pioneiro, do desbravador e do vencedor.
Nas ruas da cidade de Santarém, a circulação de carros novos, grandes e possantes, e pick-ups turbinadas já denota a credencial de seus donos, ainda que estes, muitas vezes, se encontrem sob o anonimato de um vidro fume. No final da tarde, quando há uma grande concentração de carros na orla do rio Tapajos, é possível visualizar o perfil “dos que podem e dos que não podem” no contexto dessa nova paisagem que começa a ser formada, cuja externalização da prosperidade é evidente.
Sara Costa Pereira, presidente da FAMCOS (Federação das Associações de Moradores de Organizações Comunitárias de Santarém) no triênio 2005-2008, expressou-se (março/2006) do seguinte modo: “as pessoas daqui que estavam acostumadas a ir à orla, sentar num banquinho e bater um papo, não podem mais bater esse papo porque o cara chega lá, estaciona sua relux, abre as portas e o som fica altíssimo, e as pessoas vêem assim: Ah! são os ‘gaúchos’ que chegaram...! ”. Para a população local, qualquer pessoa que seja branca, loura e com fala enrolada, é gaúcho.
Essas tensões também são percebidas nas relações de conquista e de encantamento do homem migrante (o “gaúcho - homem de posses e de futuro”), no que diz respeito à “disputa” por uma parceira santarena, momento em que são expostos sentimentos de ciúme em relação ao “forasteiro”. O escritor Efrem Galvão, um perspicaz observador (entrevista em março de 2006), fala de uma dessas situações: “... tem vindo o gaúcho, o catarinense e outros para trabalhar aqui, e casam por aqui; isso dá uma ciumeira com relação aos homens de lá que vêm para cá; um vizinho dessas casas daqui..., duas casaram com gaúcho, moças bonitas, e
uma terceira, que é a moça mais bonita das redondezas, namora... não sabem se vai casar... é santarena, a origem do avô e da mãe é da várzea, aqui do Tapajós, mas já moram na zona urbana”.
Em outro contexto da vida local, o da disponibilidade de serviços, é possível perceber aspectos dos novos valores que estão sendo disseminados, cujos sinais estão presentes nos outdoors e nas rádios, entre outros meios de comunicação. O processo de divulgação de determinados serviços já reflete um estilo de vida esperado para o futuro, tanto para a geração de descendentes dos atuais empreendedores quanto daqueles outros da região que farão parte de um novo tipo de mercado de trabalho. Estamos falando de um segmento da área educacional - o ensino da graduação. Na cidade, encontra-se em processo de expansão e de afirmação, entre outras que lá existem, o Instituto Luterano de Ensino Superior em Santarém – ILES/ULBRA, de origem sulista, cuja sede é em Canoas/RS. Uma das formas de divulgação do serviço na cidade de Santarém foi o de evidenciar “um padrão educacional de qualidade para os novos tempos, focado no espírito do empreendedorismo”, tendo o “gaúcho” como uma referência desse padrão, tal como implícito na propaganda exposta nos cadernos que são vendidos (Figura10).
Figura 10 – Slogan de divulgação dos serviços da ILES/ULBRA (Instituto Luterano de Ensino Superior em Santarém)
São evidentes, portanto, as contradições e os sutis embates que acontecem nas relações sociais cotidianas da Santarém e que diferem da contundência dos embates pela disputa da terra.
Por outro lado, as opiniões que permeiam as discussões sobre a nova realidade que se ancora no processo de modernização das forças produtivas não são apenas de desapontamento, mas também de positivação ante a perspectiva “do até que enfim o progresso está chegando”. Florescem a cada momento novas possibilidades de negócios em resposta à crescente demanda dos consumidores. Na esteira dessa dinâmica progressista, diversas oportunidades desses negócios vão se abrindo para os pequenos empreendedores locais. Estes, não necessariamente, vivem desses pequenos empreendimentos, de modo exclusivo, pois muitos deles são professores, funcionários públicos, profissionais liberais e aposentados, que sozinhos ou em parceria estão abrindo negócios nos ramos de mercearia, açougue, padaria, lan house, foto-revelação, entre outros.
Mais recentemente, constata-se que novos tipos de tensão emergem noutro contexto da realidade santarena – nas áreas de várzea. Os conflitos têm como foco a posse da terra. A despeito de ser a várzea um ecossistema bem peculiar, que à primeira vista não atrairia “homens de negócio de bom-senso”, isso não se constitui num empecilho, nos dias de hoje.
Entre os ecossistemas existentes, os que se destacam na região de Santarém são as áreas do planalto e as áreas de várzea. Esta última exige um grau de conhecimento e de habilidade para lidar com suas diferentes facetas que, por extensão, também exige um conhecimento diferenciado do aparato legal para o processo de apossamento e de regularização das terras localizadas nessas áreas.