4.4 Style-transfer GANs for bridging the domain gap
4.4.2 Baseline methods
A ambigüidade se revelou na efetiva participação dos sujeitos nos processos de tomadas das decisões centrais da vida escola e na percepção de que há algumas premissas sobre as quais não há negociação. Em alguns momentos verificamos o caráter colegiado das decisões sobre a organização da escola, mas em outros parecia se legitimar práticas conformadoras das políticas de dominação, expressão da configuração da tendência moderna de gerenciamento das políticas públicas de cunho liberal e mercadológica, que vem sendo incorporadas gradativamente nos espaços públicos e, em particular, nas escolas.
O caráter ambíguo de que falamos, pode ser visto, por exemplo, na configuração que atualmente vem tendo o PPP, instrumento vivo naquela escola, discutido e construído de maneira coletiva. Certamente, um dos maiores instrumentos de identidade democrática que uma escola pode ter. No São Francisco, particularmente, vimos revelada a ambigüidade acima mencionada, pois, o mesmo resulta de processos de tomada de decisão coletiva, assume o trabalho coletivo como referência, mas também evidencia, fundamentalmente, os princípios originários de sua mantenedora – a diocese de Abaetetuba – de fundamentação Cristã orientada pelo catolicismo, princípios que para nós parecem colocados naquele espaço como inegociáveis.
Nas versões que acompanhamos de 2004, 2008, até atual versão em reformulação – 2011 / 2012, o PPP é
[...] um instrumento qualitativo fundamental para a gestão de nossa escola. Pois ele é um documento que expressa todas as motivações necessárias à compreensão de um modelo de escola baseado nos princípios cristãos e científicos. Traduz- se num instrumento de ações que resultaram do trabalho coletivo e do
compromisso de sua comunidade escolar com uma escola cidadã e para todos115.
Aqui vimos reafirmado um conjunto de orientações que se encaminham no sentido da incorporação gradativa de elementos que se legitimam diretamente articulados com os fundamentos de uma lógica que apregoam o sentimento de cooperação, da motivação, dos referenciais e modelos de escola a ser adotado, e por fim, o apelo aos princípios cristãos, tão bem demarcados na escola e que parecem ser “inegociáveis”, apesar de incompatíveis com o princípio da laicidade que deve prevalecer nas escolas financiadas com recursos estatais.
É inegável a efetiva participação dos sujeitos na definição da organização da escola, como por exemplo, o funcionamento ativo do Conselho Escolar – representativo e deliberativo e, da Associação de pais e mestres, que reúnem mensalmente e deliberam sobre as questões mais importantes da escola, mas é inegável também o caráter restrito desta participação. Foi muito presente na fala dos entrevistados (e perceptível em nossas visitas) a existência de um forte sentimento de participação em torno “da escola”, fazendo das práticas ali desenvolvidas uma atividade de “construção coletiva”.
Neste sentido, percebemos que os valores unificadores das ações dos diferentes profissionais são assumidos como coletivos e revelam-se a primeira vista tão fortes, que sobre eles parece não haver nenhuma discussão antagônica. Chamou nossa atenção em diferentes momentos, o sentimento de pertencimento e solidariedade que predomina dentro da escola, mesmo nos momentos de tensão e conflito. Ouvimos dos nossos informantes que “na hora de brigar todo mundo se expõe, mas na hora de se abraçar, de comemorar, pronto, tudo passa, somos uma família (IA)”.
Tal prática, pautada em valores unificadores aproxima-se assim dos elementos de conformação e encobrimento, que de acordo com o que dissemos anteriormente revelam o caráter restrito da democracia vivida na escola, onde também não se coloca
115 Grifos nossos.
em discussão a compreensão do significado e da força que as palavras assumem, e também, do caráter perverso de atitudes e valores de perspectiva mercadológica e qual o serviço a que se propõem. De acordo com Leher (2002)
Com efeito, a combinação do neoliberalismo com a ideologia da globalização criou disposições ideológicas assentadas em valores, normas, atitudes, aptidões, que, apesar de aparentemente corresponderem ao interesse de todos, interessa mais particularmente ao grupo dirigente (LEHER, 2002, p 197).
Tal como observa o autor, na escola assumem-se princípios, ideias e valores da igreja e do mercado como se fossem de todos. Evidentemente tais elementos são próprios de grupo(s) social(is) específico(s) e reveladores de sua leitura de mundo, neste caso especificamente, mais vinculados aos valores da igreja e do mercado.
Historicamente, tal perspectiva se adequa aos interesses econômico-produtivos prevalecentes em nossa sociedade, identificada com a lógica neoliberal, que tem tido força para regular diferentes esferas da sociedade, inclusive das escolas, subordinando a educação ao atendimento do modelo hegemônico de organização e de gestão do trabalho.
A educação escolar parece impactada por estas formulações que os sistemas de ensino, principalmente as escolas, tiveram que incorporar nas suas práticas, assumindo como sua função social prioritária à preparação de sujeitos aptos a desempenharem seu papel dentro desta nova configuração de sociedade. Mas, no caso do CSFX, à idéia de uma política de descentralização no interior da escola e da incorporação de princípios da gestão escolar democrática também aparecem como contraponto a esta lógica como referência para uma gestão que sinaliza democratização.
Assim, de acordo com o PPP – 2011, o fim precípuo da Escola está voltado para:
[...] o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, promovendo o cidadão com capacidades para produzir conhecimentos, e ser protagonista frente às diferentes dimensões da realidade: cultural, social, familiar, esportiva, política e ética.
A escola se compromete em formar um indivíduo capaz de atender às múltiplas exigências da sociedade em que está inserido, capaz de produzir, resolver problemas,
adaptar-se, produzir resultados, comportar-se harmonicamente e ser protagonista da sua própria história, bem afeito a conjugação dos fundamentos políticos, econômicos, sociológicos, psicológicos e filosóficos que, para atender ao mercado, se constituem em uma engrenagem cuidadosamente encadeada para a composição de sujeito totalizante, harmônico, sensato, espirituoso, de atitude, equilibrado e cristão.
Desta forma, não causa estranheza a idéia de que a dinâmica empresarial parametrada pela política da qualidade e de resultados venha sendo tão bem incorporada nos distintos processos de construção das práticas escolares e nas diversas maneiras de organização do trabalho desenvolvido nas escolas e no São Francisco Xavier.
Portanto, o apelo participacionista e a ambigüidade são marcas da organização da escola de gestão premiada. A participação efetiva é limitada por alguns valores aparentemente inegociáveis. O conteúdo cristão da formação, a referência ao mercado e o compromisso com uma educação de qualidade, soa os indicadores precípuos da escola, tendo em vista o apelo participacionista, onde todos são conclamados a ocuparem seus lugares e responsabilidades, tendo como foco os resultados a serem alcançados, conjugando isto como mérito de todos.