4. PRESENTASJON AV FUNN
4.2 Nytilsatte nyutdannede lærere – utfordringer og ønsker for veiledningen
Apesar dos/as adolescentes das Unidades pesquisadas falarem sobre aspectos referentes ao modo de ensinar dos professores, conteúdos curriculares também foram apontados por eles como mobilizadores de aprendizagens. Segundo Charlot (2001)
“O que é aprendido só pode ser apropriado pelo sujeito se despertar nele certos ecos: se fizer sentido para ele. Porém, o sujeito só pode aprender se entrar em certas atividades (...) que permitem apropriar-se deste saber ou deste aprender (...) Trata-se propriamente de uma dialética e não de uma simples complementaridade: o sentido atribuído a um saber leva a envolver- se em certas atividades, a atividade posta em prática para se apropriar de um saber contribui para produzir um sentido desse saber ” (p. 20).
Desta forma, nota-se que na relação do aluno com o saber está em jogo tanto o assunto abordado com os alunos, como a forma com que esse assunto é compartilhado.
No caso dos/as adolescentes entrevistados/as foi possível perceber que eles valorizavam saberes estimulados por meio de alguns conteúdos em detrimento de outros, ou seja, nem todos os temas trabalhados em sala de aula foram apontados por eles como importantes nos processos de ensino-aprendizagem.
3.3.4.2 Tema Família e Relações Sociais
Certamente, o tema que abordava aspectos relativos à concepção de família foi um dos mais significativos para os/as adolescentes que participaram das entrevistas.
“Família patriarcal, família escrava muito legal (...) Porque estudar nossos antepassados, porque eu acho que todo mundo, os brasileiros têm uma origem de um negro escravo, de um índio, de um senhor patriarca (...)” (adolescente UIP F, 10/03/04).
“(...) eu aprendi bastante que família não é só laço de sangue, mas sim um vínculo afetivo (...)” (adolescente UIP F, 03/06/04).
“(...) aqui nós estamos vendo que é importante pra nossa vida, a organização da família que nós somos uma família, que a família não é representada apenas por parentes, por amigos também (...)” (adolescente, UIP M, 08/03/04).
“Bom, o mais importante foi na parte da família, família patriarcal e família escrava (...) Além de ser negro eu vi ali que a família escrava sofria muito diante da família patriarcal (...)” (adolescente, UIP M, 08/03/04).
ser, de fazer ser (...) as mulheres (...) eram ensinadas para ser dona de casa, esposas e mãe e hoje já tem seus próprios afazeres (...)” (adolescente, UIP M, 08/03/04).
“Já criou o conhecimento entre nós (...) Ontem eu tava conversando com a senhora [professora] porque o dia da mulher (...) foi porque antigamente a mulher ela não tinha tanto direito, aí (...) ela começou a conquistar o direito dela (...) Aí foi dado o dia pra ela, o dia da conquista dela (...), mas foi uma luta de anos e anos (...)” (adolescente, UIP M, 08/03/04).
“(...) família não é só família biológica, família engloba uma união de pessoas (...) se tiver um afeto entre eles aquela união já vai ser uma família independente do local, de cor, de raça, independente, houve união, houve um afeto é uma família” (adolescente, UIP M, 08/03/04).
Além da concepção de família discutida nesse tema, havia atividades que trabalhavam com conhecimentos matemáticos que também eram comentados pelos/as alunos/as durante as conversas.
“Da geometria eu gostei, porque a gente desenhou uma casa (...) eu desenhei a minha casa, aí as meninas desenharam as casas delas, e falou assim [a professora]: “(...) vamos ver qual é a figura que mais aparece ali em geometria?”. Na minha geralmente aparece mais o retângulo, o quadrado, o retângulo” (adolescente UIP F, 10/03/04).
3.3.4.3 Tema Saúde: uma questão de cidadania
O tema Saúde também foi bastante comentado pelos/as jovens nas duas Unidades. De acordo com eles, trata-se de um assunto importante para ser trabalhado na escola.
“O tema que eu achei também (...) super importante foi o tema Saúde. Nós tivemos uma palestra das doenças, da DST, das doença transmissível, uma coisa que muitas vezes nós ta lá fora, nós não sabemos que existem essas doença” (adolescente UIP F, 03/06/04).
“(...) a pessoa aprende [com o tema Saúde] a se prevenir e prevenir o próximo também. Não só a si mais o próximo também (...)” (adolescente UIP F, 03/06/04).
“Ajuda a gente a aprender mais, ainda mais sobre saúde, foi a ficha que eu mais gostei que eu não sabia nem um pouquinho, pelo menos a metade das doenças né? Então as fichas me ajudou a saber e eu posso passar pro meu filho também dos caminhos da...os caminhos, as portas de entrada, as portas de entrada (...) eu não sabia que as unhas, nariz, a boca, ouvido eu não sabia dessas portas de entrada que a gente podia pegar doença por esses lugares, as fichas me ajudaram a saber que eu não sabia nem um pouco” (adolescente UIP F, 17/10/03).
eu jogo futebol, conforme você joga seu futebol corre bastante; fala [o tema saúde] sobre a pulsação, sobre os batimentos mais fortes (...) fala sobre o corpo humano, porque você tem que cuidar do seu corpo, que é a física e sua mente, você tem que cuidar bem (...)” (adolescente, UIP M, 08/03/04).
3.3.4.4 Tema Justiça e Cidadania
Outro tema que os/as jovens falaram sobre conteúdos foi o Justiça e Cidadania que tratava de questões legais, mais especificamente do Estatuto da Criança e do Adolescente.
“Eu aprendi que todos nós temos direitos à vida; aprendi que todos nós temos direitos e responsabilidades (...) aprendi sobre o ECA (...) Gostei muito da professora E. porque ela me ensinou muitas coisas que nem passavam pela minha cabeça. Eu acho que a escola da FEBEM fez um pedaço da minha vida” (adolescente UIP F, 27/02/04).
“Porque os temas eles já vai logo na realidade, fala logo sobre os nossos direitos (...) eu não sabia dos direitos que nós tinha. Nós jovens infratores não sabíamos que nós tínhamos o direito de estudo, que nem muitas pessoas falam que não tem vaga, não tem escola (...)” (adolescente UIP F, 03/06/04). “Coisas que eu desconhecia eu tô aprendendo através desse projeto, por exemplo, eu tinha alguns conhecimentos sobre leis, sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, mais eram conhecimentos assim poucos e aqui pude me aprofundar nesses conhecimentos, conheci meus direitos (...)” (adolescente UIP F, 10/03/04).
Estes não foram os únicos temas trabalhados no projeto, mas a idéia foi priorizar os que nas entrevistas os/as alunos/as apontaram como mais significativos, na medida em que ao falarem sobre o assunto explicitaram aspectos sobre conteúdos. Importante destacar também que apesar de ser UIP, de modo geral, os/as adolescentes que participaram das entrevistas já tinham vivenciado os cinco temas previstos para o período escolar.
Sobre as oficinas, foram relatadas experiências com algumas delas e a de Artes Cênicas foi, sem dúvida, a mais comentada pelas meninas da UIP F.
“Ah, eu adorei quando a gente fez teatro (...) eu adoro. Se tivesse mais (...) oficina (...) que tivesse interpretação (...)” (adolescente UIP F, 10/03/04).
“Aí nós fizemos a oficina, o nosso objetivo da oficina era estar criando um personagem (...) nós fizemos tipo um gay (...) Foi tipo um teatrinho assim, tinha que representar (...) foi (...) a oficina que eu mais gostei (...)” (adolescente UIP F, 03/06/04)
Nas entrevistas com os meninos da UIP M sobre o projeto, eles, de modo geral, falaram de conhecimentos relativos aos temas. Os comentários sobre oficinas foram pontuais e frágeis na explicitação de conteúdos.
Interessante que os jovens da Unidade F e M falaram sobre o desinteresse pelo ensino regular e compararam os conteúdos desenvolvidos na escola da rede com os da UIP, como apontam os depoimentos.
"(...) fiz (até o colegial), mas aquilo assim, fazer porque era obrigação, porque eu não gostava, só que aqui dentro eu estou percebendo que esses módulos são uma coisa diferente do que o estudo lá fora, aqui dentro você se interessa mais porque fala sobre justiça, lei, família. É uma coisa mais interessante que nas escolas, não são os mesmos estudos, aí a pessoa começa a se interessar mais" (adolescente UIP F, 03/06/04).
"(...) eu estou aprendendo algo que fala sobre educação, família, sobre algo que não é passado na maioria das escolas, foi esquecido, algo que é importante pra nossa vida, nosso dia-a-dia que tá esquecido (...)" (adolescente UIP M, 08/03/04).
O trabalho com conteúdos que discutem questões sobre a realidade dos/as alunos/as pode contribuir para que eles/as se interessem pelas aulas. Segundo Charlot (2001) o sentido e o valor de um saber e também a mobilização do sujeito nesse aprender são indissociáveis da relação do indivíduo com o mundo.
Assim, enquanto a escola regular não considerar as necessidades e realidades de seus educandos em seus projetos para planejar o ensino, dificilmente os/as jovens terão interesse ou encontrarão sentido naquilo que está sendo ensinado.
“(...) talvez o pouco valor que os jovens conferem ao aprendizado de conteúdos curriculares não seja resultante do seu “desinteresse”, e sim da sua dificuldade de encontrar “sentido” para aquilo que os professores ensinam; sentido este que estaria presente se, por exemplo, em uma aula de português, ao ler um texto literário ou jornalístico com os alunos, o professor não se limitasse a trabalhar apenas a forma da escrita, mas também abordasse o conteúdo tratado e sua relação com o contexto em que foi produzido e com as próprias vivências concretas dos jovens” (Charlot, 2001, p.47).
Sobre a relação dos/as jovens com o projeto Educação e Cidadania, vale comentar a fala de um adolescente que estava no ensino médio antes de ir para a UIP M e que explicitou sua insatisfação com o conteúdo da proposta curricular.
diferente então eu sinto falta daquilo entendeu? Porque eu gosto de estudar pra caramba na área de exatas eu gosto pra caramba. A senhora citou matemática, eu sinto falta pra caramba aqui” (adolescente, UIP M, 08/03/04).
Como na Unidade Provisória o período máximo de permanência previsto é de 45 dias, a proposta curricular implementada nesse contexto não procurava aprofundar conhecimentos específicos. Pelo contrário, o projeto buscava justamente atender as especificidades da internação provisória, na qual há possibilidade do/a adolescente ficar de um a quarenta e cinco dias.
Nos casos em que os/as jovens ultrapassavam esse período, nota-se nos depoimentos que houve desmotivação pelo projeto ao repetirem os temas.
“Aí tem hora que você fala: “Ai falar sobre a minha família de novo!”. Aí você encosta e fica só ouvindo os outros falarem” (adolescente UIP F, 10/03/04).
“(...) a gente já estudou isso o ano passado” (adolescente UIP F, 10/03/04). “(...) eu tinha que ir lá pro internato pra terminar os estudos lá (...)” (adolescente UIP F, 10/03/04).
“(...) gostaria de estar aprendendo outras coisas porque isso daqui eu já estudei de Família (...) de Família eu gosto, agora eu queria saber um pouco mais de ficha nova, as matérias novas também, ia ser mais legal também” (adolescente UIP F, 03/06/04).
“Então tipo eu estou (...) fazendo o módulo tudo de novo. Porque da 1ª vez que eu fiz eu estava naquela coisa assim tipo maior empolgada, agora eu estou fazendo pela 2ª vez (...) não sou só eu da minha sala” (adolescente UIP F, 03/06/04).
Certamente temos aí três dificultadores na implementação da política educativa pretendida. O primeiro diz respeito ao direito do adolescente que já está com a sentença de internação decretada pelo juiz de estar em uma UI. O segundo refere-se ao direito de estudar em uma escola cujo ensino é organizado da mesma forma que nas escolas regulares. E o terceiro é relativo ao desinteresse dos/as jovens pelas atividades, em virtude da permanência em uma UIP.
Sem dúvida, esses aspectos prejudicam a eficácia da proposta curricular. Trata-se, portanto, da descaracterização das Unidades de Internação Provisória.