Terminado o trabalho de reportagem, onde se dá a recolha de todos os elementos que irão dar forma à mensagem, a próxima etapa passa pela montagem. O protagonista desta fase é o editor de imagem que, numa estreita colaboração com o jornalista, é responsável por analisar todo o material por forma a selecionar as melhores imagens, eliminando aquilo que for de menor qualidade.
No entanto, apesar da edição influenciar enormemente o resultado final – inclusivamente, um elevado número de decisões é deixado ao critério do editor – a bibliografia sobre montagem em televisão é praticamente inexistente. Após termos efetuado uma revisão da literatura sobre Jornalismo Televisivo para escrever este relatório, constatámos que o papel da edição é raramente focado e muito menos destacado. Alguns trabalhos exploram, embora de forma pouco aprofundada, as técnicas de seleção e corte de planos ou as tarefas de um editor. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
20 Não é à toa que, durante as entrevistas, se tornou recorrente o uso do primeiro plano ou do plano médio curto (entre a cintura e o peito). Estes
permitem destacar a expressão da cara, refletindo o estado sentimental e/ou anímico da pessoa. Dão ainda um tom de intimidade entre o espectador e o entrevistado.
Contudo, as dinâmicas de trabalho específicas de uma produção televisiva ou o perfil do editor de televisão são, por exemplo, deixadas para trás. Por outro lado, na área cinematográfica, é possível encontrar obras dedicadas exclusivamente à montagem fílmica. Para Alexandra Ramos, esta diferença substancial prende-se com o facto de o cinema “ser considerado arte, valorizada e prestigiosa, enquanto a televisão é tida como um produto de informação e entretenimento de massas que, apesar de apresentar semelhanças com o cinema, não atrai tantos olhares intelectuais” (Ramos, 2012: 2). Além disto, a autora refere ainda que a definição do próprio conceito não é pacífica:
“no contexto audiovisual profissional, a edição é considerada um trabalho técnico, sendo os aspetos criativos geralmente atribuídos ao mérito de realizadores e guionistas. Daí haver autores que defendem a distinção entre os termos edição e montagem, referindo-se a edição como o aspeto técnico e montagem como o processo intelectual e criativo.” (Ramos, 2012: 1)
No entanto, salvo raras exceções, o editor (a pessoa que lida com os equipamentos e programas de edição) é, simultaneamente, o montador, pois é ele quem decide e executa os cortes. Mesmo quando este trabalho é feito sob o acompanhamento de um outro elemento da equipa, seja ele realizador, guionista ou coordenador de programa, o editor não se limita a ser um operador técnico. Desta forma, neste trabalho, os dois termos (editor e montador) serão usados como sinónimos por não considerarmos que haja uma distinção nas funções em causa, havendo até uma convergência no mesmo trabalho e na mesma pessoa.
Nos primórdios do cinema, aquando da invenção do cinematógrafo, não existia edição. Como descreve a autora, “a película era usada simplesmente num prisma de fotografia em movimento” (Ramos, 2012: 3). Quer dizer que estes filmes curtos, de uma só cena e de um só enquadramento, retratando alguma situação quotidiana, eram puramente descritivos sem qualquer desenvolvimento, como uma “fotografia cujos elementos, dentro do quadro, se moviam” (Ramos, 2012: 3).
A edição de vídeo, segundo relata Carlos Canelas (s/d: 2), foi introduzida dois anos após a invenção do registo magnético de vídeo, em 1958. Inicialmente, começou por ser uma edição física, tal como se praticava na montagem cinematográfica. Ao longo dos anos, com a evolução tecnológica que se fez sentir e que reestruturou a maioria dos sectores, houve uma mudança
significativa neste processo. Sem dúvida, representou uma transformação na forma de realizar os filmes, o que marcou para sempre a história do Cinema.
A edição é um processo, descrito por muitos autores, como “fundamental” (Ramos, 2012: 1) da produção audiovisual, pelo qual passam praticamente todos os produtos, sejam eles fílmicos, videográficos ou televisivos. Como já dissemos, é a última etapa da execução de um filme para onde convergem todos os elementos – sejam imagens, sons, músicas ou outros elementos gráficos – que serão necessários para criar uma mensagem com sentido, de forma clara, objetiva, concisa e de fácil compreensão para o telespectador.
As imagens, depois de gravadas, são entregues, em “bruto”, a um editor que será responsável pela escolha, ajuste e corte de imagens. Determinará ainda a duração de cada plano e a sua ordem dentro das cenas e sequências e o modo como tudo isto se combina com a banda sonora, caso exista.
“Através da escolha e junção de diferentes planos, é possível fragmentar uma ação em diferentes pontos de vista e alterar a percepção de tempo e espaço no filme. Pelo processo de edição, pode-se modelar o ritmo, o tom e até o significado da mensagem.” (Ramos, 2012: 4)
Quando se fala em edição de imagem, torna-se pertinente recorrer a Herbert Zettl e à sua categorização das funções desta tarefa. São quatro as que ele refere e que Canelas (s/d) subscreve: combinar, ordenar, corrigir e construir. Na primeira função, a forma mais simples de editar é combinar os planos, de forma a obter uma sequência adequada de acordo com os objetivos do programa audiovisual. Depois disto, muitas das operações efectuadas na edição passam pela ordenação dos planos captados, rejeitando aqueles que não serão utilizados. Não são raras as vezes em que o repórter de imagem, quando está no terreno, regista vários minutos de material audiovisual em “bruto”, dos quais apenas serão usados dois a três minutos para montar a peça noticiosa. Outro dos procedimentos muito vulgares prende-se com a reorganização das imagens. Na maioria das situações, devido a questões essencialmente práticas – a nível de montagem ou de mensagem –, a disposição das imagens sequenciadas não representa a ordem de captação das imagens. No que diz respeito à terceira função, uma elevada percentagem das tarefas tem como objetivo corrigir falhas – eliminar planos mal captados, evitar falhas de raccord,
substituir imagens por outras mais adequadas... Por fim, a função de construir é talvez aquela que Canelas (s/d: 3) descreve como a mais exigente: “não em termos de conhecimentos técnicos, mas sobretudo em termos estéticos e criativos, sendo com certeza a mais satisfatória”. É nesta fase que o editor pode libertar a sua veia artística e criatividade.
Numa analogia de Pudovkin, aproveitada por Ramos (2012: 10), a edição assemelha-se à literatura: “os planos podem ser comparados a palavras soltas que um escritor usa como matéria-prima e cujo significado só se define quando essas palavras assumem uma posição na frase”. Deste modo, o editor, com cada escolha e decisão que toma, participa de forma ativa na produção de sentido da mensagem. “Sem edição, as filmagens seriam apenas imagens desconexas: não seria possível contar uma história” (Ramos, 2012: 1).
Por isso mesmo, torna-se claro que a edição é um processo criativo, “uma forma de dar ritmo, força e unidade à obra audiovisual” (Ramos, 2012: 8), algo que transcende em muito a simples sucessão no tempo de planos previamente gravados. Cada um dos elementos visuais e sonoros usados na produção do vídeo afeta a fluidez visual, assim como influencia as reações do público.
“Os editores quando perscrutam e selecionam o material, fazem-no não só pelo seu significado literal, mas também pelo seu valor expressivo e emocional. Através do conjunto de escolhas que faz, o editor pode dar mais ênfase a um personagem, a uma reação, a um momento, pode dar mais ritmo a uma cena emocionante, pode acertar no momento exato para provocar o riso, acrescentar expressividade a uma ação, exacerbar um sentimento ou ajudar a dar coesão a uma história.” (Ramos, 2012: 11)
Daí ser importante referir que a edição “pode funcionar como manipuladora de emoções e até como forma de criar associações de ideias e de gerar conexões de pensamento” (Ramos, 2012: 5). E mais: por ser também uma arte, requer paciência, dedicação, concentração, habilidade, criatividade e sensibilidade; requisitos aos quais se acrescentam, quando se fala de edição em telejornalismo, fidelidade às informações.