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Challenging Heteronormativity: Katniss’s Aromanticism

Chapter 4 – The Hunger Games and Relationships

4.3. Challenging Heteronormativity: Katniss’s Aromanticism

Com relação à estrutura de uma aula de Rítmica Corporal, Medeiros ressalta que não há uma estrutura fixa. Existe a consciência do que é necessário para aprender música ou para o aprendizado do estar no presente. Não há um único caminho previamente pensado.

Pode-se, por exemplo, iniciar a aproximação do educando à RCIM por uma sensibilização auditiva e corpórea propondo uma dança livre ao som de música. Pretende-se com isso estimular todo o corpo a entrar em ação musical. Depois dessa sensibilização, dá-se início aos exercícios preparatórios para a prática de RCIM, que visam principalmente à percepção da regularidade do pulso e a rapidez de resposta ao estímulo. Os exercícios

preparatórios para a prática de RCIM são procedimentos de repetição, com interferências

não necessariamente organizadas no pulso. Pode haver deslocamentos no espaço formando rodas, filas ou de maneira livre.

Os exercícios preparatórios são estruturados para trabalhar a Livre Iniciativa e o Reflexo. Iniciam-se com passos regulares, mas cada praticante com seu andamento particular, até que todos cheguem a um pulso comum, socializando a vivência musical. Medeiros considera que o caminhar é a primeira ação de socialização no espaço.

A Livre Iniciativa se dá pela percepção do coletivo, quando o individual e o grupal passam a ter igual importância. Qualquer um dos participantes pode ser líder. A título de exemplo, Medeiros utiliza, inspirando-se em Glathe-Seifert (1969), o exercício de caminhar livremente pelo espaço ocupando-o em toda a sua extensão. Seguindo um líder não previamente escolhido, todos esvaziam a sala e posteriormente voltam a ocupá-la. A liderança deve ser imperceptível para quem vê o exercício sem realizá-lo, aparentando ser coletiva. Dado que o grupo deve responder à proposta individual de maneira imediata, não se percebe o indivíduo, mas sim o grupo como coletivo tomando decisões no espaço-tempo. Os exercícios de Livre Iniciativa trabalham as habilidades de escolha, decisão, organização e liberdade. A

Livre Iniciativa propicia uma liderança variável e imprevisível. Esse tipo de exercício ainda trabalha variação de velocidades, modos de caminhar e a relação dos praticantes com objetos.

Os chamados exercícios de Reflexo são aqueles que demandam respostas rápidas, imediatas, a um estímulo externo. É importante dizer que. No contexto dos estudos artísticos aliados aos estudos do corpo nas ciências cognitivas, o nome Reflexo não é o mais adequado para esse tipo de exercícios. Sabe-se que os reflexos não podem ser aprendidos, pois não constituem o resultado de uma deliberação consciente. Seria mais adequado nomear esses exercícios de Rapidez de Resposta, pois o participante deve responder deliberadamente a um estímulo, tendo, inclusive, que optar entre mais de uma possibilidade de resposta. A artista- professora estabelece a regra, e os participantes devem segui-la. Nesse tipo de exercício, pelo

menos inicialmente a regência é dada pelo orientador da prática. Essa “regência” pode ser

auditiva ou visual. Um exemplo é quando todos caminham livremente pelo espaço e ao escutarem o hop começam a correr, e quando escutam o hip devem voltar a caminhar pelo espaço.70 O orientador pode também reger com movimento: se ele levantar o braço, todos sentam-se no chão, e ao abaixá-lo o grupo volta a caminhar pelo espaço. Esses exercícios também visam trabalhar a percepção individual e coletiva, exercitar a atenção concentrada e difusa, a capacidade de tomar iniciativa de execução da tarefa, a percepção do espaço, a capacidade de escuta e consequente resposta ao estímulo, e ainda a comunicação com o colega participante.

A orientadora começa, então, a propor os parâmetros musicais especificamente trabalhados na RCIM: duração e intensidade. O ritmo revela-se nas singulares organizações espaço-temporais propostas. A RCIM pressupõe “uma organização de gestos e pensamento no

espaço e tempo” (RIBEIRO, 2007, p.216). Em seguida, Medeiros organiza o espaço-tempo

em exercícios que se baseiam em dois princípios fundamentais: os agrupamentos Agrupamentos Rítmicos ─ e adaptações de formas musicais ─ as Formas Rítmicas.

Nos Agrupamentos Rítmicos, exercitam-se organizações temporais de 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 10, 11 ou mais pulsos e cujas interferências ocorrem de maneira organizada. As interferências são sonoras ou motoras, como palmas, palavras ou movimentos, e geralmente acentuam a estrutura organizada de pulsos, o que lhes confere o caráter rítmico. Geralmente o orientador inicia a prática com agrupamentos de 2 e 4, como sugere Willems, e depois propõe agrupamentos de 3, 5, 7 , 9, aumentando sucessivamente (MEDEIROS, 2010b). Ressalta-se que as interferências podem ser múltiplas e simultâneas, como por exemplo nesta sequência:

solicita-se ao grupo para emitir um som em um pulso, bater uma palma em outro, girar e emitir o mesmo som em um terceiro pulso do agrupamento.

Para trabalhar com as Formas Rítmicas, Medeiros propõe a adaptação livre de formas musicais, apresentando uma forma pré-estabelecida com interferências organizadas e deslocamentos ainda mais complexos. A forma em música é a estrutura da peça musical (BENNETT, 1986). A artista trabalha com as seguintes formas musicais:

1 – Rondó: AB/ AC/AD 2 – Lied: ABA/ ABA 3 – Cânones: A/B

4 – Estruturas mistas: ABA/ACA/ADA

Os Exercícios Preparatórios, os Agrupamentos Rítmicos e as Formas Rítmicas caracterizam-se pela nãofinitude. São estruturas abertas, que possibilitam múltiplas organizações. Segundo Bennett (1986), trabalha-se a forma musical com procedimentos de repetição e de contraste, entre outros. A repetição promove a unidade, e dessa maneira orienta o fruidor da obra musical. O contraste acrescenta variedade e interesse pela peça musical, sendo feito com variações de tonalidade, ritmo, andamento, dinâmica, timbre e outros elementos musicais. Percebe-se a repetição tanto no fazer quanto ao observar a RCIM, em cujas estruturas rítmicas há geralmente uma parte fixa, estável, que se repete no decorrer do exercício, associada a outra que varia. O contraste se dá por meio da organização da estrutura em parte fixa e parte móvel, e ainda por justaposições de tarefas rítmicas, por alternâncias, pela utilização de partes simétricas e partes assimétricas, e por interferências sonoras e motoras. A variação, além de ser um princípio adotado, é um dos procedimentos de gestão da RCIM e também o principal elemento destacado por Medeiros. Utilizando a todo momento as variações, a artista-professora proporciona ao educando a não acomodação, por haver na prática de RCIM uma dinâmica constante de desafios.

Pode-se dizer que, na RCIM, Medeiros parte dessas duas noções, contraste e repetição, quando utiliza os seguintes procedimentos para organizar as estruturas rítmicas (MEDEIROS, 2007):

1- Fixo/móvel 2- Interferências 3- Alternância 4- Justaposições 5- Inversão 6- Variação

A tabela a seguir descreve os procedimentos de criação de exercícios de RCIM com exemplos práticos.

TABELA 2

Procedimentos de criação e exercícios de Rítmica Corporal

Crescente/decrescente ─

acréscimo/subtração

Agrupamento do pulso em 5 tempos com interferências de acréscimo e decréscimo, estruturado sob a forma de ABA

O grupo anda pela sala num pulso comum. O professor indicará um agrupamento de 5 tempos, acentuando o primeiro tempo. Os alunos andam pela sala marcando o pulso com os pés e acentuando o primeiro tempo com uma palma. Após esse treinamento, a estrutura de 5 tempos sofrerá uma alteração decrescente para 4 tempos, depois para 3, 2, 1, mantendo a palma no primeiro tempo.

1 2 3 4 5 > 1 2 3 4 > 1 2 3 > 1 2 > 1 >

crescente até chegar aos 5 tempos, começando pelo 1: 1 > 1 2 > 1 2 3 > 1 2 3 4 > 1 2 3 4 5 >

A partir desse treinamento o professor determina que a estrutura decrescente corresponda a A, e a crescente a B, e organiza a estrutura no formato ABA. A B A 1 2 3 4 5 1 1 2 3 4 5 > > > 1 2 3 4 1 2 1 2 3 4 > > > 1 2 3 1 2 3 1 2 3 > > > 1 2 1 2 3 4 1 2 > > > 1 1 2 3 4 5 1 > > > Deslocamentos no espaço

formando figuras e/ou

trabalhando as direções

Os pentágonos

Imaginar a figura do pentágono desenhada no chão. Eleger uma frente e começar o exercício andando para a diagonal-frente-direita, seguindo o desenho do pentágono até chegar ao ponto inicial. Uma vez compreendido esse desenho, repete-se para a esquerda de forma espelhada. Inicia-se com 4 passos por lado nos quadrados e 3 passos por lado nos triângulos. Depois

realiza-se o exercício com 3 passos no quadrado e 4 no triângulo; depois 2 passos em cada lado do quadrado e do triângulo; e por último com 1 passo em cada lado de toda a figura.

Variantes:

- Executar a figura batendo uma palma no 1. - Executar a figura batendo uma palma nos ímpares. - Executar a figura batendo uma palma nos pares.

- Executar a figura alternando a palma entre ímpares e pares.

- Executar a figura de olhos fechados.71

Inversões da

forma/espelhamento

Agrupamento de 10 tempos

O grupo define uma frente, e cada aluno posiciona-se um ao lado do outro, formando uma linha reta. O professor define o pulso com uso de instrumento. O exercício terá estrutura decrescente partindo do número 10, e crescente partindo do número 1. Inicia-se então o exercício andando 10 passos para a frente e 1 passo virando o corpo para trás; em seguida 9 para frente e 2 para trás, 8 para frente e 3 para trás, 7 para frente e 4 para trás, 6 para frente e 5 para trás e assim por diante.

Frente Trás 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 2 1 2 3 4 5 6 7 8 1 2 3 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 1 2 3 4 5 6 7 8 1 2 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

71 Esse exercício faz parte da Série Figuras Geométricas no Espaço, criada por Mônica Ribeiro a partir da

Interferências nos ímpares e pares, ou no centro e nas extremidades da estrutura (alternância)

Agrupamento de 4 tempos

Todo o grupo – disposto em roda – vai ao centro, retorna; em seguida vai

para a direita, retorna; e finaliza girando sobre o próprio eixo para a direita e para a esquerda. Cada trajetória é composta de 4 passos correspondentes ao agrupamento de 4 tempos.

Variantes:

- Realizar a mesma sequência acentuando na ida os números ímpares, e na volta os pares: para a direita, os ímpares; e para a esquerda, os pares. Esse reforço do pulso pode ser feito com uma palma, som vocal, instrumento etc. IDA 1 2 3 4 VOLTA 1 2 3 4 DIREITA 1 2 3 4 ESQUERDA 1 2 3 4

- Realizar a mesma sequência acentuando na ida os números das extremidades (1 e 4) e na volta os do centro (2 e 3 ); para a direita, os das extremidades (1 e 4); e para a esquerda os do centro (2 e 3).

Mescla de interferências

(sonoras e motoras) ─

justaposição

Os triângulos

Transpor mentalmente para o chão a figura de três triângulos dispostos um do lado direito, um do lado esquerdo e o outro no centro e abaixo, conforme a ilustração. Eleger uma frente e começar o exercício andando para a diagonal-frente-direita, seguindo o desenho do triângulo até chegar ao ponto inicial. O exercício começa com 3 passos por lado, depois 4, 2 até 1 passo por lado dos três triângulos, conforme indicado na ilustração. Executar essa figura movimentando os braços, que devem subir num lado do triângulo e descer no outro, equilibrando a trajetória do movimento com a sua duração, que equivale ao número de passos de cada lado. Sob essa interferência gestual, acrescentar um som vocal nos tempos ímpares.

Variantes:

- Executar a figura batendo uma palma nos ímpares. - Executar a figura batendo uma palma nos pares.

- Executar a figura alternando a palma entre ímpares e pares. - Executar a figura de olhos fechados.

- Mudar a frente para fazer o exercício.

Pergunta/resposta ─

fixo/móvel

Agrupamento de 3 tempos

Todo o grupo – disposto em roda – anda no mesmo lugar mantendo um

pulso comum. O professor indica um agrupamento de três tempos, que será a base para o movimento na roda. O exercício é executado como um jogo de pergunta e resposta, sendo que a pergunta é sempre fixa e corresponderá a três tempos. A resposta será móvel e crescente, começando com 1 tempo e finalizando com 3 tempos. O grupo anda três tempos no mesmo lugar, e vai à frente uma vez; em seguida volta ao mesmo lugar, e anda mais três tempos, e vai à frente duas vezes; e volta para trás três vezes, e vai à frente três vezes. Pergunta – Resposta 1 2 3 – 1 1 2 3 – 1 2 1 2 3 – 1 2 3 Variantes:

- Repetir essa sequência com interferência sonora (palma) nos ímpares.

Pergunta – Resposta 1 2 3 – 1 > > > 1 2 3 – 1 2 > > > 1 2 3 – 1 2 3 > > > >

- Repetir essa sequência com interferência sonora (palma) nos pares.

Pergunta – Resposta

1 2 3 – 1

>

> > 1 2 3 – 1 2 3 > > Deslizamento de acento ─ alternância Agrupamento de 5 tempos

Todos andam pela sala num pulso comum. O professor indica um agrupamento de 5 tempos e solicita aos alunos que interfiram no pulso com uma palma, que se deslocará do quinto tempo em direção ao primeiro. O agrupamento de 5 tempos é realizado sete vezes, sendo que na primeira vez não há interferência em nenhum dos tempos, e na última há interferência em todos os tempos. 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 > 1 2 3 4 5 > 1 2 3 4 5 > 1 2 3 4 5 > 1 2 3 4 5 > 1 2 3 4 5 > > > > > Variantes:

- Fazer a mesma sequência mantendo o pulso e andando no mesmo lugar. - No lugar da palma, pode-se andar para trás ou saltar no mesmo lugar, ou emitir um som vocal etc.

Fonte: RIBEIRO, 2007.

Os exercícios criados com esses procedimentos são geralmente feitos sobre uma base de movimento que é o andar. Sobrepõem-se ao andar, como interferências motoras, gestos com braços e cabeça, giros do corpo e de partes do corpo, saltos e pausas. As interferências nas estruturas rítmicas também são comuns com o uso de instrumentos musicais, objetos sonoros e outros como balões, bastões, bolas e objetos cenográficos. As sonoridades podem

resultar de palmas (aberta, fechada ou côncava), da voz ou de batimentos no corpo, estalos e batimento dos pés no chão.

Ao propor a prática de Rítmica Corporal, Medeiros tem estes objetivos: 1- Estimular a liderança (coletiva e individual).

2- Exercitar a capacidade de reação rápida a estímulos sonoros, visuais e táteis. 3- Exercitar a atenção.

4- Estimular o comportamento lúdico por meio de desafios. 5- Favorecer as capacidades de criação e improvisação. 6- Utilizar a tensão mínima necessária ao esforço requerido.

7- Propiciar o manuseio de objetos concomitantemente com o uso de movimentos corporais e vocais.

8- Desenvolver a coordenação motora.

9- Desenvolver a capacidade de dissociação motora. 10- Desenvolver a precisão musical.

11- Diminuir a defasagem entre a ordem da mente e a resposta do corpo. 12- Promover a consciência do tempo presente.

Tais objetivos são alcançados exercitando: 1- Atenção

2- Coordenação ─ associação e dissociação ─ motora 3- Desenvoltura e consciência de utilização do espaço 4- Musicalidade

5- Memória

6- Percepção do ritmo por meio do movimento corporal

Medeiros considera fundamental para a vida em cena e fora dela a vivência do

presente amplificado ─ que reúne o tempo antes, durante e depois do momento presente ─

exercitado na prática de Rítmica Corporal. Refere-se a que o praticante não deve dizer “eu sei,

mas sim eu estou”, pois ao dizer que sabe já não está no presente, devendo apenas tentar

permanecer na experiência do fazer (MEDEIROS, 2010b). A artista-professora também sugere que essa experiência promove um esvaziamento, pelo fato de naquele momento

buscar-se estar no presente, e isso implica fazer determinadas escolhas atencionais por meio de tarefas corpóreo-musicais. Assim, o praticante esvazia-se de pensamentos alheios à tarefa e concentra sua atenção na ação no presente amplificado. Com contínuos desafios, Medeiros pretende tirar a sensação de domínio do praticante, colocando-o em estado de permanente alerta.

À pergunta sobre a finalidade da RCIM, paradoxalmente a artista-professora responde

que serve para nada. O “para nada” refere-se aqui à inexistência de um resultado concreto. “É totalmente abstrato. Tudo se refere à atitude. Você não leva para casa” (MEDEIROS, 2010b).

Assim como na sua proposição é clara a preponderância do estar sobre o saber, ela também considera que não se aprende algo específico na RCIM, mas experimenta-se estar numa prática específica.