Chapter 3 – The Handmaid’s Tale and Relationships
3.2 Offred and the Commander
Na década de 1990, Medeiros utiliza 55 cadernos, o que dá uma média de cinco por ano, os quais possibilitaram o acesso a um momento rico de reflexões sobre sua encenação, processos de ensaios e preparação corporal do grupo. O trabalho da artista se sobressai, e as páginas dos cadernos revelam-se repletas de desenhos, comentários, anotações de reuniões do GOM, contas de produção, anotações de viagens, estudos para espetáculos, roteiros de cena, de som e de luz.
Considera-se que todos os estudos e pesquisas metodológicas que ela realizou nas décadas de 1970 e 1980 foram transpostos para a sua prática de criação artística. Pode-se observar, no gráfico a seguir, que a frequência de registros relacionados a corpo permanece estável no início da década de 1990, crescendo no final, enquanto os relacionados à música
são constantes, mas parecem diminuídos em sua quantidade. No entanto, essa é apenas uma falsa impressão quantitativa, dado que a análise qualitativa sugere migração dos constituintes da RCIM para a cena no GOM.
GRÁFICO 2- Elementos da Rítmica Corporal na década de 1990 (análise de conteúdo)
Pode-se perceber a ressonância da RCIM no recurso da combinação, frequente também nos espetáculos dos anos 1990. Epifanias (1990), segundo espetáculo da trilogia Joyce, teve como mote o monólogo Molly Bloom do Ulisses, do irlandês James Joyce. Muita dança, texto, imagens projetadas por slides e objetos de cena se entremeiam com ludicidade para compor a cena do GOM.. A crítica especializada chama a atenção para a vida dos objetos, que promove um dinamismo excitante para a percepção auditiva e visual (ESTADO DE MINAS, 1991).
Em 1991, Alicinações encerrou a trilogia enfatizando o aspecto lúdico e trazendo mais uma referência da literatura: Lewis Carrol. O tema central desse espetáculo é o jogo competitivo e de entretenimento que se desenvolve num imaginário tabuleiro de xadrez com
peças móveis ─ cenário e objetos ─ que vão sendo montadas e desmontadas. Também aqui o
cenário, dotado de mobilidade, era composto a cada cena pelos próprios atores e dançarinos. Medeiros continua inspirada pelo autor irlandês no seu trabalho seguinte. Bom Dia
Missislifi (1993) marca os dez anos de atividade do GOM e parte de uma personagem,
0 20 40 60 80 100 Pág in as d e c ad e rn o s d e ar tis ta - p rofess or a Década de 1990
Os elementos da Rítmica Corporal
Corpo Música
Missislifi, de Finnegans Wake, de James Joyce. As artes plásticas retornam à cena do GOM com a citação cênica de A banhista de Valpinçon (1908), de J.D. Ingres; o Violinista verde (1924), de Chagall, e o Almoço sobre a relva (1863), de E. Manet, reproduzidas em cena pelos atores. A dança continuou muito presente, assim como a mobilidade do cenário. Os diversos movimentos com superposições rítmicas e jogos de pergunta e resposta deram dinâmica ao espetáculo e propiciaram um diálogo de consonância e dissonância com a música, composta dessa vez pelo criador do grupo, o compositor argentino Rufo Herrera.
Em 1994, Medeiros dirige seu primeiro e, até hoje, único espetáculo infantil. Happy
Birthday to you. Com essa obra comemorou os dez anos de atividades pedagógicas no
CP/UFMG, homenageando as crianças. Voltado para o público infanto-juvenil, o trabalho teve as mesmas premissas dos anteriores: história não linear, cenário não descritivo, figurinos com sentido simbólico, gestual aliado a textos, cenários e objetos de cena dotados de mobilidade. Da sala de aula no CP/UFMG, Medeiros trouxe os motivos para as improvisações dos atores-dançarinos sob forma de suas tensões interiores, seus desejos e vontades proibidas, brincadeiras, desabafos, brigas, teimosias e pirraças. Em Happy Birthday se entrelaça claramente a sua atuação como artista e como professora de Arte, além de ser inaugurada a sua participação como responsável pela trilha sonora ao lado de Rogério Vasconcelos.
Retomando a influência da musicalidade de James Joyce, ela apresenta
Babachdalghara (1995) sob a forma de documentário-show no qual as personagens ilustram
tensões expostas em páginas jornalísticas. A retomada de James Joyce é motivada pela sonoridade de sua palavra-trovão, que representa a queda do homem em Finnegans Wake:
bababadalgharaghtakamminarronnjonnbronntonnerronntuonnthunntrovarhounawnskawntoo hoohoordenenthurnuk. Dessa palavra, o grupo retirou o título da peça, assim como o tema
central, as coreografias, músicas tocadas e textos cantados-falados. O espetáculo é uma alusão a essa simbólica queda inaugural do homem.
A Rítmica Corporal foi transposta para a cena por meio de sequências de movimentos ao som de tambores e voz cantada-falada. Os textos surgiram da colagem de sons ritmados e palavras sem sentido oriundos da palavra-trovão e de outros escritos como matérias de jornal,
artigos científicos, poesias e textos bíblicos. Vários idiomas foram utilizados ─ português,
hebraico, inglês, espanhol, russo ─, ressaltando a musicalidade dos textos-falados. Os atores e dançarinos falavam, cantavam, tocavam instrumentos de percussão e manipulavam o cenário de maneira acrobática em cadeiras suspensas. Dança, cenário, texto e instrumentos de percussão se equilibravam numa cena de tom jornalístico que se apropriou da Rítmica Corporal para relatar o clima das páginas de jornal.
Zaac & Zenoel é o último trabalho a ser mencionado nesta tese. Sua estreia em 1998
trouxe para o teatro a história de dois cientistas fictícios que faziam experimentos num laboratório subterrâneo. Inspirado em Bouvard e Pécuchet, de Gustav Flaubert, o GOM aproxima-se do universo da ciência para compor uma obra que mais se assemelha a um
“ballet mecanizado de impressionante envergadura poética” (MONASTERIOS, 2000). Com
esse trabalho, inaugura-se o conceito que vem marcando a estética do GOM ─ o espaço cênico concebido como engrenagem.
A metáfora da engrenagem contempla a ideia de equiparação entre atores, dançarinos, músicos, movimentos, música, texto e objetos, já esboçada nos espetáculos anteriores. Quebram-se as hierarquias, e a polifonia impera na atmosfera de experimento na qual se usam os mais variados objetos, somados a uma forte precisão rítmico-motora. No GOM a Rítmica Corporal torna-se parte do modo de fazer a cena. Com Zaac & Zenoel, a preparação corporal dos atores – Qualidades de Movimento, Rítmica Corporal e Improvisação – torna-se perceptível na fruição do espetáculo.
Verificou-se, pelas entrevistas e pelos registros efetivados num período de trinta anos, que houve um processo de construção de uma proposta de Rítmica Corporal própria. Se, no início de 1970, encontram-se exercícios de uma rítmica willemneana, e por extensão infere-se que dalcroziana, como se verá no próximo capítulo, pouco a pouco, e principalmente no final de 1980 e nos anos 1990, parece definir-se um modo particular de trabalhar com a vivência corporal do ritmo. A RCIM torna-se, nesse período, parte imprescindível do trabalho de preparação corporal dos atores do GOM. Vai literalmente para a cena no espetáculo
Bachbaldaghara, em 1995, e atualmente é percebida nos corpos dos atores, que se misturam
aos objetos na movimentação cênica característica do grupo. Procedimentos usuais na obra teatral de Medeiros como a combinação, a não linearidade, o movimento, a colagem, o acaso são também evidências da ressonância da RCIM. Todos esses recursos portam flexibilidade, que é um dos traços característicos dessa prática.
Percebe-se na trajetória de Medeiros que em momento algum ela teoriza sobre sua prática de Rítmica Corporal. No entanto, partindo de suas observações e do estudo de autores cujos temas relacionam-se com a sua pesquisa, pode-se explorar teoricamente a sua RCIM.