3 Hard fysisk aktivitet
3.2 Observasjoner under stridskurset
Em agosto de 2004, a Escola de Samba Vai-Vai trocou de carnavalesco e Raul Diniz iniciou seu vínculo com esta agremiação. Embora fosse um período, aparentemente tardio para dar início aos trabalhos para um desfile de carnaval, ele estruturou de forma rápida o desfile para o carnaval de 2005. Apreciado pela agilidade demonstrada, logo a diretoria da agremiação, tratou de estabelecer parceria com Diniz também para o carnaval de 2006.
Isso nos ajuda a entender a presença de alguns impressos recolhidos de seu arquivo, que revelam pesquisas feitas por ele na internet, desde o segundo semestre de 2004, sobre o
30 A LIGA das Escolas de Samba, determina em seu regulamento, a entrega de 33 pastas por cada escola à esta
instituição e discrimina os registros que devem estar ali contidos. A sinopse e a montagem do desfile fazem parte desta especificação.
tema que seria escolhido para o carnaval de 2006: “São Vicente, aqui começou o Brasil”. Os papéis ilustravam o histórico e os pontos turísticos de São Vicente, cidade do litoral paulista, considerada a mais antiga do Brasil. Os dados ali expostos, junto a outros, recolhidos em enciclopédias de sua biblioteca, formam a base das informações que esse profissional do carnaval utilizou para estruturar a sinopse do desfile aqui ilustrado.
Sobre o desenvolvimento deste tema encontramos três sinopses. As versões são bem semelhantes, e nos mostram índices de seu plano de estudo. Ora elas se complementam, ora se tornam mais esclarecidas, de acordo com a intenção do leitor que ele pretende atingir.
A primeira sinopse tinha como objetivo imediato demonstrar, à diretoria da escola, o tema que haviam decidido explorar. Esta foi impressa em papel tamanho A3 e na borda superior continham imagens pertinentes ao tema enredo proposto31. (figura 16)
Figura 16- Imagens recolhidas e ordenadas por Diniz para ilustrar a sinopse apresentada aos componentes da Escola de Samba
Fonte: Acervo de Raul Diniz
Havia outra versão de sinopse, que nos foi prontamente fornecida, além de uma terceira e última, a qual encontramos no arquivo do computador do carnavalesco.
Ao observar essas três sinopses elaboradas por Diniz, ratificamos a afirmação de Salles (2000, p.26) em que:
o artista vai levantando hipóteses e testando-as permanentemente [...] diferentes possibilidades de obra habitando o mesmo teto. Convive-se com possíveis obras: criações em permanente processo. As considerações de uma estética presa à noção de perfeição e acabamento enfrentam um texto em permanente revisão. É a estética da continuidade [...].
31Este impresso só nos foi cedido após o término do carnaval de 2006, no início do mês de março. Diniz tem o
hábito de montar uma pasta com os originais de todos os figurinos, alegorias e a sinopse e detém consigo este arquivo móvel, que o acompanha por todo o período que procede aos trabalhos, nos locais em que desenvolve o carnaval
2.1.1.1 - Primeira Sinopse – um aspecto diferencial
Diniz tem uma característica peculiar no desenvolvimento de seus trabalhos, sempre marcado pelo capricho e pela preocupação com os detalhes. Estes cuidados transparecem em seus desenhos e na orientação que dá a sua equipe para a construção das alegorias ou fantasias, em que se preocupa com as minúcias, que aparentemente poderiam passar despercebidas a um leigo. Ele justifica seu estilo ao declarar que “são nos detalhes que se ganha um carnaval”. Tal característica, observada nesse profissional, em parte justificada por sua experiência na área publicitária, é notada e enaltecida pela imprensa do meio carnavalesco: “Raul Diniz é criativo, alternativo, caprichoso e intelectual. É tudo que se espera de um carnavalesco” 32.
A primeira sinopse, elaborada por ele, tem características visuais diferenciadas das demais. A forma escolhida para a apresentação desse documento já é em si um argumento para comunicar e convencer o grupo de dirigentes da Escola a aceitar o tema proposto e aderir à sua sugestão. A aceitação do enredo, no caso do carnaval 2006, agilizaria o processo, pois o assunto já havia sido escolhido e decidido pela cúpula da Escola junto ao carnavalesco, além de já existir um acordo, com a Prefeitura de São Vicente, que seria a patrocinadora desse carnaval.
Ao observarmos a elaboração da sinopse em questão, notamos que Diniz, desde as primeiras etapas do processo de criação para o carnaval, tem a intenção de comunicar o que ele desenvolve e buscar a adesão à sua idéia. Como afirma Salles (2004, p.42): [É a] “constatação de que a criação é um ato comunicativo”. Para atingir sua meta e causar certo impacto, as folhas escolhidas para imprimir e expor esse registro, por exemplo, tinham o tamanho A3. Outro recurso usado por Diniz, nesse percurso da sinopse, com o propósito de gerar um diferencial no momento de sua apresentação, foi aplicar uma tira com ilustrações coloridas na borda superior de cada folha, que faziam menção ao texto (figura 16).
Essas ilustrações foram imagens buscadas e encontradas pelo carnavalesco em um CD, encontrado em uma revista, comprada por ele em uma banca. Ao escolhê-las, ele as ordenou de forma que elas se conectassem com as informações expostas no texto.
Essa busca de Diniz em querer diferenciar o seu texto, para atender a sua intenção de comunicar e convencer os demais membros da Escola é estendido a outras práticas de seu processo de criação e de produção do desfile. Ao fazer e refazer projetos, seja acrescentando
novas informações aos textos, seja elaborando fantasias e alegorias, notamos o seu cuidado em sempre querer diferenciar e valorizar sua criação.
O carnavalesco nos relata a sua constante intenção de querer fazer um carnaval cada vez melhor e aprender com os erros mesmo quando termina um trabalho, como a construção de um carro alegórico, permanece sempre um olhar de insatisfação em relação à obra acabada, pois, segundo ele, suas idéias já se transformaram no decorrer do processo da construção do carro e, se fosse possível, faria tudo de outra forma.
Mário de Andrade compartilhava desse mesmo sentimento. Segundo Salles, ele afirmava ser a arte uma doença, por representar uma insatisfação humana e “o artista combate a doença fazendo mais arte, outra arte. Fazer outra arte é a única receita para a doença estética da imperfeição”. A autora complementa seu pensamento e defende que “[este é] um processo que fica sempre por se completar, um desejo que fica por ser totalmente satisfeito”. (Salles, 2004, p. 30-31).
Em relação às seis imagens que foram selecionadas e aplicadas por Diniz na parte superior das folhas A3 do texto da sinopse, notamos e identificamos, de forma clara, a intenção de suas escolhas. As quatro primeiras iconografias faziam menção ao começo do desfile, mais especificamente, um forte índice para a leitura do que se estruturará como Comissão de Frente e o CAA. Para dar maior importância a essas duas representações, Diniz seleciona tais imagens para enfatizar a sua mensagem e reforçar a argumentação.
Algo intencional que demonstra a singular preocupação com esta primeira etapa do espetáculo.
Descrevemos abaixo as seis imagens (figura 16), para que possamos fazer a leitura do que afirmamos acima.
Primeira Imagem : uma caravela
A caravela é o motivo da parte central do CAA. O meio de transporte que desbrava os mares tenebrosos e traz a delegação portuguesa para as terras tupiniquins.
Segunda Imagem: retrato de Martim Afonso de Sousa
Um dos personagens de destaque da performance criada para a Comissão de Frente é Martim Afonso de Sousa, fundador da Vila de São Vicente. A orientação é para que este personagem, que vem na caravela e faz parte do CAA, durante a evolução do desfile, desça do carro e interaja na avenida com o personagem de João Ramalho.
A proposta central da encenação do corpo de atores participantes da Comissão de Frente é encenar a chegada e recepção da delegação portuguesa por João Ramalho e um grupo de nativos. É um recorte que ilustra os primeiros momentos do desembarque em terras Vicentinas, pela expedição colonizadora.
Quarta Imagem- João Ramalho abraça um curumim
Esse personagem ganha destaque, na proposta da performance da Comissão de Frente, como parceiro da índia Bartira e facilitador do contato entre nativos e colonizadores.
Quinta Imagem- Escravo sendo açoitado em um pelourinho
O segundo carro alegórico ilustra o primeiro engenho de açúcar do Brasil, estabelecido em São Vicente, e a mão de obra escrava usada para este desenvolvimento econômico.
Sexta Imagem- Cúpula da nobreza portuguesa
Segundo Diniz, essa imagem foi colocada aleatoriamente, mas observamos que o CAA vem ocupado por vários personagens que ilustram a corte portuguesa.
A partir do estudo da elaboração da sinopse, construída por Diniz, notamos parte das várias tendências e escolhas intencionais que direcionam o processo de criação. São fins condutores por ele estabelecidos, não lineares, que começam a ganhar maior definição. Salles (2006, p. 22) expõe essa dinâmica que direciona a construção de uma obra:
O estado de dinamicidade organiza-se na confluência de tendências e acasos, tendências essas que direcionam de algum modo, as ações, nesse universo de vagueza e imprecisão. São rumos vagos que orientam, como condutores maleáveis, o processo de construção das obras.
2.1.2 Sinopse: a gênese de um samba de enredo
“NAVEGAR É PRECISO
De costas para Castela e de frente para o mar, a única forma de Portugal expandir seus domínios
era transpor a imensidão dos perigosos e solitários oceanos que separavam esses dois mundos”
Figura 17 – Texto que Diniz toma e aplica no início de uma das sinopses desenvolvidas Fonte : Fascículo “Brasil 500 anos”, p. 12, editora Abril – Acervo de Raul Diniz