7. Innovasjoner og Utdanning
7.3. Det Deichmanske bibliotek, Lyche som agitator til forandring
Apontamos como necessário refletir acerca dos adjetivos faustiano e faustico, para elucidarmos a atribuição que dedicamos ao Conselheiro Aires. As questões que envolvem o pacto demoníaco, o trágico em relação a danação de Fausto, bem como o sentido de modernidade em que tratamos o personagem machadiano, devem favorecer ao entendimento da nossa proposta.
A via antinômica faustiana deverá ser detectada na arte literária moderna a partir de um tratamento dialético materialista histórico, que reconhece no próprio texto, no caso Esaú e Jacó e o Memorial de Aires, as ambigüidades ou contradições correlacionadas com a realidade brasileira.
Naturalmente não há aí pretensão de um julgamento integral da cultura brasileira, nem de chegar uma conclusão geral e definitiva sobre o assunto. Mas, sim de uma investigação desenvolvida a partir das antinomias de Aires que em nosso entendimento revelam as contradições que tem o alcance de um projeto nacional.
A referência mítica do Fausto deve favorecer a uma compreensão das contradições da modernidade. É o caso da civilização burguesa em que situamos Aires como o representante pequeno burguês de uma nação periférica, que por sua vez possui uma classe urbana insipiente com as pretensões da comodidade, de poder e bem estar social.
Não tratamos de fazer uma mera analogia entre Aires e Fausto, mas de um confronto que busca definir um preço que Aires paga por omissão, no sentido de conivência, e inapetência pelas questões políticas em que está inserido. Deste modo, Aires como personagem e narrador, ele próprio fruto da criação artística torna-se problemático justamente porque a realidade em que ele se encontra e reflete, transparecem funcionar em cômodas certezas ou de maneira não duvidosa.
É considerável, que em seus dois últimos romances Machado de Assis tenha dado uma dimensão incomum a um personagem como Conselheiro Aires. Saído da cumplicidade com o narrador onisciente de Esaú e Jacó218 passa a ser o comentador dos episódios do Memorial... “Cabide de idéias, dos pessimismos tolerantes, da espécie de
218 Ressaltamos que em nossa proposta essa cumplicidade com o narrador onisciente por parte de Aires é
uma máscara que identificamos como propriamente faustiana utilizada por ele próprio (Aires). Deste modo, consideramos Aires como o escritor ficcional dos dois últimos romances machadianos.
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filosofia do romancista (...)”, Aires parece herdar os sentimentos que para o autor só existem pela sua expressão social ou como o desdobramento que já identificamos como duplo faustiano.
“Ele não acredita no amor, mas crê no romanesco, e a amizade, por exemplo, apresenta-a como um cultivo delicado e inteligente de egoísmo, condição de sociabilidade”. (Cf. Pontes, 1939, p. 279). É notável que tenha sido justamente no gênero romance que a prosa de Machado de Assis tenha atingido a excelência e sua consagração como escritor. 219
Quando sugerimos o adjetivo faustiano identificando uma trajetória na literatura moderna, não obstante a ousadia da proposta trata-se de pleitear um modo de tratar as contradições inerentes à arte na modernidade. Para tanto, o mito de Fausto nos serve de baliza para um reconhecimento da modernidade, que entendemos como antinômica em sua própria origem.
De acordo com João Barrento, faustiano nos serve para referir primeiramente à figura histórico-lendária e depois literária, que caracteriza o temperamento por um lado de neutralidade e por outro o que há de mais negativo. 220 Neste caso, consideramos o mito de Fausto como originário e fundante das questões modernas que envolvem um sistema de crenças e o questionamento deste mesmo sistema.
Verificamos, pois, que o Fausto trata-se de um mito que começa ser narrado depois de uma experiência vivida, uma história que aconteceu e depois foi contada. 221 Segundo Ricoeur, é certo partir do pressuposto de que o mito quer dizer uma outra coisa para além do que diz, ou seja, que se trata de uma alegoria. Porém, deve-se observar que o mito vem a ser “uma narrativa instauradora porque conta a história de como uma realidade passou a existir” (Cf. Ricoeur, 1988, p. 11).
219 Lukács, contrapondo Hegel em sua Teoria do Romance, nos faz notar que na modernidade: “a
problemática da forma romanesca é a imagem especular de um mundo que saiu dos trilhos. Eis porque a „prosa” da vida é nela um mero sintoma, entre muitos outros, do fato de a realidade não constituir mais um terreno propício à arte; eis por que o acerto de contas artístico com as formas fechadas e totais que nascem de uma totalidade do ser integrada em si, com cada mundo das formas imanentemente perfeito, é o problema central da forma romanesca. E isso não por razões artísticas, mas histórico-filosóficas: Não há mais uma totalidade espontânea do ser”. Tal assertiva é “primordialmente de natureza social, não estético- filosófica”. Georg LUKÁCS, A teoria do romance, p. 14.
220 João BARRENTO, A ideologia fáustica e o homem fáustico, pp. 199-201.
221 Mesmo em se tratando de uma cultura verbal antiga, com o passar do tempo algumas histórias vêm
assumir uma importância central e canônica. De acordo com Northrop Frye, em dado momento passa-se a acreditar que essas histórias realmente aconteceram, “(...) ou ainda que explicavam ou relatavam alguma coisa da sociedade, da religião ou da estrutura social. Estas história são ou se tornaram (...) fábulas verdadeira ou mitos” (Fry, 1973, p. 34).
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É importante salientarmos que o Fausto surge como acontecimento em pleno humanismo renascentista europeu, que entre outras características trazia as primeiras conquistas da ciência moderna e a renovação das concepções políticas.
Sem desconsiderar que o mito de Fausto se consagra no século XVI europeu, através de um livro popular Johan Spies222, ressaltamos que se observarmos somente a semelhança de forma entre o mito e conto popular, nosso acesso à literatura moderna não passaria de um mero estruturalismo. (Frye, 1973, p. 35). Porém, como observamos o mito de Fausto como um substrato identificado com a modernidade, de acordo com Frye, este se cristaliza no centro da cultura. Neste sentido, forma-se um “(...) círculo mágico e uma literatura se desenvolve historicamente no interior de uma órbita limitada de linguagem, referência, alusão, crença e tradição transmitida e compartilhada”. (Cf. Frye, 1973, p. 35).
Tratamos, pois do aspecto literário do mito de Fausto em Machado de Assis, na medida em que a cultura moderna se desenvolve. Neste caso, o mito tende a se expandir numa totalidade que envolve uma visão da sociedade em seu passado, presente e futuro.
223 Neste caso, antecipamos de acordo com Adorno que o mito trata-se de um produto
humano e como tal é fruto do esclarecimento, que seria a radicalização da angústia mítica. 224
A temática faustiana por sua vez seria alusiva ao contra-senso, o condenável, seja num sentido religioso, moral ou político, e que amplamente diz respeito a um significado que antecede e ultrapassa o consagrado Fausto de Goethe. Neste sentido, sustentamos que própria situação de Esaú e Jacó e do Memorial... , abre uma possibilidade para atribuição do adjetivo faustiano ao personagem Aires temporalmente localizado na obra machadiana.
Entrementes, pode-se admitir um cunho ideológico para o termo faustiano. Barrento chega a apontar dialeticamente uma dimensão mítica para o caráter faustiano
222 Trata-se de um autor controvertido que seria “popularizante, mas não popular ele mesmo”. Uma outra
referencia é a de que Spies foi um “(...) autor culto e religioso que estaria escrevendo para públicos populares, a serviço da pregação da Reforma”. (Ferreira, 1995, p. 101).
223 Consideramos que o Fausto trata-se de um mito completamente desenvolvido ou enciclopédico, e
como tal encerra todas as coisas de que a sua sociedade tem necessidade de saber. Frye designa a esse tipo de mito como “mito de interesse”. (Cf. Frye, 1973, p. 35).
224Adorno enfatiza que: “Enquanto totalidade desenvolvida linguisticamente, que desvaloriza, com sua
pretensão de verdade, a crença mítica mais antiga: a religião popular, o mito patriarcal solar é ele próprio
esclarecimento, com o qual o esclarecimento filosófico pode-se medir no mesmo plano (...). A própria mitologia desfecha o processo sem fim do esclarecimento (...).” (sic!) (Adorno, 1985, p.26).
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que antecede ao próprio Fausto histórico. Isto é, “(...) na estreiteza maniqueísta da nossa tradição judaico-cristã, o Livro do Gênesis é, afinal, o primeiro testemunho e um espírito fáustico (...)”. 225 Adão seria uma espécie primeiro Fausto por cair na tentação
da serpente demoníaca por seu desejo de conhecer o bem e o mal. (Cf. Barrento, p. 199.).
Neste âmbito, apontamos que numa alusão faustiana voltada para o Conselheiro Aires, o mítico e o lendário que dizem respeito ao Fausto ordena o assunto. E de acordo com Auerbach, “(...) de modo unívoco e decidido, destacando-o de sua restante conexão com o mundo, de modo que este não pode interferir (...)”. (sic!) (Auerbach, 2007, p. 16).
Já a designação fáustico se relacionaria diretamente com nosso objeto de pesquisa, o homem Aires de Esaú e Jacó e do Memorial... Procuramos a humanidade de Aires nos matizes que ora chega ao mais brilhante, ora ao mais opaco. Sua ambigüidade nos remete a uma espécie de maniqueísmo latente, em que o bom e o mal, perfeito e imperfeito não são identificáveis na medida em que sua feição chega a ser desinteressante em boa parte de ambos romances, sobretudo em um modo leitura acrítico.
Por isso mesmo Aires não nos transparece ter a importância de um herói nacional, mas sim que assoma ao nosso juízo a uma identidade reconhecível, familiar a uma classe social proeminente no Brasil justamente por sua posição política. Deste modo, entendemos que a via faustiana e somente por ela, leva a compreensão de Aires como fáustico.
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3.2- A CUMPLICIDADE DO DUPLO FAUSTIANO PERIFÉRICO COM SUA