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Den norske kulturen

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6. Idealer og optimismen, et verdigrunnlag

6.4. Den norske kulturen

Devemos nos dar conta de que Aires não se trata de nenhum Fausto brasileiro no contexto de transição do Segundo Império para o período republicano, ou seja, qualquer vinculação direta ao adjetivo fáustico nos remete à idônea recriação e releitura do mito na modernidade por parte Goethe.

E neste caso, existe uma diferenciação fundamental que apontamos por um lado, no alcance da literatura alemã e a ação de Goethe no contexto europeu na primeira metade do século XIX. Por outro lado, o ambiente brasileiro vivido por Aires que reflete a transição política e o desenvolvimento de uma visão nacional em seu processo de formação. 213

Num primeiro momento, o contexto de Aires parece se distanciar dos aspectos conflitantes envolvendo individuo e sociedade num ápice de influência atingido pela classe burguesa. Neste sentido, pode-se identificar uma tentativa de recalcar a imposição dos mecanismos herdados da empresa colonizadora e evitar os constantes conflitos que lhe são decorrentes.

Porém, a trajetória de Aires se revela malograda, ou seja, aquilo que é recalcado tem a propensão de retornar inconscientemente através do próprio discurso que pretende negar, o que nos faz notar uma contradição central. O nosso personagem se acomoda de tal modo à realidade brasileira, que tende a confirmar as aspirações de uma pequena burguesia, evidentemente abarcado pela hegemonia burguesa européia da qual Aires retorna ao Brasil.

Neste contexto notamos um aspecto que é caro à literatura brasileira e especificamente no realismo machadiano, ou seja, a questão do local e do universal.

Tratamos de acentuar o caráter antinômico desta situação que temos como inconciliável no personagem Aires. Em tal contradição observamos a questão do

213 Não há como ser indiferente aqui à questão que envolve o nacionalismo literário. Se no contexto

cultural de Goethe os aspectos do nacionalismo correspondem ao caráter combativo e inovador, o seu oposto tende a corresponder de modo determinista num ambiente colonizado, vivido por Machado, na medida em que tais aspectos cristalizam em ideologia estética e política. Ora, o esforço de identificação e valorização das raízes nacionais brasileiras de certa forma torna-se pretexto para o estabelecimento de um discurso idealizante e ufanista que sublima diferenças e problemas sociais, debilitando todo movimento crítico e criativo. Cf. Célia PEDROSA, Nacionalismo Literário, p.290.

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trágico, que é imprescindível para atribuição de faustico ou de um tipo faustiano ao Conselheiro Aires.

Um dado que apontamos como antinômico faustiano da trajetória de Aires decorre da própria organização do material, ou seja, aquilo que notamos nos seis cadernos manuscritos que resulta no Memorial..., e um sétimo caderno intitulado de “Último” cujo conteúdo seria a narrativa de Esaú e Jacó.

Ora, segundo uma ideologia faustica o sentido trágico da busca de Fausto reside em encontrar a totalidade do conhecimento pautado na subjetividade e erudição, no entanto detectamos que a busca de Aires está na associação do ambiente social vivenciado por ele próprio e explicitado nos tais cadernos.

Consideramos, pois, que habitam neste espaço hegemônico que é o literário, a forte tensão ou oposição entre no duplo local-universal, o insípido e o sedutor e, sobretudo a pachorra de uma classe conservadora pequena burguesa incipiente diante de um estado de transformações políticas significativas. É nesse horizonte de nação em formação que notamos um conjunto cujos componentes se encontram numa oposição irreconciliável, ou seja, diante dessa totalidade evidencia-se o trágico, o antinômico, que só pode desaparecer quando ocorre uma harmonização dos opostos.

A impossibilidade de conciliação das diferenças, na ordem do individual e do coletivo leva-nos a identificação do anseio faustico de superar o estado de desfaçatez social e política institucionalizada de modo antinômico em Aires. Entendemos que acomodação e omissão política de Aires atingem o plano dos interesses multifacetados num horizonte de nação, dos quais a marca de irresolução e abertura dialética encontra- se em Esaú e Jacó e no Memorial..., de tal modo que se houvesse alguma solução para as contradições aí presentes o próprio espírito faustico estaria negado.

Se em Esaú e Jacó as posições política imperialista e republicana testemunhadas por Aires são imperfeitamente irrealizadas, no Memorial... a atração pelo feminino que poderia amenizar a “danação” de Aires não é alcançada.

Assim, dois traços merecem ser destacado em nossa proposição de tese: primeiramente que o adjetivo faustico, na esteira do mito literário que atinge um ápice em Goethe, se associa ao temperamento de Aires que parte de um necessário esforço

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individual como fator de libertação 214; em segundo lugar, a notável antinomia que ocorre na omissão política e conveniência por parte de Aires em decorrência de seu status social representativo. 215

Não obstante, Aires representa um sintoma, mas também uma recusa do sistema hegemônico burguês. Mesmo em sua condição de pequeno burguês o conflito fáustico caracteriza-o, na medida em que o sossego de sua aposentadoria diplomática e os hábitos sociais de conveniência é colocado em dúvida justamente em seus escritos que denotam um distanciamento do social, mas que também se encontra entranhado e de maneira insolúvel no mesmo.

Neste ponto podemos mencionar o já aceito e consagrado estilo irônico machadiano, que por isso mesmo percebemos uma realidade brasileira que seria fruto de inevitáveis contradições.

Ao chamar atenção do realismo literário em Machado de Assis, é justamente por que em Esaú e Jacó e no Memorial... a voz de Aires nos parece sempre nos falar de algo inevitável, e de uma forma que nunca fora dita na literatura brasileira, até então. Trata- se de uma ignorância da dimensão cultural, social e política relacionada a nossa origem, em termos nacional ou nacionalização por parte das classes hegemônicas.

Este problema é considerável no ambiente de Aires, mas que ao ser expresso por ele parece estar num lugar em que a desfaçatez se sobrepõe, optando por não notar. Este aspecto conflitante se dá no romance machadiano de maneira acentuada e definidora, e de um modo geral torna-se explicita no próprio gênero romance cuja estrutura dada do objeto aponta para a intenção da configuração.

214 Não obstante, o destino do Fausto de Goethe ser a redenção ao invés da condenação, o escritor alemão

considerava que na poesia existe sem dúvida algo de demoníaco, sobretudo no inconsciente, donde razão e entendimento se antepõem permitindo assim trabalhar com os conceitos. Isto relaciona com o demônio do poder que para Goethe era sempre malvado, e ainda na política – assim como o amor – a invocação do demoníaco era a última palavra dita sem rodeios. O demoníaco seria outra palavra para o destino e quando se fala neste, estamos no âmbito do trágico. (Cf. Walter MUSCHG, 1996, P. 72)

215 “Os heróis nacionais podem ser objetos de admiração, de veneração patriótica...”. Jayme MASON, O

Dr. Fausto e seu pacto com o demônio, p.11. Definitivamente, este não é o caso de Aires, Em sua condição de personagem, assim como outros personagens machadianos, têm o polimorfismo como traço característico, ou seja, não sendo apenas omisso, conformista ou resignado politicamente, mas é também polido e cortês em sua conduta, inspira confiança, e ainda possui a idoneidade de “conselheiro” para além do cargo com status de ministro que exerceu no governo do país. A complexidade de Aires reside na tensão entre suas aspirações burguesa conservadora e sua irrevogável origem periférica.

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Se não há de fato uma epopéia brasileira é justamente através do romance e sua historicidade como tal, que podemos descobrir e construir um ponto de vista crítico, através da forma literária, de uma totalidade oculta da vida nacional em seu contexto histórico social. 216

Notamos que perpassa na trajetória de Aires, nos dois romances machadianos, uma tensão relacionando o ideal cultural do autodesenvolvimento e a tendência permanente rumo a um desenvolvimento econômico. No primeiro caso pode-se apontar o destino de Aires em conformidade com um sentido de nação, e em seguida uma desfaçatez diante da disparidade e interesses de afirmação sócio-econômica por parte da classe social cujo comportamento do Conselheiro revela desatenção ou descrença política.

Salientamos, pois, que a omissão num sentido conformista e de resignação política, não faz do cordato Aires particularmente um corrupto. De um modo geral, o que se percebe na situação é um estado de permissividade ou desfaçatez, acobertamento de interesses de classes e a conivência instalada em toda sociedade, Aires neste caso se manifesta como um estímulo e reflexo para uma crítica histórica. Neste sentido, poderíamos depreender que Aires não possui a característica que o aproximaria do mito

fáustico, mais propriamente do Fausto de Goethe.

Em se tratando deste ultimo, a ambição não conformista é justamente o elemento que rompe barreiras, e por meio da sedenta aspiração de saber, quer compreender e desvendar a totalidade das coisas, tendo a si mesmo como empreendimento e experiência de realização. No entanto, em Aires observamos a inquietação faustiana que o leva a sublevar-se através de seus escritos, que resultam como literários. É o que verificamos respectivamente nas anotações do Memorial... datadas de 21 e 24 de agosto de 1888:

“Não quero acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos cansados, acaso doentes, e não sei se continuarei este diário de fatos, impressões e idéias. Talvez seja melhor parar. Velhice quer descanso (...).

Qual! Não posso interromper o Memorial; aqui me tenho outra vez com a pena na mão. Era verdade, dá certo gosto deitar ao papel cousas que querem

216 Adorno defende um gênero romance que seja reconhecido como uma epopéia negativa. Pois considera

insatisfatória qualquer alternativa de arte engajada ou encomiástica e arte como divertimento na modernidade. (Cf. Kothe, 1978, p. 165).

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sair da cabeça, por via da memória ou da reflexão (...). Desta vez o que me põe a pena na mão é a sombra da sombra de uma lágrima...” 217

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PARTE III

O PONTO DE VISTA CRÍTICO LITERÁRIO PARA

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