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Mental ytelse og sinnsstemning

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3 Hard fysisk aktivitet

4.3 Mental ytelse og sinnsstemning

Nos textos das sinopses do carnaval de 2006, notamos vários trechos com informações que se repetem em outros textos desenvolvidos por Diniz, como o desenvolvimento e a montagem. Citaremos alguns trechos em que o autor evidencia as questões do Mar Tenebroso (citado em letras maiúsculas na sinopse) para que possamos estruturar a nossa análise do processo de construção do símbolo que se corporificará para representar este mar.

Nas sinopses, o autor expõe: “Sua única saída [em relação a Portugal] era um oceano imenso e desconhecido, que o imaginário povoava com monstros e mitos. Portugal precisava navegar para sobreviver, e lançou-se ao Mar Tenebroso, como chamavam o oceano Atlântico [...]”

Em um registro da montagem (o roteiro) do desfile, Diniz intitula a segunda ala como “o imenso mar tenebroso”. Já no início do texto do desenvolvimento, Diniz relata “[...] a

única forma de Portugal expandir seus domínios era enfrentar as águas desconhecidas e enfrentar a imensidão dos perigosos e solitários oceanos. O imaginário povoava esse mar tenebroso com monstros e mitos”.

Na pasta que foi entregue aos jurados, no texto do desenvolvimento, ao discriminar o CAA, ele inicia com a citação: “Navegar é preciso, enfrentar monstros e mitos desse mar tenebroso [...]”.

Notamos que a idéia do Mar Tenebroso é constante nos textos. Assim que este elemento ganha consistência, ao longo do processo, como conseqüência, o carnavalesco busca modos de materialização do tenebroso mar.

Para melhor compreensão da encenação dessa “ópera do asfalto”, termo usado por Joãozinho Trinta, as informações imagéticos devem se acoplar às idéias da letra do samba enredo para traduzirem no mesmo tom a história do espetáculo.

É interessante observar que nos versos da composição de um dos sambas enredo desclassificado e que, segundo o carnavalesco, era o seu preferido, os músicos se aproximaram bastante, por meio das palavras, desse espírito aventureiro dos portugueses, citado nos textos de Diniz:

Foi preciso navegar Desvendar o mar hostil, E assim, Portugal se expandiu,

Lendas, mistérios, um imaginário de horror, Finalmente terra a vista por aqui chegou ooo!!! Desembarque bravamente colonizou

Um outro samba, que ficou entre os três finalistas, e que ganhou a simpatia de Diniz, trouxe versos mais amenos quando descrevia o mar:

“[...] Desbravando o oceano Em sua história quero navegar

Lá vou eu, nessa viagem de encantos mil [...]”

Esta letra, apesar de não explorar de forma incisiva o aspecto da viagem e dos temores do mar, talvez tenha ganhado simpatia do carnavalesco por não ter citações diretas do termo “Mar Tenebroso”. Segundo Diniz, uma boa composição deve ir além do que é exposto na sinopse, assim como foi explorado na letra do samba de sua preferência.

A música, segundo ele, quando composta, deve traduzir as informações da sinopse, mas de forma equilibrada. Trazer as idéias e as palavras da sinopse para a letra da música, da

mesma forma como são expostas no texto pesquisado, declara falta de criatividade dos músicos. O excesso de informações nas composições também é visto como um aspecto negativo para Diniz, pois muitos dados, às vezes desnecessários, comprometem a clareza do tema a ser narrado.

O samba vencedor fala do mar em seu início e, de uma forma mais romântica, usa a palavra “tenebroso”:

“[...] Amor eu vou, vem navegar, nas ondas desse mar

Vai–Vai nos levará a viajar [...] Terra à vista

Depois de atravessar o tenebroso mar [...]”

Nos esboços do CAA analisados, notamos como Diniz busca concretizar esta imagem simbólica do mar tenebroso e transmitir o temor que os navegadores sentiram no trajeto da navegação. Justifica-se, assim, o surgimento da tridimensionalidade da alegoria, que se constitui por intensa combinação de imagens bidimensionais como fotos, pinturas, desenhos, etc.

Raul Diniz tem o hábito de fazer pesquisas imagéticas no seu ateliê (figura 4). Ele visita constantemente seus arquivos, buscando as ilustrações em seus livros e revistas de sua biblioteca (figura 3), além de suas antigas produções, registradas em fotos ou preservadas em desenho. Quando deseja uma informação mais específica ou necessita ampliar sua pesquisa, ele recorre a novas imagens na internet. (figura 5).

Foi dessa forma, com o auxílio das imagens pesquisadas que o carnavalesco construiu o mar tenebroso. Vejamos alguns exemplos e os procedimentos por ele usados, para dar conta de estruturar imageticamente este símbolo.

O caranguejo é uma figura que aparece logo no início da montagem desse carnaval. Na capa da sinopse, apresentada aos compositores (figura 25), e nos selos que Diniz criou para identificar os trabalhos de cada carnaval (figura 26), aparece a ilustração de um crustáceo sorridente, com características que se aproximam de um personagem infantil. Segundo depoimento do carnavalesco, a imagem do caranguejo, como símbolo desse carnaval, surgiu de sua lembrança dos vendedores que expõem estes animais em cambadas45, à beira da estrada, no caminho de São Paulo para a baixada santista.

Figura 25 - Capa do texto da sinopse Figura 26 - Selo de identificação do do carnaval de 2006, entregue aos CAA, no carnaval de 2006.

compositores. Fonte: Acervo de Raul Diniz Fonte: Acervo de Raul Diniz

Entre os registros analisados, encontramos um impresso com figuras marinhas (figura 27) e outro, de um cisne acoplado a uma embarcação envolto em nuvens (figura 28).

Figura 27 – Imagens marinhas coletadas por Diniz Fonte : Acervo de Raul Diniz

Figura 28 - Imagem do cisne nas nuvens coletada por Diniz Fonte: Acervo de Raul Diniz

Figura 29 - Primeira arte final como proposta para o CAA, do carnaval de 2006, na Vai-Vai Fonte: Acervo de Raul Diniz

Essas figuras podem ser reconhecidas na primeira arte final (figura 29), das três que foram elaboradas por ele. Neste desenho, observamos, à frente do CAA, um crustáceo gigante, seguido por uma caravela, que apresenta um cisne branco coroado na proa. O crustáceo da arte final (figura 29) traz bastante semelhança com a figura impressa (figura 27). Um aspecto sisudo que o diferencia do caranguejo de ares infantis exposto nos selos (figura 26) ou na capa da sinopse dos compositores ( figura 25).

Abaixo ilustramos os três crustáceos (figura 30) para serem observados

Figura 30- Semelhança da feição dos crustáceos (acima), e a imagem do animal sorridente (abaixo) Fonte : Acervo de Raul Diniz

Encontramos o rascunho dessa primeira arte final (figura 29), no canto superior de uma folha com um desenho que passou a ser descartado (figura 31). A nova proposta substituiria os três golfinhos que, embalados pelas ondas, acompanhavam a embarcação. Aqui, com a opção do crustáceo, podemos observar a tendência de Diniz em optar por figuras menos pueris e mais bravias.

Ratificamos essa última observação quando tratamos do cisne desenhado por Diniz. O animal apresenta uma expressão de ira, diferente da ave da imagem pesquisada, que traz um semblante sereno (figura 32).

Figura 31- Rascunho do CAA. Acima, em tamanho menor, o registro que gerou o desenho da primeira arte final

Fonte: Acervo de Raul Diniz

Figura 32 – Através das feições dos cisnes, da imagem pesquisada (esq) e dos desenhos do carnavalesco, notamos através dos traços do supercílio e do bico da ave, a expressão diferenciada entre elas.

Os dois cisnes, tanto o do desenho da arte final como o da ilustração pesquisada, envolvem parte da caravela com suas asas, que são brancas. A imagem do cisne da ilustração pesquisada por ele (figura 28) é iluminada por um clarão e envolta por nuvens, e ainda deixa um rastro de estrelas por seu caminho, indicando uma mensagem de sonho e pureza. Mesmo com asas brancas, símbolo de pureza e paz, o cisne desenhado pelo carnavalesco, nesta primeira arte final, por ter a expressão sisuda, transmite a sensação de braveza.

Nesta proposta, até o momento considerada a arte final, o CAA é contornado por pequenas ondulações no tom azul, que indicam a água do mar, mas pouco movimentada, o que sequer se aproxima da aparência de um mar agitado e longe de ser raivoso.

Embora Diniz já tivesse desenvolvido este desenho, na ocasião, com todas as características de finalização, ele continua suas buscas, pois, como se pode observar, a intenção exposta nos textos, parece não ter sido ainda alcançada pelas imagens dos desenhos.

Fayga (1987, p.71) descreve essa busca e a indeterminação do indivíduo em sua elaboração criativa:

Conquanto exista uma predeterminação interior que o impulsione e também o orienta, algo que, ao iniciar o trabalho, o indivíduo mais ou menos pressupõe e imagina, há ainda, e sempre, uma enorme distância entre aquilo que se imagina e os fatos concretos que o trabalho apresenta.

Salles (2004, p. 54) discute esta busca como uma tendência, com certo grau de vagueza, que acompanha o artista no processo de criação. “O estado de criação mantém a sensibilidade suspensa, à espera e à procura de sensações que, na medida em que ativam sensivelmente o artista, são criadores”.

Nas sinopses e no texto do desenvolvimento, Diniz escreve uma frase, constituída por conceitos que induzem a uma imagem de Mar Tenebroso e que serão bastante presentes no seu processo de criação do CAA. Vejamos: “[...] era um oceano imenso e desconhecido, que o imaginário povoava com monstros e mitos”. A ênfase nas repetições dos sentidos que transmitem alguns termos e que definem o tipo de mar encontrado pelos navegadores, nos indicam seu propósito. Quando observamos alguns esboços, onde o carnavalesco desenha alguns estereótipos de monstros, a idéia imaginária do mar tenebroso passa a estar mais materializada e a tomar forma e consistência.

Através da análise dos rascunhos podemos acompanhar suas tentativas.

Notamos em traços bem finos, em um rascunho que aparentava ser um dos primeiros do CAA, formatos que nos lembram uma silhueta de um jacaré. Um réptil grande e de olhos

esbugalhados. Em outro rascunho, pudemos ver um grande polvo, com olhos saltados, à frente de uma caravela. Um animal semelhante a um dragão também surge (figura 33), como tentativa de ilustrar um monstro marinho que, segundo seus próprios textos, ocupava o imaginário dos navegadores, no imenso oceano desconhecido.

Figura 33- Desenho de um dragão como tentativa de encontrar um monstro marinho que representasse o Mar Tenebroso

Fonte : Acervo de Raul Diniz

Observamos, ainda, neste último desenho, um outro, à parte, de um tubarão com dentes aparentes e bem afiados. Encontramos um estudo desta imagem, em outra anotação, onde ele cria uma forma acoplada do peixe com a embarcação. (figura 34).

Figura 34- Estudos de Diniz com os possíveis tubarões para representarem o monstro marinho no CAA Fonte: Acervo de Raul Diniz

Essas grandes figuras marinhas parecem ainda não atender ao objetivo de síntese pretendida pelo artista. Diniz traz, então, uma outra imagem para atender a sua intenção, no que diz respeito aos mitos. Observemos que a palavra “mitos” é escrita nos textos das sinopses e acompanha a idéia dos “monstros”: “[...] era um oceano imenso e desconhecido, que o imaginário povoava com monstros e mitos”.

Em um desenho, o carnavalesco traz para a alegoria a imagem de Netuno. O texto de um dos livros da biblioteca de Diniz, constantemente pesquisado por ele, quando o tema tratado é mitologia, mostra uma imagem (figura 35) e um texto explicativo deste Deus grego: “Deus dos mares e dos terremotos e irmão de Zeus. Estava ligado aos cavalos e carregava uma lança de três pontas, o tridente”.

Figura 35 – Imagem de Netuno, Figura 36- Desenho de Netuno, feito por Diniz, pesquisada por Diniz, ilustrada com o deus à frente da caravela, com seus cavalos em um de seus livros de pesquisa. que representam as ondas do mar.

Fonte: Acervo de Diniz Fonte: Acervo Raul Diniz

A imagem de Netuno é, então, exposta por Diniz à frente da caravela com uma expressão de onipresença e determinação (figura 36). Assim como no mito, o desenho traz o

Deus com seu tridente empostado e envolto aos cavalos. A mitologia conta que estes animais fazem parte de sua carruagem e eles se assemelham às ondas do mar. O personagem escolhido, um deus, teria os poderes sobre a terra e as marés. As histórias de Netuno narram a sua vingança, mas, acima de tudo, o identificam como o protetor dos viajantes do mar. Esse deus da mitologia, ao que parece, não representa o monstro da intenção de Diniz, fazendo com que ele abandone a idéia.

O acompanhamento do processo criativo nos mostra que as definições explicitadas na sinopse passam a funcionar como elementos de referência para o processo de construção do CAA. Com o propósito de criar o monstro, sem abandonar as características mitológicas, o profissional cria uma espécie de crustáceo com algumas características do deus Netuno. A figura encontrada foi o Gigante Adamastor, que já citamos no capítulo anterior. “[Essa] figura mitológica criada por Camões para significar todos os perigos, as tempestades, os naufrágios e ‘perdições de toda sorte’ que os portugueses tiveram de enfrentar e transpor nas suas viagens”. 46

No último desenho para o CAA (figura 20), para manter a imagem do Mar Tenebroso, além dos “monstros e mitos”, Diniz apresenta muitas ondas envolvendo a alegoria, que sugerem o “imenso e perigoso oceano” a ser cruzado pelos navegadores .

Conhecemos, assim, o percurso de criação de Raul Diniz - suas tentativas para criar um símbolo que tinha como propósito comunicar as aventuras dos portugueses no século XVI. Pudemos notar, através de suas escolhas, que as figuras que não traziam o aspecto qualificado e interpretado como tenebroso, eram descartadas.

Para a construção do CAA, devido a alguns problemas que apontaremos a seguir, Diniz cria outro perfil do monstro marinho e o redesenha para o escultor esculpi-lo.

O Gigante Adamastor, relacionado à mitologia grega e ilustrada nos versos de Camões, em “Os Lusíadas” (anexo 8), para representar o Cabo das Tormentas, perde alguns aspectos deste personagem, como a barba e o rosto humanizado. Ele ganha traços mais rudes, que o aproxima mais da imagem de um monstro (figura 37).

Figura 37- No barracão da Vai-Vai, a escultura do monstro, feita em isopor e forrada com papel para depois ser pintada ou forrada.

Fonte: Do próprio autor em 11 fev.2006

Com a criação do monstro, que foi exposto na avenida, ratificamos a nossa observação em relação ao processo de Diniz, de que ele buscava uma imagem que mais se aproximasse do que seria simbolicamente tenebroso ( figura 38).

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