I.4.1. Metodologia adoptada para o estudo do espólio e
classificação morfológica das cerâmicas
“Em três tempos divide-se a vida: em presente, passado e futuro. Destes, o presente é brevíssimo; o futuro, duvidoso; o passado, certo (…)” Séneca (França, 1998).
O espólio cerâmico constitui uma percentagem significativa dos despojos encontrados no sítio de São Julião da Barra. O presente estudo refere-se somente à análise do núcleo de cerâmicas, constituído por 240 peças, que se traduzem em 139 exemplares de cerâmica oriental (entre os quais potes martaban, tradescent, Tai, Tsubo e outras produções chinesas) e 101 peças de porcelana chinesa, ambos os conjuntos enquadráveis entre os séculos XVI e XVII.
Procedemos ao inventário21 da totalidade das peças, triagem e limpeza de alguns fragmentos22, catálogo23, fotografia e desenho dos exemplares mais significativos que poderão fornecer alguma informação coeva do ponto de vista histórico e arqueológico.
No que respeita à inventariação do núcleo de materiais, foram consideradas as peças recolhidas durante todas as intervenções24. No entanto, à excepção de algumas peças, recuperadas desde 1999 até 2005, a grande maioria do espólio cerâmico foi recolhido durante as intervenções arqueológicas realizadas entre 1996-1998, e enquadrou a exposição do Pavilhão de Portugal EXPO’98.
Procurámos estudar a totalidade das cerâmicas recuperadas nas diferentes camadas, debruçando-nos mais pormenorizadamente sobre os exemplares que se encontram mais completos ou que considerámos mais expressivos de cada um dos sectores de escavação25. Deste modo, de uma amostragem de 240 peças, para o núcleo central do presente estudo, elegemos cerca de 44 exemplares. Saliente-se que o método
21 Ver Apêndice A – Inventário do espólio.
22 A limpeza das peças foi realizada pelo Conservador-Restaurador da Divisão de Arqueologia Náutica e
Subaquática, Dr. João Coelho e Pedro Gonçalves.
23 Ver Apêndice B – Catálogo do espólio.
24 Sobre as diversas intervenções ocorridas no sítio de São Julião da Barra ver o capítulo I referente aos
Trabalhos arqueológicos e, em particular, Descoberta e metodologias de intervenção no terreno.
de eleição foi baseado, sobretudo, no facto de possuirmos várias repetições das mesmas formas.
É nosso objectivo que a realidade dos testemunhos arqueológicos em estudo possibilite o estabelecimento de paralelos culturais. Foram considerados como elementos fundamentais a organização do núcleo segundo agrupamentos de características tecnológicas (potes orientais e porcelana), a organização por formas e tipologias, tendo em consideração os elementos decorativos que as ornamentam, bem como a constituição das pastas. Assim sendo, o estudo quantitativo, ou seja, análise estatística e gráfica26, foi realizado tendo em conta a composição formal, tipológica, cores das pastas e decoração que compõem os exemplares em estudo.
Para a elaboração do catálogo foi criada uma base de dados, em Microsoft Access®, tendo como descritores fundamentais o número de inventário (composto pela a
abreviatura SJB – São Julião da Barra – seguida do número da peças ou então o número de Carta Nacional de Sítio), matéria-prima com que as peças foram fabricadas, grupo tipológico, descrição do artefacto (onde referimos a feição do bordo, fundo e bojo), elementos não plásticos que compõem cada exemplar, tonalidade da pasta, tratamento das superfícies, tipologia de decoração, ano de recolha, dimensões (diâmetros do bordo e base, comprimento, altura, espessura das paredes e peso) e, finalmente, um campo de observações (onde constam informações relacionadas com o grau de conservação das peças).
Outro factor determinante para o presente estudo foi a execução do desenho acompanhado de fotografia, indispensável para uma boa leitura dos artefactos e, sobretudo, para uma melhor percepção esquemática do formato e tipologia de decoração das peças27.
Na verdade, a elaboração de uma tipologia, a interpretação funcional das formas, assim como o estabelecimento de uma nomenclatura ou terminologia são outra das etapas fundamentais, principalmente, no que respeita a análise da evolução do lugar da cerâmica no quotidiano de cada época (Real [et. al], 1995, p. 176).
26 Sempre que se considerou necessário incluímos a análise estatística e gráfica foi inserida no meio do
texto para fundamentar o estudo das cerâmicas.
27Adaptação do modelo utilizado por Duncan H. Brown e Celia Curnow, (Brown e Curnow, 2004, p. 29-
No que respeita aos paralelos assinalados para o conjunto estudado, considerámos sobretudo os aspectos formais das peças que integram estratigrafias de interesse reconhecido, que proporcionem informações concretas do ponto de vista cultural, científico e cronológico (Gomes, 2000, p.34).
I.4.2. Classificação dos vários grupos de peças
Na elaboração de uma tipologia temos que ter em linha de conta critérios morfológicos e/ou funcionais. Na presente tipologia as peças foram divididas em dois grandes grupos, definidos de acordo com a sua análise funcional, considerando a relação que possivelmente existiria entre o aspecto formal dos artefactos e a função a que se destinariam. Significa que a forma de um determinado artefacto é definida pela utilização a que se destina e função, pelas técnicas e processos de fabrico e até pela tradição das formas de objectos anteriormente existentes.
Para além do critério funcional de cada objecto considerámos também a configuração tipológica analisada a partir de caracteres morfológicos. Deste modo, para a referida configuração tipológica, e porque possuem características próprias, analisámos separadamente as diversas partes componentes de uma peça de cerâmica, nomeadamente, a forma do corpo, bases, asas, bordos e lábios.
Deste modo, são descritas 2 duas tipologias de peças os potes orientais e porcelanas chinesas.
I.4.2.1. Potes orientais
Considerados como loiça de armazenamento, estes potes eram utilizados para conter, armazenar, conservar líquidos e sólidos, constituindo a forma de acondicionamento apropriada para o transporte de mercadorias delicadas e preciosas a bordo das embarcações, podendo alguns ter uma função meramente decorativa.
Estes potes dividem-se quatro categorias distintas definidas da seguinte forma: Grupo I – Potes do tipo martaban; Grupo II – Potes do tipo tradescant: Grupo III – Outras produções chinesas; Grupo IV – Pote Tailandês (também designado Tai stoneware jars) e Grupo IV – Pote do tipo Tsubo.
I.4.2.2. Porcelana
Os exemplares de porcelana branca com decoração em azul-cobalto sobre o vidrado são compostas por pratos, taças, copos (recipientes abertos), potes e garrafas (recipientes fechados).
Este núcleo divide-se em três grupos distintos definidos do seguinte modo: Grupo I – Porcelana branca decorada a azul-cobalto sobre o vidrado; Grupo II – Kraak-porselein e Grupo III – Porcelanas do tipo Swatow.
A cerâmica foi desde sempre uma das demonstrações do talento humano que mais tem chamado a atenção e curiosidade do Homem. Todo o ambiente que envolve o fabrico da cerâmica espelha o carácter da comunidade que a trabalha e indica todo um conjunto de influências resultante do meio em foram criadas.
Sem dúvida que o espólio que se encontra em maior quantidade nas escavações arqueológicas são materiais de cerâmica, sobretudo devido à sua resistência à deterioração causada por factores climáticos e temporais, mas também por ela estar intrinsecamente ligada ao quotidiano de todas as comunidades e camadas sociais ao longo dos séculos. De facto, através da ceramologia, torna-se possível determinar níveis culturais e cronologias rigorosas, relativamente aos nossos antepassados.
O conjunto de cerâmicas em estudo, as porcelanas chinesas e a restante cerâmica oriental, possivelmente, provenientes das oficinas chinesas e das fábricas do Sudeste Asiático, teriam como destino último o porto da cidade de Lisboa, centro consumidor e distribuidor de todas as outras mercadorias raras que afloravam dos mercados do Oriente. A aquisição de cerâmica, tradição mantida ao longo dos séculos, foi uma constante na cidade. Toda a região de Lisboa por se localizar estrategicamente à beira mar, através da navegação marítima e fluvial desempenhou para a sua população um singular e privilegiado meio de contacto e, entre inúmeras outras funções, seria receptora e distribuidora de produtos de cerâmica, que vinham dos mais recônditos centros de produção.
Assim sendo, maioritariamente composto por artefactos de cerâmica, fragmentados, parcialmente fragmentados e peças inteiras, o conjunto mais significativo do
ESPÓLIO CERÂMICO EM ESTUDO
Porcelana Chinesa 42% Cerâmica Or ient al
58%
Por celana Chinesa Cerâmica Or ient al
sítio arqueológico de São Julião da Barra, oferece distintas categorias funcionais, bem como diferentes padrões de produção. De um total de 239 peças, enquadráveis nos séculos XVI e XVII, para a análise tipológica e formal seleccionámos os exemplares mais significativos e que se encontravam em melhor estado de conservação das seguintes formas: pratos, taças, garrafas, potes e jarras provenientes dos ateliers da região Sul da China e do Sudeste Asiático28.
TOTALIDADE DO ESPÓLIO CERÂMICO RECUPERADO EM SÃO JULIÃO DA BARRA
Cer âmi ca 77% Por cel ana
23%
Cer âmi ca Por cel ana
Gráfico I: Total da cerâmica recuperada no sítio de São Julião da
Barra.
Gráfico II: Total do espólio cerâmico em estudo.
28 Ver Apêndice A referente ao inventário geral do espólio cerâmico recuperado no sítio de São Julião da