Duas principais questões permeiam a medida do desempenho da empresa (VENKATRAMAN; RAMANUJAM, 1987). Uma é a fonte dos dados, que pode ser primária (por exemplo, dados coletados diretamente na empresa objeto de estudo) ou secundária (dados coletados em fontes externas à empresa objeto de estudo). A outra questão é a forma de avaliação do desempenho, que pode ser objetiva (por exemplo, baseada em algum sistema estabelecido, como contabilidade interna, ou avaliação sistemática por agências externas) ou perceptual (por exemplo, julgamentos dos executivos). Com base nessas duas questões, os autores desenvolveram um esquema classificatório, bidimensional com quatro células, para mensuração do desempenho econômico da empresa, conforme mostrado na figura 6.
Relatórios factuais do desempenho da empresa, por exemplo, relatórios contábeis gerenciais, relatórios dos sistemas de informações gerenciais,
índices (por exemplo, ROI)
Relatórios compilados para o público externo, por exemplo: relatórios anuais,
relatórios para agências reguladoras. Objetiva
(baseada em registros/sistemas)
FORMA 1 2
DE 3 4
AVALIAÇÃO Avaliações perceptuais e estimativas dos
gestores; alguns índices (por exemplo, participação relativa de mercado)
Avaliação baseada na percepção de observadores do setor e outros especialistas externos à organização Perceptual
(julgamentos)
PRIMÁRIA SECUNDÁRIA
(diretamente da organização) (de fontes externas à organização)
FONTE DOS DADOS
Figura 6 – Medidas de desempenho financeiro: um esquema classificatório
Fonte: Venkatraman; Ramanujam (1987)
3.1.1 Categorias de medidas de desempenho financeiro
As principais variáveis usadas na pesquisa e na prática para representar o constructo do desempenho organizacional podem ser categorizadas em diversos grupos distintos. As
quatro principais categorias das variáveis de desempenho organizacional usadas na pesquisa empírica recente são: (i) medidas contábeis; (ii) medidas operacionais; (iii) medidas baseadas no mercado; e (iv) medidas de sobrevivência. Adicionalmente, medidas de criação de valor econômico são populares na prática, mas não são freqüentemente usadas na pesquisa de gestão estratégica ou de empreendedorismo.
• MEDIDAS CONTÁBEIS
Medidas contábeis são aquelas que se baseiam nas informações financeiras disponíveis no Balanço Patrimonial, Demonstrativo de Resultado do Exercício e Fluxo de Caixa. As medidas contábeis podem ser sub-categorizadas em medidas de lucratividade, crescimento, alavancagem, liquidez e fluxo de caixa, e medidas de eficiência.
• MEDIDAS OPERACIONAIS
As medidas operacionais incluem variáveis que expressam os resultados da empresa em dimensões não financeiras. A medida do desempenho sob uma perspectiva não financeira tem recebido atenção renovada ao longo dos últimos anos, dado que as empresas têm adotado uma abordagem do Balanced Scorecard para a integração da estratégia com a medida do desempenho (KAPLAN, 1984; KAPLAN; NORTON, 1992). Essas variáveis incluem participação de mercado, mudanças nos ativos intangíveis, tais como patentes ou recursos humanos, satisfação do cliente e desempenho junto aos stakeholders. A maior parte das medidas nesta categoria requer dados primários obtidos junto à gestão quanto à sua percepção de seu próprio desempenho, o que pode levantar questões quanto à validade das respostas.
• MEDIDAS BASEADAS NO MERCADO
Medidas de desempenho baseadas no mercado incluem índices ou taxas de mudanças que incorporam o valor de mercado da empresa. Estas variáveis incluem o retorno aos acionistas, valor de mercado adicionado, Alfa de Jensen e Q de Tobin. O cálculo dessas variáveis requer uma valorização de mercado para a empresa e é geralmente apenas disponíveis às empresas que tem suas ações negociadas no mercado de capitais.
• MEDIDAS DE SOBREVIVÊNCIA
Medidas de sobrevivência simplesmente indicam se a empresa permaneceu em atividade durante o período de interesse. Barnard (1938) e Drucker (1954) propuseram que a sobrevivência é uma medida de desempenho de longo prazo. No entanto, dado que grande
parte da pesquisa empírica em gestão estratégica adota horizontes de tempo de cinco anos e menos (CARTON; HOFER, 2006, p. 62), a sobrevivência é raramente utilizada como uma medida de desempenho organizacional.
• MEDIDAS DE VALOR ECONÔMICO
Medidas de desempenho baseadas em valor econômico são medidas contábeis ajustadas que levam em consideração o custo do capital e algumas das influências das regras de publicação de demonstrações financeiras. Essas medidas são mais dificilmente adotadas em estudos empíricos, de acordo com Carton; Hofer (2006, p. 63), em função de os valores não serem geralmente reportados, dado que muitas empresas nem mesmo os calculam internamente. Medidas de valor econômico incluem lucro residual, valor econômico adicionado e retorno de fluxo de caixa sobre o investimento - CFROI.
O fundamento do modelo de estimação do CFROI é o conceito do valor presente líquido baseado no desconto de um fluxo de caixa estimado, cujos princípios defendem que: (a) é preferível mais dinheiro que menos; (b) o dinheiro tem valor no tempo, mais cedo é preferível a mais tarde e; (c) quanto menos incerto melhor (MADDEN, 2000).
Cada uma das categorias de medidas apresentadas acima apresenta vantagens e desvantagens em seu uso. As medidas mensuram o desempenho a partir de uma perspectiva única, específica a cada empresa. Adicionalmente, nem todas as medidas são capazes de mensurar o desempenho de cada uma das empresas, havendo casos onde medidas são inadequadas à situação particular em questão. Neste sentido, torna-se incumbência de cada pesquisador selecionar um conjunto de medidas que capture a essência do desempenho organizacional, dada a circunstância ambiental do estudo (CARTON; HOFER, 2006, p. 63).
Embora existam desafios significativos no uso de medidas contábeis, elas estão mais prontamente acessíveis aos pesquisadores. Além disso, embora existam variações na forma como os princípios contábeis são aplicados, existe uma base comum para a apresentação dos dados contábeis entre as empresas. Adicionalmente, os demonstrativos financeiros das sociedades anônimas são sujeitos a auditoria independente e são revisados pela comissão de valores mobiliários, que impõe penalidades se houver informações perdidas, ou informações inconsistentes (CARTON; HOFER, 2006, p. 65).
Com base no exposto no parágrafo acima, o presente trabalho realiza a mensuração do desempenho financeiro através de medidas contábeis.
3.1.2 O desempenho financeiro mensurado através de medidas contábeis
Conforme relatado anteriormente, as medidas contábeis de desempenho são aquelas que se baseiam nas informações financeiras reportadas nos demonstrativos da empresa. O quadro a seguir apresenta a freqüência com que as medidas de desempenho foram utilizadas em pesquisas no período de julho de 1996 a junho de 2001, de acordo com Carton; Hofer (2006, p. 83).
Quadro 3 – Resumo de medidas contábeis usadas em estudos empíricos recentes
Medida Freqüência
Lucratividade
Retorno sobre os ativos 52
Retorno sobre o patrimônio 18
Retorno sobre as vendas 18
Lucro líquido 13
Retorno sobre o investimento 9
Crescimento
Taxa de crescimento das vendas 32
Crescimento dos empregados 7
Alavancagem, liquidez e fluxo de caixa
Taxa de crescimento do fluxo de caixa operacional 2 Retorno de fluxo de caixa sobre o patrimônio 1 Retorno de fluxo de caixa sobre os ativos 1
Fonte: Carton; Hofer (2006, p. 83)
• Medidas de lucratividade
As medidas de lucratividade incluem valores e índices que incorporam o resultado líquido ou um componente do resultado líquido, tal como o resultado operacional ou o lucro antes dos impostos. A lucratividade pode ser mensurada através do retorno sobre os ativos, retorno sobre o patrimônio, retorno sobre as vendas, retorno sobre o investimento, lucro líquido, entre outros. É através da geração de lucro que a empresa está apta a oferecer retorno aos provedores de capital próprio, dado que o retorno aos provedores de capital de terceiros se dá através do pagamento de juros sobre dívida.
• Medidas de crescimento
Medidas de crescimento incluem valores e índices que apresentam alguma indicação do crescimento organizacional. O crescimento é conceituado tanto sob uma perspectiva dos recursos quanto das operações da empresa. Medidas típicas de crescimento baseadas na
contabilidade incluem a mudança (percentual ou em termos absolutos) nos ativos totais, ativos operacionais, vendas, despesas totais e despesas operacionais.
• Medidas de alavancagem, liquidez e fluxo de caixa
As medidas de alavancagem, liquidez e fluxo de caixa incluem valores e índices que representam a habilidade da empresa em atender suas obrigações financeiras, bem como oferecer retorno financeiro aos fornecedores de capital. A habilidade em atender às obrigações financeiras pode ser mensurada tanto pelo índice de ativos com liquidez / passivos, como pela habilidade da empresa em gerar fluxo de caixa suficiente para fazer frente às obrigações.
Medidas de alavancagem incluem: índice dívida/patrimônio; índice dívida/ativos totais, entre outros. Medidas de liquidez incluem, mas não se limitam: a capital de giro, liquidez corrente, liquidez seca. Como exemplos de medidas de fluxo de caixa, podemos citar o retorno do fluxo de caixa sobre o patrimônio e o retorno do fluxo de caixa sobre os ativos totais.
No presente trabalho, a medida utilizada para mensuração do desempenho é o Retorno sobre os Ativos (ROA). As principais razões para uso do ROA citadas por autores de estudos recentes, é sua ampla utilização em estudos prévios (AGLE; MITCHELL, 1999; BERMAN; WICKS, 1999; CARTON; HOFER, 2006; MILLER; LEE, 2001).
• Retorno sobre o ativo (ROA)
O ROA é definido pela divisão do lucro operacional pelo ativo total da empresa. Os ativos da empresa utilizados em seu cálculo devem ser apresentados livres da depreciação para que a medida possa expressar a habilidade da empresa para utilizar seus ativos e gerar lucros. O ROA, portanto, se configura como uma medida que quantifica o resultado operacional de uma empresa sem considerar suas receitas e despesas financeiras.
Esse resultado operacional (também conhecido como lucro operacional) refere-se apenas às atividades normais da empresa, excluindo-se o montante de encargos financeiros pagos pela empresa e descontando-se apenas o imposto de renda. Dessa forma produzindo uma linha de corte: acima dessa linha encontram-se os gastos utilizados para operar os negócios (salários, matéria-prima, gastos com serviços etc.); abaixo da linha encontram-se os gastos com a estrutura de capital da empresa: capital próprio e capital de terceiros (MARTIN; PETTY, 2000).
4 VARIÁVEIS DETERMINANTES DO RISCO E DO DESEMPENHO FINANCEIRO