Esta esfera está organizada em função de um saber histórico, mobilizado pelo escrevente apoiado em fatos e acontecimentos ligados, de certa forma, à questão socioeconômica, mas que traz consigo uma visão histórica do trabalho construída com base, principalmente, nos conteúdos escolares. Digo principalmente por suposição, uma vez que não é possível delimitar a fonte exata da mobilização dos saberes. Nas redações, esse saber manifesta-se de diferentes maneiras, por exemplo, pela escolha prática como forma de estruturação do texto em que, na introdução, é tratado um passado remoto; no desenvolvimento algum ponto posterior na história do trabalho, finalizando, na conclusão, com o tempo presente. Em cada um dessas temporalidades o trabalho é caracterizado numa relação dialógica com o textos dos fragmentos da coletânea, como se pode observar no exemplo [118]:
[118]:
Na era do trabalho
1º § Na era pré-histórica [...]. As formas de trabalho do homem pré-histórico eram limitadas à procura de alimentação para subsistência de seu clã.
2º § Na Idade média houve uma grande ampliação nas modalidades de trabalho, havendo também um aprimoramento e estreitamento das relações trabalhistas, porém este continuou reservado apenas às classes pobres, [...].
3º § Foi com o surgimento do protestantismo [...] surgiu a idéia de que o trabalho é uma dádiva divina e de que somente através dele a riqueza e estabilidade econômica poderão ser alcançadas. [...] que para a população pobre funcionam como um estímulo, mas na realidade não deixam de ser uma simples e mal explicada justificativa para as desigualdades sociais, segundo demonstram sociólogos como Marx Weber e Emile Durkheim, [...] além de tantos outros.
4º § A sociedade moderna vive um dilema pois o capitalismo exige altos lucros, [...] em contrapartida, a população se dilacera por uma vaga de emprego (R014, grifos meus).
No primeiro parágrafo, a qualificação do trabalho se dá por sua caracterização, em função da temporalidade remota: “As formas de trabalho do homem pré-histórico eram limitadas à procura de alimentação”, fazendo remissão à origem do trabalho. Nos segundo e terceiro parágrafos, essa caracterização se dá na referência a um tempo intermediário: “Na Idade média” e a um fato histórico, “o surgimento do protestantismo”, ambos remetendo aos aspectos da exploração do trabalho. No parágrafo conclusivo, o trabalho é caracterizado em função do tempo presente, “A sociedade moderna”.
No que se refere à construção de PDVs, nessa redação, o escrevente se solidariza com o PDV do segundo fragmento, assumindo esse mesmo PDV, como pode ser constatado no parágrafo conclusivo, ao justificar o desemprego em razão da mecanização do trabalho: “o capitalismo exige altos lucros, o que justifica a crescente mecanização da mão de obra, em contrapartida, a população se dilacera por uma vaga de emprego”. Para chegar a esse PDV, o escrevente mobilizou saberes históricos, por meio da encenação de dois PDVs: um, da filosofia protestante, que considera o trabalho uma “dádiva divina”, para justificar a exploração do trabalhador e; outro, que se opõe a esse e que denuncia a exploração pelo trabalho, utilizando para isso, a polifonia de autoridade: “segundo demonstram
sociólogos como Marx Weber e Emile Durkheim”. Ao citar personagens da história, tidos, pelo escrevente, como presumidamente conhecidos de seu interlocutor, constrói uma boa imagem de si, a de um sujeito que domina conhecimentos da história, não vinculados somente à escola básica. O escrevente joga com esses PDVs para, a partir deles, construir o PDVD, que se mostra no parágrafo conclusivo. Entretanto, esse PDV não é o seu, mas aquele com o qual ele se solidarizou, ou seja, o PDV do segundo fragmento. O escrevente, por meio da mobilização de saberes, justifica essa solidarização, para corroborar esse PDV, o escrevente se apoia na adjetivação usada num PDV, o do “protestantismo” que vê o trabalho como “dádiva divina”, para contrapor-se a ele, com outra adjetivação tomada de outros PDVs, o de “Marx [sic] Weber e o de Emile Durkheim”: “mas na realidade “não deixam de ser uma simples e mal explicada justificativa” para as desigualdades sociais”. Desse modo, o PDVD foi construído na correlação com outros PDVs, não se constituindo como o PDV do escrevente, mas na solidarização com PDVs da coletânea.
Uma subesfera diretamente relacionada com a esfera histórica é a do trabalho, já comentada no que se refere à representação social do trabalho como um fator organizador do desenvolvimento do tema solicitado pelo exame.
Os saberes mobilizados nessa subesfera tratam das relações de trabalho, principalmente no que se refere à defesa dos direitos do trabalhador. Num primeiro momento, denuncia-se uma situação de exploração, para, ao final, tentar dar uma solução para o destino do trabalho. Em [119], já no título da redação, o escrevente, por meio de um enunciador, põe em cena um discurso outro em seu texto, parafraseando um provérbio:
[119]:
Diga-me onde trabalhas, e te direi quem és
1º § [apresenta, em forma de narrativa, o início/fim de um dia de trabalho na cidade de São Paulo]. Procuram estas pessoas subsistência? Satisfação pessoal? Ambos, ou algo mais? 2º § [...]. Enquanto isso, pobres daqueles que sequer chegarão a encarregados: [...], não obstante seja fácil encontrar, numa andança por Nova Iorque, grande meca do consumismo, dezenas de mendigos brandindo cartazes com a inscrição "will work for food" - almejando sequer um salário, contentam-se em [...]: comer (R081, grifos meus).
No primeiro parágrafo, apresenta, em uma narrativa, o início e o fim de um turno de trabalho na cidade de São Paulo, finalizando o parágrafo, com perguntas retóricas, sobre o que procurariam esses trabalhadores. No segundo parágrafo, mobilizando saberes da mídia sobre o trabalho em excesso e o desemprego, compara informações do Brasil e dos E.U.A. Para enfatizar esse PDV, utiliza-se de uma adjetivação axiológica. O terceiro parágrafo encena um PDV, por meio de uma adjetivação superlativa, que trata da problemática das relações de trabalho na “Capital Paulista”, mobilizando também saberes da esfera jurídica, mostrando-se conhecedor dessa problemática:
[120]:
3º § Perigosíssima, aliás, a premissa de que aquele que precisa trabalhar o fará em qualquer condição. [...], piora crescente nas condições de trabalho daqueles que precisam colocar comida na mesa: prova disso é que, nas setenta e nove varas do trabalho da Capital Paulista entram, em média, duzentos processos por mês. [...] (R081, grifos meus).
No parágrafo conclusivo, o escrevente responde ao primeiro fragmento, afirmando que o trabalho não vai acabar. Na sequência, ele mobiliza saberes de autoridade, em função da imagem que está construindo de si, para seu outro, a de alguém que domina várias esferas do saber, desde a história até a jurídica. Essas mobilizações também mostram a replica ao que ele supõe ser exigido de um bom candidato:
[121]:
4º § [...]. Considerando tal cenário, parece difícil que o trabalho venha a desaparecer e, como queria Marx, que o capitalismo, vítima de suas próprias contradições, ceda lugar ao socialismo e, após, ao comunismo, onde se trabalha pelo bem comum. [...], é certo que o ser humano só será capaz de trabalhar por qualquer "bem comum" quando conseguir resolver os paradoxos que lhe são impostos por suas relações com o trabalho (R081, grifos meus).
Em R081, o PDV que prevalece é aquele em que o escrevente se solidariza do segundo fragmento: o de que vai permanecer a exploração do trabalhador. Num tom de certeza, afirma que o fim da exploração é remota, uma vez que depende da resolução dos paradoxos das relações de trabalho.