1 Innledning
1.2 Omfang i Norge
“ […] Eles ficaram como homens pasmados, parecendo um sonho verem assim uma nau em que havia pouco iam navegando, tão carregada de riquezas e louçainhas que quase não tinha estimação, (…) submergida debaixo das águas, entesourando nas concavidades do mar tantas cousas.” (Afonso, 1998, p. 15).
Os vestígios arqueológicos18 de uma embarcação de inícios do século XVII, encontrados ao largo de São Julião da Barra, pertencentes aos destroços da presumível nau Nossa Senhora dos Mártires, para além de atestarem a importância das cargas transportadas abordo das embarcações e o potencial da carreira percorrida até ao porto de Lisboa, são também relevantes para aprofundar o estudo da arquitectura naval sobre a história marítima da região, durante o apogeu que foi a expansão das navegações portuguesas (Castro, 2000b, p. 477-495).
Como anteriormente foi referido minuciosas técnicas de intervenção no terreno – desde o levantamento da área de escavação, marcação do terreno, recuperação e registo das peças encontradas –, possibilitaram trazer à superfície um legado significativo e bastante diversificado de artefactos.
O casco do navio fragmentado, depositado no sentido norte/sul, corresponde à posição da quilha e do tabuado do forro exterior no sentido longitudinal relativamente ao Forte de S. Julião. Este encontrava-se protegido num patamar do esporão rochoso que se elevava em degraus em direcção ao penedo sobre o qual se implanta a fortaleza (Fig. 15). Embora segmentada a estrutura do navio apresenta-se assimétrica e descentralizada relativamente ao eixo da quilha, pela sua parte Este ser consideravelmente maior que o lado Oeste. Assim, o fundo do casco é composto do lado Oeste por 11 fiadas de tábuas e do lado Este por 19, assentes sobre o fundo de onde se destacam 11 imponentes cavernas, sendo que cerca de 9 se encontram do ponto de vista arquitectónico integralmente preservadas19. A par dos padrões arquitecturais da época, e tendo em conta os dispositivos normativos das obras clássicas de referência, esta descoberta indicia tratar-se de uma nau de finais do século XVI e inícios do século XVII, a começar pela tipologia de madeiras utilizadas como o sobro para partes como o cavername, quilha, cavernas, braços; e pinheiro manso para a edificação do tabuado. Trata-se uma nau com cerca de 18
18 Deverão ser inúmeros os vestígios e destroços de embarcações tanto nesta região como ao longo de toda
a costa de Portugal Continental.
19 O estudo do casco foi tema de Mestrado realizado por Filipe Castro e engloba a análise da secção da
rumos de quilha (equivalente a cerca de 27,72m) o que corresponde à medida padrão de uma nau da carreira da Índia nessa época (Alves [et. al], 1998, p. 212).
Figura 15: Perfil do vestígio do casco e do seu enquadramento envolvente – afloramento
rochoso. Catálogo Nossa Senhora dos Mártires – a última viagem (Alves [et. al], 1998, p. 201).
À semelhança do conjunto de peças arquitecturais do navio, também os inúmeros objectos, possivelmente pertencentes à sua carga se encontravam em muito bom estado de conservação. Entre este espólio avultavam magníficas porcelanas (dinastia Ming – reinado Wanli) e cerâmicas chinesas (martaban, tradescant, outras produções chinesas e tailandesas e uma jarra Tsubo), peças preciosas de ourivesaria (um par de brincos indo- portugueses em forma de meia lua com cabeças de sátiro estilizadas numa mistura de ouro com aljôfar) (Fig. 16), um tsuba japonês (Fig. 17), peças de artilharia (canhões, balas de ferro e chumbo, pelouros de pedra e ferro), instrumentos de navegação – compassos de cartear (Fig. 18) e astrolábios, um dos quais em perfeito estado de conservação cuja data 1605 se encontra cravada (Fig. 19), uma âncora, inúmeros objectos de uso quotidiano (cabeças de prego e ferragens de várias dimensões, conjunto de pratos e pratéis em liga de estanho, uma colher de prata, tampa de panela em liga de cobre com incrustações de pimenta, três panelas em liga de cobre, parte superior de um martelo em liga de cobre, jogos de pesos e medidas em liga de cobre, dois almofarizes de farmácia em liga de cobre, oito pilões de almofarizes em liga de cobre, três peças de damas e uma de xadrez em osso ou marfim e um peão em marfim indiano), finalmente, quilos de pimenta (Fig. 20) alojada no areal do fundo junto e por entre as diversas peças que compõem o navio.
O espólio em referência20, é passível de constituir um bom contributo para o conhecimento das produções orientais e do comércio da Carreira da Índia nas centúrias de quinhentos e seiscentos, assim como compreender a importância da cidade de Lisboa, num período decisivo da expansão marítima portuguesa.
Figuras 16 e 17: Apresentam um pormenor de um par de brincos indo-portugueses e um tsuba
japonês e que integraram a exposição do Pavilhão de Portugal – Expo’98. Imagem cedida pela Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática do IGESPAR, I.P.
Figura 18: Dois compassos de cartear recuperados do sítio de
São Julião da Barra e que integraram a exposição do Pavilhão de Portugal – Expo’98. Imagem cedida pela Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática do IGESPAR, I.P.
20Acerca dos achados recuperados desde 1996-1998 ver o catálago realizado por Sara R. Brigadier &
Figura 19: Astrolábios encontrados em São Julião da Barra e que integraram a
exposição do Pavilhão de Portugal – Expo’98. Imagem cedida pela Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática do IGESPAR, I.P.
Figura 20: Pormenor do volume de pimenta
recuperado do sítio arqueológico de São Julião da Barra e que integrou a exposição do Pavilhão de Portugal – Expo’98. Imagem cedida pela Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática do IGESPAR, I.P.