4.3 Real-time texturing for domain adaptation
4.3.5 Object instance detection
A partir deste momento, demarcaremos o que vem ser então uma escola de referência, atentando para a particularidade que constitui o locus de nossa pesquisa, que é pública em regime de convênio e, que atua sob a égide de ser referência nacional em gestão escolar. Intentamos perscrutar o que vem a ser uma escola de referência. Ao que ela se propõe? A serviço de quem ela está? Quais os pontos de convergência e os pontos de divergência revelados? Quais são as singularidades que apresentam, e por fim, alguns elementos de síntese e crítica.
Inferimos que uma escola de referência é aquela que pode servir para visualização de práticas propositivas, servir de modelo, como uma pista, o norte de um caminho a ser seguido. Neste sentido, o significado está eivado de possibilidades positivas, adjetivadas como algo que pode efetivamente ter boas qualidades.
Voltada ao atendimento desses propósitos, esta seria então a escola que poderia corresponder aos interesses da população trabalhadora. Deveria, portanto, servir ao atendimento da formação dos filhos desta classe, a qual tem sido negada uma educação de qualidade. Um projeto educacional capaz de propiciar a estes chances de disputar, por exemplo, as vagas das universidades públicas. A possibilidade de que os mesmos possam competir com seus concorrentes de maneira menos desigual.
Uma escola que fosse capaz de propiciar um ensino de qualidade113 e ao mesmo tempo dignificante, edificante e sólido, na qual os alunos pudessem ter acesso e permanência com efetivas qualidades sócio-educativas. Um lugar onde efetivamente
113 O sentido que adotamos, de acordo com Santos (2002) é de “uma qualidade no sentido de uma educação socialmente includente, em todos os seus aspectos, uma qualidade de processos, em direção às mudanças requeridas notadamente em favor das populações sempre alijadas dos benefícios que a ciência e o progresso podem gerar. (p. 132, 133).
houvesse a garantia de acesso aos conteúdos básicos necessários para o desenvolvimento da autonomia intelectual e política; que fosse capaz de promover efetivas práticas mobilizadoras do exercício consciente da cidadania.
Lugar onde os diferentes sujeitos envolvidos (professores, gestores, servidores em geral, e famílias) efetivamente fossem comprometidos, respeitados, valorizados e exercitassem os preceitos de responsabilidade e ética profissional, da solidariedade e do respeito mútuo, por fim, onde os sentimentos de coletividade e pertencimento pudessem de maneira deliberada e autonomamente, ser evidenciados nas práticas constitutivas desse espaço.
Ficou evidente que na escola onde fizemos nossa pesquisa há uma constante busca na consecução desse objetivo de tornar-se referência. Ainda que digam que esse não é o objetivo maior da escola, percebemos que a escola se organiza e reorganiza suas diferentes ações em função do objetivo de ganhar os prêmios, que isso, ao final, é algo que faz bem à escola, que está refletido no sentimento deles:
[...] não só ser uma escola de referência nacional, isso é bonito, porque também é gratificante para os professores, “poxa vida que bom, somos campeões!” [...]. [...] não pra dizer que somos melhores. Eu digo sempre aqui, nós não queremos ser melhores que o colégio A, B ou C, temos que superar a nós mesmos, se depois de um dia chegarmos ao primeiro lugar, tá bom. No IDEB do Pará, nas escolas públicas nós somos em sétimo lugar, quer dizer que tem outro na nossa frente, mas mesmo se estivéssemos em primeiro lugar nós deveríamos superar a nós mesmos. Então eu também acredito muito nesta positividade dos prêmios, temos chance [...] (IF)
Talvez a positividade da premiação resida no orgulho, no bem estar, na crença de que ser premiada torna a escola diferenciada, por isso os sujeitos se organizam para tanto. Ao identificar, por exemplo, o lançamento do um edital de prêmio de gestão, a escola passa a se preparar, se mobiliza toda para concorrer. Quando tem projetos, mesmos os de áreas específicas (ciências, artes e etc) todos se envolvem. Em alguns momentos, como é o caso do auto da barca114, ela respira o projeto.
Para a efetivação dessas atividades, eles se organizam em torno de ações que envolvem: reuniões entre corpo administrativo e docentes, apresentação e discussão do edital, as metas são estabelecidas, as estratégias são montadas e processos de
114 Projeto multidisciplinar, que e desenvolvido anualmente pela escola, também referência em premiação.
acompanhamento e controle são definidos e utilizados passo a passo, tudo de modo planejado e bastante participativo.
No dizer deles, IC revela que:
[...] Isso faz parte, está no planejamento [...], mas não adianta só a escola estimular e não haver o interesse do professor e do aluno. [...] não há um direcionamento, um encaminhamento, mas há um estímulo para que os professores e alunos possam estar desenvolvendo esses projetos, se inscrevendo, participando [...]
Em função desse planejamento, como vimos acima, esta “reorganização do trabalho escolar” é feita, mas, segundo a maioria dos entrevistados, isso não implica em “negociação de princípios”. Eles não se sentem enredados, seduzidos pela premiação, ao contrário o sentimento entre eles é de que efetivamente precisam se envolver e participar das ações que melhoram o trabalho desenvolvido na escola.
Acerca disso, IC nos diz:
[...] eu acho assim, esses prêmios que nós temos, para a imagem da escola eles contribuem. A premiação, ela ajuda muito, mas eu não posso atribuir isto à qualidade da educação, nós temos outros fatores que são importantes, vai do próprio compromisso pessoal, buscar desde o nosso juramento enquanto professor [...] eu deveria estar fazendo meu papel mesmo.
Nesta declaração, percebemos o quão tênue é o limite de uma e outra noção, como transita o limite entre a incorporação das estratégias de regulação e do compromisso dos sujeitos. Ou seja, a fala sinaliza para o fato de que a escola efetivamente parece não percebe que esta preparação para concorrer aos prêmios pode ter efeito regulador da organização da escola, da gestão e dos processos de efetivação do trabalho pedagógico.
Apesar desta consideração, é correto supor que tais ações tenham implicações sobre a organização da escola e, consequentemente, sobre a subjetividade de professores, funcionários e alunos da escola, já que as ações de organização da escola para a concorrência dos prêmios são carregadas de valores e crenças. E que o desenvolvimento desse conjunto de atividades, que segundo eles ocorre de maneira coletiva, é o que definitivamente vai contribuir mais ou menos para a formação de um tipo humano específico. Um ser concorrente e pragmático, características bem próprias
dos tempos de neoliberalismo, que dentre outras coisas, reforça o indivdualismo, o utilitarismo e a meritocracia, como se pode observar na fala a seguir:
Não basta ser uma boa escola. A escola tem que mostrar. Por isso que eu insisto, uma das insistências que temos é no sentido de valorizar os bons exemplos. Não é desprezar os outros, é estimular os outros, essa discussão é pra alguns “não porque somos todos iguais! Somos todos iguais em dignidade mas não em resultado! (IF)
Na escola, esta lógica é incorporada de forma ativa e geral, entre os sujeitos. Dentre funcionários, professores e alunos, percebemos a presença de um forte sentimento realização profissional e de satisfação pessoal. No dizer de IE nesta escola onde, ao se perguntar aos professores e funcionários sobre a possibilidade de saída da escola, a resposta é um categórico não: “(...) quem gostaria de sair daqui da escola levanta o braço! Nenhum!”