filosófico, em que se aborda a origem do trabalho vinculada à sua definição e à possibilidade de sua transformação ou de seu desaparecimento. As representações sociais do trabalho aplicadas ao primeiro fragmento estão delimitadas por esse campo semântico. Entretanto, como dito anteriormente, a representação social é construída pelo escrevente na interação com seu outro, num jogo de posições sociais determinadas pelas condições de produção e, nesse sentido, não há limites para essa construção.
Há três tipos predominantes de representações sociais vinculadas ao primeiro fragmento. Uma, que responde a ele, afirmando que o trabalho não vai acabar, correspondendo a um PDVD. Outra, com um caráter mais conceitual, definindo o que é trabalho. Vale salientar que esse tom conceitual é recorrente em várias redações, mas, no que se refere ao primeiro fragmento, não constitui um PDVD (diferentemente do que ocorre com o segundo fragmento). Outra representação depreendida é a relacionada à origem do trabalho, mas que igualmente não constitui um PDVD. Há, assim, três representações sociais de trabalho mais salientes escolhidas para análise.
Nos exemplos [38] e [39], os enunciadores afirmam que o trabalho não deve acabar:
[38]:
4º § Dificilmente o trabalho deixará de existir pois de uma forma ou de outra estamos sempre praticando-o tanto para o nosso bem profissional ou pessoal, ele ajuda a nos sentirmos completos, mais úteis (R010).
[39]:
5º § A extinção do trabalho seria um acontecimento que traria grande pavor e miséria aos povos (R157).
Verifica-se, nos exemplos acima, que o escrevente afirma e justifica o motivo pelo qual o trabalho não deve acabar. Como réplica ao enunciado do primeiro fragmento, ele responde por meio das modalizações e adjetivações. A qualificação dada ao trabalho é axiologizada com valores eufóricos – “ajuda a nos sentirmos completos, mais úteis” [38] – e quando disfóricos, como em “grande pavor e miséria” [39], é igualmente para fortalecer o posicionamento do escrevente, o de que o trabalho não vai acabar, porque é “parte fundamental do homem”. Desse modo, as representações sociais vinculadas ao PDV de que o trabalho não vai acabar são: o trabalho não acaba porque é importante, porque é fundamental para a humanidade, porque ele ajuda a nos sentirmos completos e mais úteis, etc. Essas representações, com mesmo campo semântico, mostram de que lugar o escrevente fala e se posiciona, explicitando sua visão de mundo: trata-se de um PDV que defende o trabalho, valorizando-o e desvelando a ideologia que está por trás dessa apreciação: a conformação com o sistema capitalista.
Em outra ocorrência desse diálogo, exemplo [40], o enunciador afirma que o trabalho deve acabar:
[40]:
5º § Em síntese, o fim do trabalho seria muito bom, pois os seres humanos aproveitariam mais suas vidas e ocupariam seus cérebros em atividades mais saudáveis (R235).
No exemplo [40], está em cena um enunciador que tenta persuadir seu leitor de que o fim do trabalho é um benefício, para que os seres humanos possam aproveitar a vida, ocupando suas mentes com atividades saudáveis. Ao utilizar-se do intensificador mais em “ocupariam seus cérebros com atividades mais
saudáveis”, o enunciador está se opondo à qualificação do trabalho como atividade não saudável. Assim, não sendo boa para os seres humanos, o enunciador sugere o fim dessa atividade. O benefício do fim do trabalho é destacado na adjetivação com intensificador “muito” em “muito bom”. Mas, por outro lado, o escrevente levanta uma hipótese, uma possibilidade, apenas, porque não afirma categoricamente esse posicionamento ao fazer uso do futuro do pretérito: “o fim do trabalho seria muito bom”. A representação social aqui depreendida é a de que o fim do trabalho seria bom porque ele é uma atividade ruim, não é saudável, mas isso não está concretizado. Apesar de esse desejo não estar concretizado, essa representação denuncia o trabalho como não saudável aos seres humanos.
O recurso da definição é frequente em redações de vestibular, de modo geral. Esse recurso, na totalidade do corpus analisado, é bastante recorrente, principalmente no primeiro parágrafo das redações. Sabe-se que a definição pode funcionar como um recurso para a entrada no tema, mas vejo essa recorrência como réplicas ao enunciado do primeiro fragmento, em que algumas são mais salientes e nem o parafraseiam, como em: “O trabalho é uma invenção histórica” (R150); outras, menos salientes, “é uma ‘invenção’ do homem” (R165). Outras tentam, ainda, distanciar-se ainda mais, como em “O trabalho é a personificação da história da humanidade” (R216).
O diálogo entre a coletânea e os enunciados das redações evidencia o modo como o escrevente compreende e lê esses enunciados. O diálogo revela que nesse modo de compreensão há uma apropriação de valores, os mesmos do primeiro fragmento. A representação social depreendida desse diálogo é a de que o trabalho é uma invenção histórica e, neste caminho, o escrevente solidariza-se com um PDV da coletânea, assumindo-o para si.
As retomadas da segunda parte do primeiro fragmento: “[...] Ele é uma invenção histórica [...]” foram, de certa maneira, mais frequentes devido, talvez, à sua estrutura ser composta por uma afirmação, o que facilitou a leitura e interpretação do que possa ser histórico e inventado, uma vez que são termos bem conhecidos dos escreventes. Já na primeira parte, ocorre o inverso. O trecho “O trabalho não é uma essência atemporal do homem [...]” tem um caráter mais filosófico, em função dos termos “essência” e “atemporal”. Além disso, ele é formado por duas negações “não é uma essência” e “atemporal”, dificultando, talvez, a
compreensão, e aumentando o campo de deslizamento na interpretação. As paráfrases foram menos constantes, a não ser pelo uso do termo “essência”, que deslizou para o tratamento dado ao trabalho e, principalmente, ao trabalho de arte.
O tom conceitual constituído pela negação, isto é, dizer o que não é, manteve-se nas paráfrases, ocorrendo apenas a variação verbal:
[41]:
Mesmo não sendo uma essência atemporal do homem. [...] O motivo é essa relação homem trabalho, o bem material sem uso definido, [...] (R042).
No exemplo [41], o enunciado é introduzido sem marcas do discurso do outro. Nesse caso, o escrevente assume o que o enunciador do fragmento enuncia, sem informar que se trata do discurso do outro, tentando distanciar-se do enunciado de origem, apagando as marcas do outro, para assumir o enunciado como seu. Já no exemplo [42], o escrevente põe em cena um enunciador, o mesmo da coletânea, introduzido por meio do discurso relatado, informando fonte e responsabilidade pelo que é enunciado:
[42]:
1º § Segundo A. Simões, "o trabalho não é uma essência atemporal do homem. Ele é uma invenção histórica e, como tal, pode ser transformado e mesmo desaparecer". Trabalhar é uma necessidade gerada de acordo com o momento.
(R207, grifos meus).
Nessa mesma redação (R207), a retomada é usada não tanto por seu conteúdo semântico, isto é, pela equivalência de sentido, mas como ponto de partida para o escrevente construir sua argumentação na sequência do texto, ou seja, funcionando como recorte. O escrevente assume o mesmo PDV da coletânea, solidariza-se com ele, mas a representação social do trabalho depreendida não é a que faz referência a essa paráfrase, mas à qualificação do trabalho, constituída na sequência da paráfrase, exemplo [43]:
[43]:
1º § Segundo A. Simões, "o trabalho não é uma essência atemporal do homem. Ele é uma invenção histórica e, como tal, pode ser transformado e mesmo desaparecer". Trabalhar é uma necessidade gerada de acordo com o momento.
3º § Durante o decorrer dos anos, as formas de trabalho foram sendo modificadas, visando a uma maior produção em um menor espaço de tempo, o que pôde ser verificado através das Revoluções Industriais [...] (R207).
O escrevente constrói uma representação social do trabalho, ancorada temporalmente e vinculada ao histórico, ou seja, em cada época, o trabalho é visto de um modo. As retomadas, de modo geral, não foram ampliadas como aquelas que trataram da invenção histórica do trabalho. Elas se restringiram ao discurso relatado, para, pelo menos, ficar explícito no texto o solicitado na instrução da prova, isto é, relacionar o desenvolvimento temático com os textos da coletânea.
Ocorrem outras retomadas discursivas desse mesmo trecho do primeiro fragmento, mas de maneiras diferentes. A retomada é posta para contrariar o PDV do enunciado de origem:
[44]:
Ao contrário do que afirma A. Simões, o trabalho é, sim, uma “essência atemporal do homem”. Observa-se que o ser- humano, em seu estado primitivo, já trabalhava: caçava, protegia seus descendentes e a si mesmo. Portanto, o trabalho sempre existiu, mas se desenvolveu no decorrer dos anos de algo necessário à sobrevivência à ferramenta manipuladora (R109).
A representação social do trabalho é, pois, constituída na sequência do texto, isto é, o trabalho sempre existiu e se transformou com o passar dos anos. Há retomadas em que o escrevente toma o termo “essência” isolado de seu texto fonte, para qualificar o trabalho no diálogo com os outros dois fragmentos da coletânea, promovendo, assim, um deslizamento de sua interpretação:
[45]:
Os seres humanos começaram a dedicar-se a construir casas templos, edificações, passaram a pesquisar a natureza e a essência da vida (R024).
Para finalizar esta primeira parte, trato da construção de representações sociais ligadas à origem do trabalho. A representação social do trabalho depreendida é a de que o trabalho sempre existiu, exemplo [46], ou passou a existir junto com o homem, exemplo [47], e, a partir daí, começou a se transformar no que é hoje, servindo principalmente para o sustento:
[46]:
1º § Desde os primórdios da civilização humana, o homem usa sua força física e intelectual para realizar projetos em seu benefício (R079).
[47]:
1º § Quando o primeiro homem ambicioso e com fome de avanço surgiu, criou-se o trabalho (R214).
De modo geral, as representações sociais depreendidas do diálogo do escrevente com o primeiro fragmento da coletânea giram em torno da definição do que é o trabalho, tendo essa definição um campo semântico delimitado pela origem, pela permanência ou pelo fim do trabalho. No que se refere à definição, a representação social do trabalho predominante é a de que ele é uma invenção histórica. Quanto à origem, a representação social do trabalho é a de que o trabalho sempre existiu ou passou a existir junto com o homem, e, a partir daí, começou a se transformar no que é hoje, servindo principalmente para o sustento. As representações vinculadas ao PDV de que o trabalho não vai acabar são: o trabalho não acaba porque é importante; o trabalho não acaba porque é fundamental para a humanidade; o trabalho não acaba porque ele ajuda a nos sentirmos completos e mais úteis. Há, nessas representações a valorização positiva do trabalho.
B. A representação social do trabalho aplicada ao segundo fragmento