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Nos registos de óbito mais antigos por nós analisados104 apenas se refere que determinada pessoa faleceu. Quando muito, mas nem sempre, é referida a profissão e / ou a categoria social do falecido.

A partir das primeiras décadas do século XVIII começou a registar-se se a pessoa falecera com ou sem sacramentos ou seja, se o passamento ocorrido tinha sido ou não, uma boa morte105. Caso não o tivesse sido, tentava-se

justificar essa ocorrência.

A 4 de fevereiro de 1721 referia-se um falecimento ocorrido na rua da Fé, sem sacramentos, justificado por se ter tratado de um caso de “morte

104 Relembremos que os registos de óbito realtivos à freguesia de São José apenas se iniciam

em 1666.

apressada”.106 Também se começaram a registar as mortes por acidente ou por homicídio que ocorriam igualmente sem a possibilidade de administração dos últimos sacramentos. A 10 de julho de 1721 referia-se que um aguadeiro pobre falecera de um acidente na rua da Praga; a 25 de julho de 1724 regista- se um sapateiro falecido por causa de uma estocada.107 A 15 de setembro de 1740 registava-se que “faleceo nesta freg.a de hum incendio sem sacram.tos M.ª da Costa v.a de D.os Roiz Espinhal. Foraõ sep.dos os ossos e cinzas no cimet.o desta Igr.a de q[ue] fiz estes as.to”.108 Referiam-se as causas não porque se pretendesse estabelecer uma listagem com propósitos estatísticos, mas porque estas mortes ocorriam sem que os devidos sacramentos fossem administrados, e morrer sem a administração dos últimos ritos podia significar a danação eterna. Nota-se o cuidado por parte do pároco em deixar registado que se tratavam de mortes súbitas, deixando claro que tal não dependera da vontade do falecido, que este não tivera forma de solicitar que lhe fossem administrados os últimos ritos. Com Trento mudava também a forma de se encarar e de registar a morte.

A morte em martírio deixava de ser considerada como a única morte gloriosa. São José morrera pacificamente, estabelecendo um modelo de boa morte109. Passava a colocar-se a ênfase num passamento pacífico, bem preparado através da administração dos últimos sacramentos. Receber os últimos sacramentos tornava-se uma prioridade da reforma tridentina, na sua estratégia de codificação e promoção dos sacramentos, sob ataque protestante (Black, 2006 : 135 a 145).

O momento do passamento de São José foi recriado pelo reformismo tridentino. Foi-lhe encenada uma morte exemplar e bem-aventurada, na presença de Maria e de Jesus. Presença que lhe permitiu

106 ANTT, óbitos.

107 Ibidem. 108 Ibidem.

109 A morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, constitui um dos últimos exemplos deste tipo

de morte em martírio, muito criticada, não só posteriormente, mas também à época, mais ainda tendo em linha de conta as responsabilidades da personagem em questão, que morreu sem deixar descendência.

o singular privilegio a poucos até agora concedido, que foi o de não sentir naquele ultimo período da vida, e angustias da morte os atrevidos assaltos do demónio nem o aspecto da sua vista horrorosa. (...)

Dai-me vossos braços, Filho amado, (diria Joseph ao redentor do mundo) e ainda que he officio do pai dar a benção, agora sou eu quem a peço, para que amparado della não me offendão as fúrias do inferno, e possa dormir descançado na vossa paz o sono da morte (Castro, 1761 : 228 e

229).

São José tornou-se desta forma o patrono da morte ideal, da boa morte. As cenas de São José moribundo de que as imagens da igreja de São José dos Carpinteiros constituem exemplo (figuras 25 e 26), mostram-no em paz, na companhia da mulher e de Cristo, a quem confiou a alma.

Estas cenas traduziam de forma facilmente compreensível para o comum dos mortais, nomeadamente para os fregueses das paróquias, a ideia católica da boa morte. São José tivera Cristo ao seu lado no momento do passamento, sendo por Ele redimido. Os fiéis, que tinham levado uma existência conforme aos preceitos doutrinários católicos e cujo passamento decorria na presença de um padre, representante de Cristo na Terra, podiam esperar também a redenção. Através da administração dos últimos sacramentos – penitência, extrema unção e comunhão – contavam também, nesse momento crucial de passagem, com a presença de Cristo, ainda que de forma simbólica.

São José passava a ser considerado como um veículo que conduzia ao céu as almas dos defuntos110. Neste contexto, surgiram e disseminaram-se imagens relativas à boa morte do santo, sendo a iconografia presente na igreja

110“Not only did Joseph appear to console his devotees, he also helped transport their souls to

heaven.” (Black, 2006 : 144).

Numa passagem do testamento de Josefa de Óbidos, citado por Joaquim Oliveira Caetano (2015 : 61), podemos constatar isso mesmo: “à Virgem Maria Nossa senhora e ao Patriarcha São Joseph para que com o Anjo da minha guarda e os mais Santos da Corte do Ceo e em especial a Santa Catherina e as onze mil Virgens para que todos me alcancem de divina Mizericordia perdão de meus pecados e que minha alma seja levada a sua gloria para que foi criada sendo deos servido de me levar para Si.”

de São José ilustrativa desta nova tendência (figuras 25 e 26). Assim se educavam os fregueses para a importância dos derradeiros ritos, administrados por representantes legítimos da Igreja e de Cristo no mundo – os párocos de cada freguesia. Assim se encerrava a existência terrena dos fiéis, do nascimento à morte enquadrada pela Santa Madre Igreja Católica.

Figuras 25 e 26

Passamento de São José.

Interior da igreja de São José dos Carpinteiros. Pintura a óleo sobre tela e painel de azulejos.

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