Nas Fase 2 e 3 do estudo, o tema da escola foi evocado a partir de diferentes apelos, ora pedindo aos alunos para ajudarem a resolver o caso hipotético de Marcelo, uma criança que não quer ir para a escola; ora propondo que eles se manifestassem, em um blog, sobre a realidade da vida escolar e, particularmente, sobre os aspectos positivos e negativos da sua escola. Nessas propostas de produção textual, contextualizadas e com objetivos definidos, mas, também, com o desafio de escrever em duplas, trios e quartetos, dividindo o papel ou o computador, os alunos foram levados a se posicionar, confrontar suas ideias e modos de dizer em face do paradoxo escolar: a necessidade de ir à escola e a realidade da vida escolar.
Para favorecer a análise, os quadros a seguir procuram mapear as concepções e os argumentos dos alunos, mostrando, também, os aspectos pouco ou nada evocados em um ou mais grupos. Com base nos propósitos das diferentes situações de escrita, tão importante quanto “o que se diz” é “o que não se diz”.
158 Fase 2 (Situação hipotética) Fase 3 (Blog)
Aspectos positivos Aspectos negativos
Aspectos positivos Aspectos negativos Aprendizagem: Aprender Aprender a ler e escrever Aprender as coisas Estudar Prestar atenção Aspectos lúdicos e sociais: Brinquedos e brincadeiras
Brincar com os amigos
Conquistas Objetivas:
Ir para a faculdade Ler para os outros Passar de ano Condição pessoal: Ser adulto Ser bom Ganhos extras: Ganhar leite Aprendizagem: Fazer lição Aspectos lúdicos e sociais: Brinquedos e brincadeiras Avaliação Global: Escola legal
159 Fase 2 (Situação hipotética) Fase 3 (Blog)
Aspectos positivos Aspectos Negativos Aspectos positivos Aspectos Negativos Aprendizagem: Aprender Aprender a ler e escrever Aprender mais Conhecer coisas Aprender a estudar Condição pessoal:
Ser alguém/ uma pessoa na vida Ficar esperto Ficar inteligente
Ganhos extras:
Contar para a mãe o que aprendeu de novo
Possibilidade de superar
dificuldades:
Contar para a mãe os problemas Chamar a diretora
Comportamentos e relações:
Pessoas que xingam Pessoas que jogam papéis nos outros Acontecem coisas que precisam ser contadas para os pais ou para a diretora
Professora que deixa de castigo Aprendizagem: Aprender a ler e escrever Condição pessoal: Ser esperto Aspectos lúdicos e sociais: Brincar Tomar lanche com os colegas Jogar na quadra Condições físicas: Banheiro sujo Privada entupida Não tem papel higiênico Falta palco e corrimão
Comportamentos e relações:
Meninos que jogam papel na privada Crianças que desobedecem a professora
Crianças que gastam lápis e borracha Tem muita briga Alunos que pegam o lanche dos outros Crianças que bagunçam
Pessoas que chutam a porta do banheiro Pessoas que
empurram os colegas Guerra de copos
160 Fase 2 (Situação hipotética) Fase 3 (Blog)
Aspectos positivos Aspectos negativos Aspectos positivos Aspectos Negativos Aprendizagem: Aprender Aprender a ler e escrever Aprender a fazer continhas Aprender muitas coisas Aprender sobre as matérias Fazer as atividades Aspectos lúdicos e sociais: Fazer amizades Conhecer gente nova Brincar Conquistas objetivas: Emprego melhor Ter uma profissão boa
Faculdade
Condição pessoal:
Ser alguém na vida Futuro melhor Ficar inteligente Não ficar burro
Avaliação global:
A escola ajuda muito
A escola é importante
Melhor do que ficar em casa Aprendizagem: Informática Educação Física Aula livre Condições físicas: Comida ruim Banheiro sujo
Banheiro sem papel higiênico Banheiro precisa reformar Portas quebradas
Goteiras
Comida com sujeira Escola pichada
Parque inunda quando chove
Comportamentos e relações:
Pessoas mal educadas Pessoas que jogam lixo no chão
Tem muita briga
Os professores não deixa ir ao banheiro
Guerra de bolinha de papel e de casca de fruta
Jogar casca de banana no chão para os outros escorregarem Funcionários que xingam Funcionários que seguram forte pelo braço
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A análise comparativa dessas produções (o confronto dos conteúdos nos diferentes grupos e nas diferentes situações de escrita) revela tendências bastante significativas. De um modo geral, quando o objetivo é convencer alguém a ir para a escola (Fase 2), prevalece, em todos os grupos, a evocação de aspectos positivos, mais uma vez, com forte ênfase no critério de aprendizagem. Com menor intensidade, aparecem, também, categorias situadas entre dois extremos, aquelas vinculadas a um futuro distante, como as “Conquistas objetivas” (como emprego e curso superior) ou a garantia de “Condição pessoal ou social” (como ser inteligente e ter futuro melhor), e aquelas categorias mais significativas ao público infantil: brinquedos e brincadeiras (bola, carrinho, gangorra e pega-pega) que, na progressão da faixa etária, vão dando mais espaço para a dimensão mais social (brincar com amigos e conhecer pessoas novas).
À essa configuração que, do ponto de vista do conteúdo, confirma as categorias e os argumentos evocados nas Fases 1 e 5 da pesquisa, surgem três novas categorias, que marcam uma mudança de postura e de abordagem em face dos propósitos do texto solicitado: para as crianças dos 1º e 3º anos, “Ganhos extras”; para os alunos do 3º ano, “Possibilidade de superar dificuldades”; e, para o grupo de 5º ano, “Avaliação global”. Em comum, elas figuram como estratégias de convencimento forjadas a partir de diferentes pontos de vista, conforme se pode observar pelos respectivos exemplos a seguir:
1º) “Ganhos extras”:
MASELO
PUZA MOSO VPRAI ESOLA MACELO VENAPARE ESCOLA NÃO EPOSINÃO PROSINÃ OLEIT [Marcelo,
Puxa, Marcelo, vá para a escola. Marcelo, venha para a escola.
Não é possível, se não perde o seu leite] (LUISA e HUGO, 1º ano, Fase 2)
2º) “Possibilidade de superar dificuldades”:
[...] QUANDO VOCÊ NÃO QUISER IR A ESCOLA FALA PRA SUA MÃE QUE TEM GENTE TE CHINGANDO.
[...] CE ACON TECER AUGUMA COISA NO CEU 1 DIA DE AULA COTA PARA SEUS PAIS.
162 CE OS CRANDE JOGAR JOGAR PAPEU NE VOCÊ E A PROFESSORA VER E DEIXAR VOCÊ DE CASTIGO FALA A VERDADE.
SE VOCÊ NÃO GOSTAR DORECREIO FALA PARA DIRETORA
(ADRIANA e BEATRIZ, 3º ano, Fase 2)
3º) “Avaliação global”:
POR QUE FICA EM CASA NÃO VAI AJUDAR NE NADA NA ESCOLA VOCÊ PODE APRENDER MUITA COISAS, FAZE AMIZADE E ATIVIDADE
A ESCOLA AJUDA MUITO, (KARINA e DANIEL, 5º ano, Fase 2)
No primeiro texto, os alunos fazem referência ao programa “Leve leite” da Secretaria Municipal de Educação, que entrega, aos alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, 2 kg de leite por mês38. Considerando que, nas produções antes analisadas (Fases 1 e 5), as crianças em questão justificaram o papel da escola apenas para objetivos a longo prazo (“para saber ler quando crescer”), é possível que, para atenderem ao apelo da Fase 2, eles estivessem buscando uma razão para justificar a imediata ida à escola. O argumento de receber algo em troca, no caso, estranho aos interesses tipicamente infantis, parece refletir discursos familiares, buscando evidenciar uma vantagem objetiva para convencer Marcelo.
O 2º exemplo é particularmente interessante porque Adriana e Beatriz partiram da suposição sobre os motivos que afastaram Marcelo da escola para sugerir encaminhamentos. Pela lógica dessa estratégia, pressupor aspectos negativos da escola justifica a opção por dizer como eles podem ser enfrentados com medidas objetivas. As situações de agressão entre os alunos, os sentimento de injustiça e de falta de proteção (no texto, resumidos em algumas linhas) foram trazidos em comum acordo a partir de uma ampla discussão entre as meninas, conforme atesta o registro do seguinte diálogo39:
T20 A: Eu sei por que ele não vai pra escola. Porque ele tem medo das
38 Programa Leve Leite
http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/Projetos/sitemerenda/Anonimo/Leveleite/LeveLeite.aspx?MenuID=2 10&MenuIDAberto=58. Acesso em 6/5/2014.
39
Transcrição parcial do vídeo com o registro da situação de produção textual correspondente. Para fins de organização, transcrevo apenas os turnos do diálogo (indicados com a letra T) referentes ao ponto em questão. As falas das alunas, Adriana e Beatriz, e da pesquisadora estão, respectivamente, representadas pelas letras A, B e P.
163 pessoa, tem medo de xingar ele, ficar zuando.
T21 B: É, eu tive isso no primeiro dia de aula e todo mundo fico me xingando. Aí, eu não queria ir.
T22 P: Será que dá pra escrever alguma coisa sobre isso? [Sinal afirmativo de A e B]
T23 A para B: Escreve que se ele não quise ir pra escola, é só ele fala pra mãe dele que tem gente zuando ele.
T27 B: Aconteceu, muitas vezes, comigo. T28 P: Muitas vezes?
T29 B: Muitas. Primeiro dia de aula.
T30 P: Uhum... E você falou com a sua mãe? T31 B: Eu falei com a minha mãe.
T33 P: Você acha que esse pode ser o problema do Marcelo? T34 B: Pode. [A concorda com a cabeça].
T35 B: Acontece muitas vezes... aconteceu quando foi o primeiro dia dela. [Aponta para A com o lápis]. Eu, no primeiro dia, estudava de manhã. (...) a maioria morava perto da minha casa e ninguém ficava me xingando.
T36 A: Em compensação, os meninos da tarde ficava xingando e batendo.
T37 B: Quando eu fui pra tarde, umas menina ficava me batendo, me xingando. Aí, eu parei de ir pra escola, aí...
T38 A: Elas sentiram saudade da B.
T39 B: Aí... Quando elas sentiram minha falta, eu fui pra escola sem elas sabê, porque elas já tinham saído.
T47 P: Mais alguma coisa?
T49 B: A gente também podia coloca uma coisa que aconteceu MUITAS vezes. Teve um aluno da sala dela, que bateu na professora. E eles bate em todos os alunos de todas as série.
T57 B: É, eu vou colocar também que também teve uma vez que, tem muita vez que acontece com muito aluno da escola. No primeiro dia de tarde, eu não gostei. De manhã, eu acordava cedo, me arrumava, tomava banho, ia, descia e pegava a perua. Só à tarde todo mundo me xingava, a diretora via, num falava nada. Até que um dia eu falei pra minha mãe. Minha mãe foi lá reclamou com a diretora. A diretora tomo a decisão de, na hora do recreio, eu i pra lá fica na sala dela.
T58 A: Eu via todo mundo xinga a B. Ficava olhando e contava pra diretora.
T67 P: Muito bom, tá ótimo. Muito bem. Pronto? Mais alguma coisa? T68 A: Não. Acho que não.
T69 B: Deixa eu ver... Eu vou colocar que, se acontece alguma coisa no primeiro dia de aula, que ele sempre tem que contar pros pais dele. T70 P para A: Você concorda com isso? [A faz sinal de positivo com a cabeça].
T72 B: No primeiro dia de tarde. É que eu estudava de manhã. T73 A: Mas a diretora não fazia nada.
T74 P: Ah tá, se no primeiro dia acontecer alguma coisa, sempre contar pros pais. [As meninas conversam sobre o como escrever e, em seguida, A escreve].
T75 A e B leem: “SE OS ME-NI-NOS JO-GA PA-PEL EM VO-CÊ E A PRO-FE-SSO-RA DEI-XÁ VO-CÊ DE CAS-TI-GO, FA-LA A VER- DADE.”
T76 A: Ah, e se ele não gosta muito do recreio, porque tem alguém xingando ele, é só ele fala pra diretora.
164 T78 P: Aconteceu com você muitas vezes?
T79 B: Já aconteceu comigo e com a A, a gente tava lá no recreio, quando a gente veio pro terceiro ano, eles sempre ficava brigando com a gente, xingando a gente.
T80 A: No primeiro ano, eles fazia assim: “olha o passarinho!” E batia na gente.
T81 B: Batia na gente.
O episódio é muito rico porque ilustra, com detalhes, fatores inerentes à complexa construção dos vínculos com a escola: a conveniência de entrar em um grupo já conhecido (os colegas que moravam perto e por isso não xingavam); o gosto em saber que alguns colegas podem sentir saudade; a dificuldade de ser aceito por um grupo desconhecido; a necessidade de chamar a atenção de educadores que se omitem diante da agressão; a conveniência de apelar para alguém superior (a diretora) ou de pressioná- lo pela reclamação dos pais; o satisfação de poder contar com o apoio da família; a validade de se explicar (falando a verdade) para uma professora que toma decisões injustas; a importância de garantir estratégias para se defender, seja pela repressão aos colegas, seja pelo isolamento na sala da diretora. Baseadas nas próprias experiências pessoais, as alunas buscam, nos episódios da vida escolar, nos sentimentos pessoais e nas formas de conduta já testadas, a força de um argumento que se concretiza no papel, tecendo uma cumplicidade com outra criança (no caso, Marcelo) que supostamente esteja vivendo o mesmo problema.
O 3º exemplo mostra que, para reforçar os típicos argumentos pró escola (aprender e ter amigos), os alunos lançam mão de considerações mais genéricas em uma perspectiva positiva (a escola ajuda muito) ou em confronto com a alternativa de não ir à escola (é melhor ir do que ficar em casa). Essas ideias ficam evidentes já na primeira sugestão de Daniel, no momento da produção escrita40, e acabam se incorporando à produção:
T1 P: O que vocês podem dizer aí?
T2 Daniel: Dizê que a escola é bom, que em casa você não vai tê amigo pra brincá. Na escola, aí, você tem os seus amigos, os colega, faz atividade, aprende mais. É, várias coisa.
Tais argumentos, sobretudo em um momento em que os alunos percebem claramente a deficiência escolar, funcionam como um balanço que, ao final das contas,
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pesa em favor da escola. Assim, se é o caso de convencer alguém, eles podem até omitir os aspectos negativos para evocar o consenso de que é preciso ir à escola.
A tipologia dos argumentos aqui ilustrados corrobora tendências apresentadas em outras pesquisas realizadas com crianças da escola pública do Ensino Fundamental I (COLELLO, 1997, 2001; TEIXEIRA, 2008, 2011). Teixeira explica que a progressão da vida escolar tem fases que são vividas pelos alunos com maior ou menor intensidade. Ao ingressar no Ensino Fundamental, as expectativas de cursar “uma escola de verdade” e a vontade de “fazer dar certo a sua experiência como aluno” fazem com que a criança negue algumas dificuldades ou que tenha mais tolerância com os problemas vividos. Nas palavras da autora (TEIXEIRA, 2011, p. 98),
Chama a atenção a maneira contraditória como a maioria das crianças falou de modo positivo sobre as atividades escolares, apesar da falta de sinais de um vínculo direto com a língua escrita como objeto de conhecimento na escola. Esse paradoxo pode ser mais bem compreendido ao se considerar que as crianças valorizam muito o ingresso no EF. De fato, nesse rito de passagem, o acesso à “escola dos maiores” representa uma conquista de outros espaços, novas responsabilidades e conhecimentos socialmente reconhecidos.
[...] o ingresso no EF parece reunir condições especialmente favoráveis para que a criança desenvolva vínculos positivos com a escola, o que nem sempre tem sido bem aproveitado pelos educadores. Infelizmente.
Nos anos seguintes (2º e 3º anos), os alunos se mostram mais críticos com relação à vida escolar, percebendo-a de modo multifacetado (as preferências nas amizades, as facilidades ou dificuldades em campos do conhecimento, as atividades mais agradáveis ou mais cansativas, os fatores negativos etc.), razão pela qual conseguem confrontar aspectos negativos e positivos.Finalmente, a partir do 4º ano, os alunos já são capazes de avaliações mais globais e deixam transparecer considerações amplas, mostrando um progressivo processo de desencanto: a escola necessária que não atende aos interesses mais imediatos, a escola real distante da escola desejável (COLELLO, 1997, 2001).
Os efeitos dessa progressão aparecem de modo mais evidente nas produções da