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Observations of methane in the period 2001-2007

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3.1 Greenhouse gases with natural and anthropogenic sources

3.1.1 Observations of methane in the period 2001-2007

Nos séculos XV e XVI deu-se um importante passo no sentido de potenciar uma maior ocupação humana do espaço, procedendo-se ao encanamento da ribeira de Valverde, que passou a correr integrada na denominada Rede do Cano Real (Barros, 2014 : 88 a 93) (figura 5). Esta ribeira

era até então conhecida eloquentemente, como “rego das imundícies” (Macedo, 1962, I : 268).

Até meados do século XVI a zona situada para norte das Portas de Santo Antão, extramuros, era uma zona pouco urbanizada,

um vale muito chegado aos muros de muitas hortas que duma antiga ermida de santo Antão do ermo é chamado o vale de santo Antão, onde agora é o mosteiro de freiras da Anunciada, donde começa outro monte coberto de olivais, em cima do qual está a ermida de santa Ana (Oliveira, 1987 [1551] : 102).

A rua da Mancebia, situada por detrás do palácio dos Estaus, era o derradeiro arruamento que encerrava a zona urbana de Lisboa. Ficava implantado paredes meias com hortas e currais. Numa dessas hortas, a da Mancebia, ficava o “bairro das mundanas”,

A rua da Mancebia entestava pela parte de tráz com a Horta do mesmo nome e esta confinava com o muro do palácio dos condes da Castanheira (Castelo Melhor) à esquina da Glória. Ainda é afinal a nossa rua do Jardim do Regedor (Sequeira, 1916, I : 124).

Uma ocupação mais sistemática da zona iniciou-se em meados do século XVI, provavelmente relacionada com as obras de saneamento geral levadas a cabo na cidade de Lisboa nesse século, e nas quais se insere o já referido encanamento da ribeira de Valverde.

Os poderes municipal e régio consciencializavam-se acerca da necessidade de proteção do ambiente urbano e da relação existente entre as epidemias que grassavam frequentemente, nomeadamente de peste, e a falta de sistemas de saneamento eficazes (Barros, 2014 : 88).

No reinado de D. João II, em carta régia datada de 1484, a propósito da epidemia de peste que grassava em Lisboa afirmava-se que:

alguua parte de caussa destes maãos aares he a grande sugidade das esterqueiras e monturos, que em essa ha, e do entornar dos camareiros, q[ue] se non lançam honde deuem, uos encomendamos e mandamos q[ue] loguo com grande diligençia madaees alinpar todos os canos e monturos e esterqueiras per toda a dita çidade, de guisa q[ue] nenhuã çugidade em ella senom ache nem veja, e todallas Ruas e trauessas sejam muy limpas.20

Após a peste de 1486, o mesmo rei, noutra carta dirigida à Câmara, afirmava que uma das soluções para o problema das epidemias passaria por construir nalgumas

Ruas prinçipaaes canos mui grandes, e por as outras Ruas outros mais pequenos, q[ue] vaão teer a elles; e de cada casa cano q[ue] vaa teer aos sobre ditos, pr onde possam deytar suas agoas çujas e vir a

eles.21

A primeira proposta para a construção de um sistema de esgotos na cidade data precisamente desse ano de 1486. Esta propunha a articulação da recolha e da circulação das águas residuais entre os canos principais e secundários e ainda com os ramais mais pequenos ligados a cada edifício. A proposta foi considerada pelo rei como demasiado ambiciosa, acabando por se limitarem as obrigações aos canos de despejo que se encontravam ligados à rede geral, passando os particulares a ter tão somente de manter os referidos canos de despejo sempre bem limpos (Trindade, 2014 : 374).

Estas obras, levadas a efeito nos reinados de D. João II e de D. Manuel, tiveram lugar não só por se começar a suspeitar da ligação entre a propagação de epidemias e o deficiente saneamento básico da cidade, mas também porque se pretendia modificar a sua imagem, tornando-a mais consentânea

20 Carta régia, 1484 apud Oliveira, 1885, I : 347.

com o estatuto de capital imperial, eliminando-se os esgotos a céu aberto, inestéticos e fonte de maus cheiros.

Já anteriormente, entre os finais do século XIII e inícios do XIV, se procedera ao encanamento do córrego conhecido por “rego merdeiro” ou “rego”. Este córrego, que partia do Rossio e atravessava a Baixa, desaguando no Tejo, resultava da junção das águas da ribeira de Valverde com as de Arroios.

A partir do seu encanamento passou o trajeto a ser designado por “Rua nova do Cano que vae pera o Rocio”, “rua do cano novo” ou, ainda “rua nova que fizeram sobre o cano que se chama Rua Nova del Rei” (Trindade, 2104 : 374).

Figura 6 Traçado aproximado dos canos da cidade de Lisboa, final do século XVII, parte ocidental da cidade de Lisboa. Assinalámos na carta com uma oval a negro o cano proveniente do Valverde. Carta de João Nunes Tinoco (Silva, 1950 : Planta nº 1).

O cano de São Sebastião da Pedreira, que encanou a ribeira de Valverde e todas as descargas de águas que se lhe juntavam ao longo do percurso, incluindo as das inúmeras hortas e casais, tornou toda a zona situada entre as colinas de Santana e de São Roque, correspondente grosso modo ao vale onde hoje está implantada a avenida da Liberdade, mais estável e salubre. Apesar do encanamento ter disciplinado o corrimento das águas, este deve ter sido efetuado em grande parte do seu percurso a céu aberto, como se depreende da seguinte passagem:

Outro cano real que começa a S. Sebastião da Pedreira, que toma as aguas de todas aquellas ruas do chafariz de Andaluz, e Santa Martha, e vem por entre as hortas da Annunciada meter-se por baixo da Inquisição [palácio dos Estaus], (...) E aquellas aguas que se juntam ás portas de Santo Antão, ás casas da marqueza de Castello Melhor, é obrigação da cidade mandar-lhe dar correnteza até o cano real, e d’ahi para cima são obrigados os hortelões a trazel-o limpo cada um a sua testada que a elles lhes correm; porque em chovendo, se o não tem corrente, alagam-se-lhes as hortas.22

A sua instalação deve ter ajudado a reduzir a disseminação de agentes patogénicos e, ao reduzir as infiltrações, levou a uma consolidação dos terrenos limítrofes, abrindo caminho a médio e longo prazo à edificação.

Nesta zona, decerto como noutras da cidade, continuou a verificar-se a deposição de imundícies em terrenos não edificados. “As materias fecaes, bem como o lixo e outras immundicias eram vasadas nas esterqueiras e monturos, e d’ali transportadas para as praias; esta remoção, porém, fazia-se muito irregularmente.” (Oliveira, 1885, I : 463). Encontrámos, nos registos paroquiais de óbitos da freguesia de São José23, uma referência indireta a uma dessas situações, expressa na existência de uma travessa do Monturo.

22 Livro dos canos antigos da cidade : 12 a 17 v . Oliveira, 1885, I : 553 e 554. 23 ANTT, óbitos, 1666 e 1668.

Colocamos a hipótese de que a lentidão na urbanização do vale e respetivas margens se ficou a dever, pelo menos em parte, e apesar dos avanços verificados ao nível do saneamento e da consolidação dos terrenos, ao facto de estes problemas não terem ficado definitivamente resolvidos. Tal pode-se constatar numa carta de 1741, do secretário de estado dos Negócios do Reino, Pedro da Motta e Silva, ao vereador Manuel Martins Ferreira. Nela lê-se o seguinte:

Havendo-se representado a S. Magestade que as repetidas doenças que se experimentam no bairro de S. José, se originam em grande parte dos vapores corruptos que se exhalam de alguns canos descobertos que ha nas hortas d’aquelle districto, é o mesmo senhor servido que o senado mande logo notificar aos donos das ditas hortas, para que cada um cubra á sua custa o cano que lhe pertencer, até entrar no cano publico; encarregando, ao mesmo tempo, ao superintendente das obras, o fazel-o executar promptamente, como tambem a diligencia de cobrir, como entender, o que fôr pertencente á cidade.24

Quanto à generalização do saneamento básico, esta só ocorreria a partir de finais do século XIX, já fora do âmbito temporal do nosso trabalho, num contexto higienista e de melhoria da saúde pública (Pato, 2011 : 25 a 30).

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