Segundo Nuno (2006: 158), “os arquivos audiovisuais e sonoros foram constituídos a nível interno pelas instituições de comunicação, nunca dispondo de uma grande autonomia no interior das organizações (...), emergindo de forma difusa”. Isso explica que só as principais estações de televisão e de rádio disponham de serviços de arquivo estruturados. No caso nacional, foi a RDP – Rádio Difusão Portuguesa a primeira empresa a criar um arquivo histórico.
Embora inegável, o papel dos arquivos enquanto elo bastante importante no funcionamento dos órgãos de comunicação nem sempre é reconhecido, tendo, por vezes, uma visibilidade secundária.23
A crise económica, juntamente com a digitalização – tanto da produção audiovisual como do próprio arquivo – e com o aumento do número de jornalistas fazendo tarefas até aqui próprias dos arquivistas, é responsável pelas grandes mudanças que estão a afetar os serviços de documentação televisivos.
Tal como em outros sectores empresariais, a crise económica tem obrigado as televisões a tomarem medidas para cortar nos gastos. Entre as decisões mais recorrentes está a supressão de correspondentes e a diminuição da produção própria.
“Na atualidade, as cadeias de televisão já não produzem programas (a maioria são de produção externa ou com muitas coproduções) e também se reduziu o número das coberturas diárias, agora realizadas por agências ou freelancers, mais baratos, e aos quais só se recorre quando faz falta.”(Rayo, 2012: 82)
De forma indireta, esta diminuição da produção própria tem uma repercussão negativa em dois sentidos nos serviços de documentação:
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23 Nuno (2006) aponta como principal causa para este facto a inexistência de uma política de defesa do património histórico gerado nestas
instituições do próprio Ministério da Cultura. Para o autor, a maioria das empresas não investe na organização dos respetivos serviços por fatores económicos, mas principalmente pela falta de sensibilidade para a preservação do acervo documental mais relevante.
i) afeta a reatualização do arquivo – há uma redução significativa da quantidade de imagens susceptíveis de serem conservadas, o que leva a que a atualização seja feita com menor periodicidade, ou pelo menos, não com a mesma intensidade.;
ii) regista-se uma redução do número de tarefas na rotina de trabalho dos arquivistas – passa a haver menos material para tratar (menos horas empregues à conservação, catalogação e indexação dos “brutos”) e menos pesquisas para efetuar.
Além disso, as mudanças na programação, cada vez mais assente no entretenimento (concursos e ficção), também trazem consequências nos serviços de documentação, já que se tratam de programas com um baixo índice de reutilização quando comparado a debates, informativos ou reportagens. O que resulta numa diminuição do tempo dedicado à análise e pesquisa do material histórico.
“A este difícil cenário laboral, os centros de documentação têm que juntar outro elemento negativo: o desconhecimento que existe, em geral, não só a nível diretivo, mas também entre os usuários mais diretos (jornalistas, realizadores e produtores) do trabalhar que realizam os documentalistas.” (Rayo, 2012: 83)
O que o autor quer dizer é que, para muitos, este trabalho se faz sozinho. Uma ideia ainda mais recalcada com a aparição da Internet e dos sistemas digitais, que tornam possível aos jornalistas pesquisar tanto a informação escrita como as imagens que necessitam, o que leva a que alguns considerem estes serviços prescindíveis. Certamente se compreende de que se trata de um pensamento errado, já que existe todo um trabalho prévio realizado pelos arquivistas para que estas mesmas imagens possam ser encontradas, desde a sua seleção à análise detalhada da informação.
Graças à digitalização da produção audiovisual, verificamos que os jornalistas estão cada vez mais a realizar tarefas que outrora pertenciam a outras áreas. Já aqui falamos sobre a sua entrada na edição de imagem e o quanto isso pode significar para a extinção do lugar dos editores no seio das redações. O mesmo cenário se constata no que diz respeito aos arquivos. Também aqui os jornalistas estão a realizar novas tarefas, como são a busca de informação escrita, a recuperação de material audiovisual do arquivo e a seleção de material, o que é considerado por alguns documentalistas como uma “perda de terreno” (Rayo, 2012: 86). Contudo, estas
pesquisas limitam-se a imagens de recurso ou a materiais mais ou menos repetitivos, necessitando sempre da ajuda dos documentalistas quando são mais complexas, uma vez que é preciso, não só saber como procurar, mas também, e principalmente, conhecer o arquivo em questão. Esta ajuda torna-se fundamental para obter os melhores materiais no menor tempo possível.
Mas já que falamos nas pesquisas feitas pelos próprios jornalistas (que muitas vezes não conhecem a organização do arquivo), torna-se relevante abordar quais as consequências que estas comportam para a empresa, algumas delas podendo mesmo gerar conflitos judiciais.
“O principal problema que apresenta este ‘self-service de material audiovisual’ é a sua má utilização (...), por falta de atenção ou simplesmente por descuido. Este mau uso pode dever-se à falta de adequação da imagem à informação que ilustra ou o emprego de um material de arquivo claramente identificável em contextos negativos.” (Rayo, 2012: 86)
E esta falta de rigor na utilização de imagens pode afetar, de forma significativa, a informação que se está a transmitir. Se, por um lado, se corre o risco de fazer com que o telespectador se fixe apenas na imagem e não na mensagem, há ainda a possibilidade de se passar para o outro lado, resultando numa sensação de pobreza de arquivo. Isto acontece muitas vezes e um dos motivos é a falta de controlo sobre os materiais utilizados. Como existe uma liberalização do acesso ao arquivo, pode ocorrer uma repetição das mesmas imagens num mesmo programa, uma vez que os jornalistas não sabem que imagens é que os colegas estão a usar. Este fenómeno não aconteceria se houvesse uma centralização das pesquisas numa única pessoa ou departamento. Isto já para não mencionar o impacto que o uso de material identificável em contextos negativos tem, onde se podem gerar processos judiciais e/ou multas.
“Como exemplos, podemos citar o uso de planos de jovens em bares (podem ser menores de idade!); de pessoas bebendo um copo de cerveja para ilustrar notícias sobre o índice de alcoolismo (...); de pacientes na consulta de um médico numa notícia sobre agressões a médicos ou pessoas andando pela rua em notícias sobre a infidelidade, o absentismo laboral, etc.” (Rayo, 2012: 87)
A opção adotada por algumas televisões de passar estas responsabilidades para as mãos dos jornalistas desvaloriza a profissão do arquivista que, contrariamente ao que acontecia na época em que a ‘crise’ não era tantas vezes abordada, já começa a ver a sua razão de ser
muito questionada. Daí que seja, constantemente, posto à prova com cada mudança tecnológica. Por isso, não é em vão que Lacoba (2012, 68) refira que o documentalista é um profissional “adaptativo como poucos (...), mudando sucessivas vezes para se adaptar a cada novo ecossistema comunicativo”. Uma situação que “não é nova”, tal como argumenta Lacoba, vivida já outras vezes, como quando surgiu o computador e a Internet.
“No entanto, no meio desta panorama desolador, emergem algumas propostas que refletem a capacidade inata do documentalista pela contínua reinvenção e que consideram a sua figura mais necessária que nunca, precisamente num contexto de crise como o atual. A adaptação do documentalista parece manter-se, por um lado, em recuperar as tarefas clássicas que lhe são mais representativas; por outro, em visibilizá-las e potenciá-las através da Internet; e, finalmente, avançar para novas sinergias com os jornalistas, seus definitivos aliados e cúmplices.” (Lacoba, 2012: 68).