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3.6. Ny-England: et idealsamfunn
De imediato, entendemos que uma poética, diferentemente de uma estética que diz respeito a uma tentativa de conceber o que é arte, anseia por determinar elementos normativos, instituindo cânones, parâmetros e idéias programáticas com o propósito de atingir certo nível artístico exigido por uma linguagem artística entre outras. Mesmo assim, segundo Freitas, qualquer poética acaba tendo também pretensões de ordem estética, já que quando se salienta o programa de uma arte, a idéia de que ele não apenas mais um entre vários outros prevalece no sentido de representar uma consciência avançada do trabalho artístico. (Cf. Freitas, 2004, p. 96).
Notamos que na palavra “ação” pressupõe-se uma forte característica do ser
humano de agir livremente, realizar um trabalho livre. A propósito, animais, plantas, objetos não agem. A própria divindade manifesta-se ou não, mas, não age. Paradoxalmente, percebemos que no processo de modernização ocorre uma dinâmica que por sua vez, pode ser compreendida por uma atividade ou ação, decorrente do papel das idéias e da cultura. Portanto, não podemos deixar de aludir a uma ação hegemônica que seria produzida pela atividade dos intelectuais e alimentada pela luta de classes.
Essas observações, segundo a interpretação de um sentido evocado pela palavra hegemonia nos interessam, sobretudo, sua concentração que reside nos meio cultural e ideológico. 153 Com os quais, podemos observar que os grupos dominantes na sociedade preservam seu domínio, assegurando o consentimento espontâneo dos grupos subordinados. Nessa acepção, significa que através de um plano pautado num consenso político e ideológico reuni-se tanto o grupo dominante, quanto o grupo dominado. 154
Esta questão é central para o entendimento da noção de progresso na modernidade e sua influência, na situação brasileira vivenciada por Machado de Assis, cujas impressões são manifestas em ato, através de Aires. Pode-se observar que o
153 Antonio Gramsci (1891-1937) em seus trabalhos menciona variações em seu conceito de hegemonia
sempre procurando descrever os modos de controle social disponíveis ao grupo social dominante. Porém, de um modo geral, para a concepção gramsciana “... a hegemonia de uma classe política significa que esta obteve sucesso em persuadir as outras a aceitar seus próprios valores morais, políticos e culturais”. Isso envolveria o uso mínimo da força, como se sucedeu no século XIX no que diz respeito aos regimes liberais. (Joll, 1977, p, 99).
154 Salientamos que a distinção entre controle coercivo (ameaça do emprego da força) e controle
consensual (assimilação voluntária a hegemonia do grupo dominante) empreendida por Gramsci, permite- nos tratar o termo colonialismo de um modo amplo e certamente mais filosófico. A idéia de colonialismo expressa “... a subordinação sistemática, que gera certo domínio de determinados agentes estrangeiros, sobre ouros nacionais, fundando-se numa inferioridade do subordinado no subordinante, aceita ou imposta”. Cf. Mario Ferreira dos SANTOS, O Problema Social, 1964, p. 133.
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desenvolvimento do mundo burguês, e com ele a expansão do capitalismo, está diretamente relacionado com a idéia positivista de progresso e a questão do projeto nacional brasileiro. No momento em que o trabalho escravo no Brasil deixa de existir, nota-se um processo de separação radical entre o produto das mãos do trabalhador e a relação dele com as pessoas que utilizavam seu produto.
Da alienação do trabalho passa-se a alienação das pessoas, de si mesmas e das outras pessoas. Portanto, uma transformação do menos em mais se dá de fato dentro domínio delimitado, ou seja, o progresso transformado em mito torna-se uma reafirmação da família patriarcal brasileira, através de seus herdeiros diretos. Notamos Aires, neste caso, como um herdeiro debilitado e como duplo de Machado não expressa uma atitude positiva diante do progresso emergente. Assiste tudo como se estivesse manipulando títeres em uma peça patética, mas que resulta em obra acabada para uma leitura amena a primeira vista.
E somente através dos escritos de Aires - Machado pode-se notar o exercício de sua liberdade, pois de uma forma ou de outra imprime seu ponto de vista. De acordo com Bosi, aprofundando o campo de visão pode-se detectar em certas obras “uma tensão interna que as faz resistente, enquanto escrita, e não só, ou não principalmente, enquanto tema.” (Cf. Bosi, 2002, p. 129). Percebe-se que neste trabalho livre, reside uma antinomia que se refere à insignificância e limitações de sua obra, enquanto expressão de uma modernidade incipiente e periférica. Somos levados a perguntar o que estaria por trás disto.
Uma resposta imediata diz respeito à idoneidade da própria obra literária machadiana em sua dimensão realista. E um aspecto faustiano envolvendo diretamente os cadernos escritos de Aires, e com isso a afirmação de um escritor machadiano na acepção da palavra, trata-se de seu caráter de resistência. Aires seria o próprio testemunho da narrativa que ele próprio empreende, num cotidiano rotineiro em que subjaz a pachorra e alienação política.
Porém, notamos aí um dado de resistência no resultado da obra, que como tal abarca o questionamento e a ambição faustiana em sua realização tentada. O escritor imita sim a vida, da qual o seu sentido social e dramático é ignorado pelos personagens entorpecidos ou automatizados por seus hábitos cotidianos. Ora, neste sentido, tanto em
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Esaú e Jacó quanto no Memorial... a escrita machadiana torna-se, através de Aires – Fausto, antinômica e resistente.155
Ora, no Fausto de Goethe é evidente a recusa de conceder um valor supremo à “palavra” (o verbo), humana ou divina. O que detectamos como uma resistência associada ao mito de Fausto como tal. Neste âmbito, observamos que Fausto é um verdadeiro turbilhão se compararmos ou o trouxermos pra perto do pacato Aires, e seu envolvimento em meros acontecimentos rotineiros em uma comunidade de ambiente periférico. Fausto rumina o pensamento em seu trabalho de escritor, e como tal o impele violentamente, por exemplo, subvertendo a primeira frase do Evangelho de S, João – “No princípio era o verbo”:
(...)
Devo doutra maneira traduzi-lo, Se me inspira o espírito. Está escrito Que “No princípio era o Pensamento”. – Medita bem sobre a primeira linha, Apressada não seja a pena tua! Anima, cria tudo o pensamento?
Devera estar – “Era ao princípio a Força!” – No momento porém em que isto escrevo
Diz-me uma voz que aqui não pare. Inspira-me A final o espírito! Alvitre,
Solução enfim acho: satisfeito,
“No princípio era a Acção!” – escrever devo. (...) 156
155 Reconhecemos, pois na obra machadiana em questão aquilo que Bosi trata como uma escrita de
resistência, ou seja, uma narrativa atravessada pela tensão crítica. Uma obra literária que mostra a realidade brasileira em seu contexto, sem retórica nem alarde ideológico, mas, sobretudo privilegiado em seu sentido textual, o que se refere ao “... ramerrão de um mecanismo alienante, precisamente o contrário da vida plena e digna de ser vivida”. (Bosi, 2002, p. 130).
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Porém, a questão que fica é justamente a que tipo de Fausto estaria referendado o tal Aires. Entendemos, pois que em Aires – Machado ainda reside o caráter faustiano por uma via antinômica central que se refere à questão do duplo, além do individuo Aires nos possibilitar o reconhecimento de um alte-ego, sim, mas da sociedade brasileira do século XIX. Ora, fica-nos evidente que o duplo torna-se pulverizado e está identificado com toda a sociedade.
Como escritor personagem, Aires manifesta toda a tensão e melancolia relacionada com um mundo sem perspectiva alguma de mudança que abarque a sociedade brasileira. Compreendendo, pois que o mito de Fausto é duplo (Fausto – Mefistófeles), sobretudo no sentido de que como representante da subjetividade, e que em Aires se dá em sua própria condição de escritor, como tal apontamos a aspiração de “... encontrar o mundo objetivo, superando assim as contradições de seu ser por meio de uma ação sobre o mundo”. (Cf. Brunel, 1997, p. 268).
No caso do próprio Machado de Assis como aquele que se desdobra de um modo antinômico faustiano em Aires, não obstante as inúmeras funções de sua produção textual destacam-se ainda, na esteira de Facioli, como a obra machadiana “(...) é a chave de uma experiência de vida e de texto que remete para concepção de livro”. (Facioli, 1982, p. 46). E retomando o aspecto antinômico de confinamento e amplidão que reside no trabalho artístico literário, acrescentamos que em Machado e consequentemente em Aires, identifica-se “(...) a busca da totalidade, a realização do absoluto no universo parcial da produção artística, como forma de dar conta da tarefa
histórica da humanidade para a produção e a sua emancipação”. (Facioli, op. cit.). Com a hipótese de um Aires escritor, o consideramos como personagem de
temperamento faustiano na medida em que ele combina em si as feições de Fausto e de seu compadre Mefistófeles. Desta forma, admitimos o preceito valeryano na proposição de um Fausto, ou seja, Paul Valéry157 sugere que tais personagens têm o direito a todas as reencarnações. E por sua vez, aquele que cumprisse o intento de elevá-los a um ponto
157 Paul Valéry na advertência de seu Fausto, ainda sugere que nada demonstra de maneira mais segura o
poder de um criador como a infidelidade ou a insubmissão de sua criatura. Quando mais vivo ou vivido o personagem for realizado, mais livre o será. E sua própria rebelião exaltará seu autor. Valéry acrescenta uma dimensão de significativa extensão do aspecto que entendemos como faustiano, e que nos apropriamos do seu significativo alcance na obra literária, incluindo a que tratamos diretamente nesta tese, levando em conta sua contextura: “El creador de estos dos, Fausto y el Outro, los engendro tales que llegaron a ser después de él instrumentos del espíritu universal: exceden lo que fueron em su obra. Lês dió “trabajos” más que papeles; los consagro para siempre a la expresión de ciertos extremos de lo humano y lo inhumano, y por ello, desligados de toda aventura particular. Me he atrevido, pues, a utilizarlos”. (Cf. Valéry, 1956, pp. 07- 08).
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mais alto de existência poética, deveria impossibilitar para sempre a qualquer outro ficcionista toma-los novamente por seus nomes. E neste sentido, ainda teria que obrigá- los a suscitar e a manifestar em novas combinações de acontecimentos e de palavras. (Cf. Valéry, 1956, p 07).
Assim, sugerindo Aires (Fausto – Mefistófeles) como um duplo de Machado, pode-se observar o desdobramento da perspectiva de um escritor faustiano através seus
cadernos manuscritos. Em ambos os romances em que a figura de Aires é tida como um escritor ficcional, cujo ponto de vista é biográfico, ao mesmo tempo nos leva ao conhecimento dele próprio em seu contexto cultural. Destarte, a dimensão da realidade brasileira na modernidade, envolvendo de modo imprescindível sua problemática sócio- política na gênese da formação de um sentido nacional, tem como centro a experiência do próprio Aires. Podemos notar, nesta acepção, a inserção da obra machadiana em questão num aspecto sociológico que reside na constituição do próprio gênero romance. Numa perspectiva sociológica que leva em conta a origem do romance, Goldmann (1913-1970) nos faz notar que tal gênero literário se define como “(...) a história de uma busca degradada de valores autênticos, por um herói problemático, num mundo degradado”.158 O que nos permite uma compreensão da situação criativa que passou a ser identificada como a segunda fase da obra machadiana, cujo ápice ocorre nos dois últimos romances de que tratamos. Sobretudo, se admitimos ainda de acordo com citado teórico marxista francês, que o romance seria “(...) a transposição para o plano literário da vida cotidiana na sociedade individualista nascida da produção para o mercado” (Goldmann, 1967, p. 16).
No caso do Brasil, notamos que no contexto em que se dá o processo de modernização não há evidencias de uma sociedade burguesa de fato, e sim de uma elite, cuja feição de poder está fortemente associada à herança da sociedade senhorial que é patriarcal (que Faoro prefere chamar de sociedade estamental). Isso nos permite identificar a defasagem histórica em relação ao romance europeu, que pelo seu próprio contexto de produção já investia nas relações sociais mais modernas. Portanto, a antinomia que aqui tratamos como faustiana já se dá no questionamento que a produção literária brasileira (periférica) permite realizar em relação à literatura européia (centro).
158 Salientamos que essa significação que diz respeito à gênese do romance já se encontra delineada no
jovem Georg Lukács, cuja teoria tem como leitmotiv a irreparável cisão que se dá no mundo moderno entre a interioridade e a exterioridade.
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Cabe-nos ressaltar neste âmbito, um ponto de vista que é bastante caro a Machado de Assis. Trata-se de um perfil pessimista que verificamos manifestar-se no mito de Fausto, ou seja, que se relaciona diretamente a satisfação plena do homem, seja pela busca do saber ou pela dominação da natureza, e ainda a ânsia de atingir a totalidade. No Fausto de Goethe tal aspecto é notável para a identificação de uma angustia, ou mesmo de uma tensão insolúvel, podemos detectar na obra machadiana (especificamente nos cadernos... de Aires) numa perspectiva da realidade sócio-política brasileira do século XIX, que por sua vez vislumbra um horizonte de modernidade em sua condição periférica:
“Só duma aspiração tens consciência; Oh! não queiras jamais sentir a outra! Duas almas habitam no meu peito, Uma da outra separar-se anseiam: Uma com órgãos mat‟riais se aferra Amorosa e ardente ao mundo físico; Outra quer insofrida remontar-se De uma excelsa origem às alturas...”159
Levamos em conta, pois, que a única possibilidade de síntese de pensamento e de ação que o conivente Aires realiza sobre o “mundo”, notadamente um ambiente incipiente sócio-político que aspira um horizonte nacional como parte da totalidade, se dá apenas dialeticamente como um “arguto escritor” ou através da literatura. Sem perder de vista que o discreto empreendimento literário de Aires é ele mesmo fruto de um trabalho artístico literário maior, o que nos permite a abordagem da questão nuclear do pacto demoníaco na dimensão do artista (escritor) moderno numa nação periférica. 160
159 Cf. Johann W. GOETHE, Fausto,1987, p. 70.
160 Com esse delineamento de raciocínio, nos apropriamos da acepção que Thomas Mann ao mito de
Fausto. Mann, na concepção de seu ultimo romance Doutor Fausto, teve como plano de trabalho um pacto entre o artista moderno e o diabo. Partindo da noção de que em determinados artistas reside o melhor de sua melancolia justamente “(...) onde ele mais longe chegou, e há sempre beleza e emoção em ver um talento específico, devido a sabe-se lá que encadeamentos de circunstâncias, atingir o ápice de sua capacidade.” (Cf. Mann, 2001, p.21). A obra trata de um compositor Leverkühn – Fausto e naturalmente têm fortes referencias a música moderna, não obstante é concebido como um complexo romance de época e de cultura, e na esteira de Adorno “(...) uma crítica profunda da situação artística e sociológica, de extremo refinamento e atualidade (...)” e também no que se refere ao destino próprio destino da Alemanha. (Idem, op. cit).
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Entrementes, ao ressaltar num primeiro plano que a figura de Aires como um duplo de Machado, significa em nossa proposta procurar ajustar uma realidade que se transforma em ficção, uma ficção que absorve o real. Que representa uma mistura de poética, discernimento crítico e situação histórica nacional no plano dos romances de
Esaú e Jacó e do Memorial... Ao mesmo tempo notamos na obra machadiana a expressão de uma via significativa que expressa a situação da arte, da cultura, do ser humano e do próprio espírito criativo numa época absolutamente crítica da formação social, política e econômica de um país como o Brasil.
Observamos, pois, no Aires duplo de Machado o objeto de uma poética, especificamente faustiana por sua ambição literária e modernidade, um desvio lingüístico, uma violação do código de sua linguagem romanesca em relação às obras anteriores. Nota-se, pois, a partir das impressões de Aires anotadas em seus cadernos
manuscritos, para além da galeria de personagens que ali se encontram, podemos deparar com uma espécie de alter ego da sociedade brasileira. Que neste caso, assume um caráter de representação que vai se tornando cada vez mais explícita, no contexto e desenvolvimento da obra machadiana.
Neste ínterim, podemos aferir na relação escritor-escritor ficcional / autor- personagem autor, além de nossas pontuações que dizem respeito diretamente à questão do duplo machadiano, uma capacidade de representação do poder de representação. De acordo com Hermenegildo J. M. Bastos esta noção nos aproxima do tratamento dado por Auerbach para mimesis.
Bastos aponta que a mimesis trata-se de um ato capaz de tornar algo presente, o que nos faz entender para além da noção de representação no sentido de reprodução de algo preexistente. (Cf. Bastos (H), 2006, p. 92). Destarte, mimesis passa a significar uma atividade de apresentação. Deste modo, ainda segundo Bastos, “... pode-se captar tanto a idéia da natureza „construída‟ de qualquer representação da realidade quanto a idéia de que não existe uma coisa como a representação (no sentido único e unitário) (...)”. 161
Essa ultima aferição, nos permite notar uma maturidade de escritor em Machado de Assis, decorrente de um pacto com a situação histórica nacional vigente no século XIX. Identificamos, pois, este pacto com o referencial mítico faustiano da modernidade,
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ou seja, Aires como um duplo apresenta a antinomia que por um lado, reflete uma cumplicidade com o próprio autor Machado de Assis e, portanto, imprime um ponto de vista e uma condição de escritor. E por outro lado, é conivente, omisso com a situação vigente. A antinomia faustiana, neste caso, reside no trabalho livre de escritor, sua ambígua perspectiva de classe (Aires - Fausto) e o testemunho direto e também cúmplice (Aires – Mefisto) de uma alienação social periférica que paradoxalmente aspira um horizonte de nação.
De um modo amplo, podemos notar que o resultado do trabalho de Machado não desconsidera as contradições internas notadas na história da literatura brasileira. Mas que, além disso, e, sobretudo, diz respeito a um processo de modernização dependente e um projeto de nação, cujo povo do qual o próprio Machado tem sua origem, é desprezado pelas elites.
No dizer de Celso Furtado, o povo “(...) era reduzido a uma referência negativa, símbolo do atraso...”, atribuído de significado nulo à sua herança cultural não européia e recusada a validade de sua criatividade artística. Neste sentido, “... a ironia sutil com que Machado observa esse povo tem o sabor de uma escusa em face de um tema proibido”. (Cf. Furtado, 1984, p. 23).
São notáveis em Esaú e Jacó os sortilégios mefistofélicos que identificamos em Aires em relação às posições políticas, que devem promulgar o destino nacional brasileiro. Referimo-nos, neste caso, especificamente à transição do regime monarquista para o republicano no Brasil do século XIX.
Sem perder de vista que Aires é o escritor ficcional e narrador da situação e, observando-o em sua desfaçatez na cena do CAPÍTULO XLIV / O SALMÃO. Aires tem como interlocutores os gêmeos Pedro (monarquista) e Paulo (republicano), os quais também se identificam como duplo e, em nossa proposta, especificamente do próprio Aires. Nesta passagem pode-se observar uma das evidências do elemento antinômico
faustiano que consideramos na tese. O motivo do encontro, um trecho de um discurso de Paulo que teria suscitado um debate familiar, no qual “... Aires pôs água na fervura, dizendo ao futuro bacharel:
- Não vale a pena, moço; o que importa é que cada um tenha as suas idéias e se bata por elas, até que elas vençam. Agora que outros as interpretem mal é cousa que não deve afligir o autor.
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- Afligir, sim, senhor; pode parecer que é assim mesmo... Vou escreve um artigo a propósito de qualquer cousa, e não deixarei dúvidas...
- Para quê? inquiriu Aires. - Não quero que suponham...
- Mas quem duvida dos seus sentimentos? - Podem duvidar.
- Ora, qual! Em todo caso, vá primeiro almoçar comigo um dia destes... Olhe, vá domingo, e seu irmão Pedro também. Seremos três à mesa, um almoço de rapazes. Beberemos certo vinho que me deu o ministro da Alemanha... (...).
Ao almoço, ainda se falou do artigo, Paulo com amor, Pedro com desdém, Aires sem uma nem outra cousa (...). Aires estudava os dous rapazes e suas opiniões. Talvez estas não passassem de uma erupção de pele da idade. E sorria, fazia-os comer e beber, chegou a falar de moças, mas aqui os rapazes, vexados e respeitosos, não acompanharam o ex-ministro. A política veio morrendo. Na verdade, Paulo ainda se declarou capaz de derribar a monarquia