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Den ideale politikeren

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8. Samfunnsutvikling og politikk

8.1. Den ideale politikeren

Um ponto de vista que nos ampara na sustentação teórica de um perceptível desencantamento do mundo presente na obra machadiana, pode ser uma alusão à idéia de que as obras de arte são promessas através da sua negatividade. Adorno aponta como um paradoxo de toda arte moderna, o fato dela adquirir na mesma medida aquilo que ela própria rejeita. E conclui com a noção de que, a arte ao renunciar o encantamento mágico, ainda assim o realiza. (Cf. Adorno, 1970, p. 157).

Surge-nos a partir daí, o entendimento de que o próprio Aires desponta em Esaú

e Jacó e no Memorial... como um sintoma (personagem machadiano) e ao mesmo tempo uma recusa (escritor ficcional) do sistema sócio-cultural, político e econômico então vigente. O conteúdo de seus cadernos escritos traz ao mesmo tempo, a experiência de um ponto de vista em que se assoma, por um lado, o testemunho histórico e a conivência com a situação, e por outro lado a ambição criativa e a necessidade de retratá-los.

A acepção em que tratamos tais aspectos envolvendo sintoma e recusa, em relação à literatura que identificamos a antinomia faustiana, remonta à concepção freudiana desses termos. Tal referencial nos auxilia na compreensão de que a obra literária de ficção, como a arte, pode ter a psicanálise como uma aliada da fantasia e dos desejos reprimidos.226 Neste sentido, a noção de sintoma trata-se de um indício que aponta para uma situação conflitante, cuja origem remonta a um passado do qual o sujeito não guarda uma lembrança consciente.

Uma das feições que detectamos como antinomia faustiana na proposta da tese, se manifesta sob forma de uma angustia que reside no impasse político diante dos

226 Salientamos, neste ínterim, que a busca de Freud para o estabelecimento da psicanálise (entre 1897-

1898) nos interessa de perto, no sentido que envolve, entre outras experiências: a descoberta da “plasticidade do material verbal”, que por sua vez “... permite a irrupção do reprimido nas neuroses obsessivas”. Questiona-se, pois, a “... polissemia da linguagem comum, muito adequada para reunir as representações mais díspares num termo com dupla significação”. (Cf. Mezan, 1985, p. 207). E ainda o que se passou a se denominar como “solo freudiano”, ou seja, o que diz respeito à interpretação dos sonhos partindo de uma identificação com Goethe. Simbolizando uma certa postura frente à Natureza, seria a figura do poeta “... quem dirá sobre ela uma verdade que fará (...) da poesia o discurso de um saber último”. Assim, podemos notar que nos pressupostos filosóficos fundamentais de Freud legitima-se “... a dupla assimilação de si mesmo ao criador da obra de arte e ao cientista “exato”, cujo modelo está em Goethe na relação entre “Poesia” e “Verdade”; sua obra as colocará numa nova relação, em que o efeito poético (o „beneficio do prazer‟...) nasce do movimento que instaura a verdade na dimensão da singularidade mais absoluta e ao mesmo tempo a inscreve nas determinações universais do psiquismo humano (...)”. (Mezan, 1985, p. 211).

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acontecimentos históricos, que definem a questão da nação brasileira e que são retratados por Aires. Ele próprio, Aires, representa a omissão e conivência política de sua classe.

No entanto, em seu esforço de retratar uma situação que diz respeito a si mesmo, Aires se recolhe na condição de escritor ficcional. Notamos neste ponto, uma recusa, uma negação, que segundo Freud “(...) permite uma certa enunciação da tomada de consciência do recalcamento...”, sem que ele mesmo como sujeito “... aceite seu conteúdo – separação da função intelectual do processo afetivo”. (Cf. Kaufmann, 1996, p. 356).

Na esfera em que tratamos o Aires de Esaú e Jacó e do Memorial..., ou seja, em se tratando de uma danação faustiana em função de um duplo machadiano e do seu desdobramento em outros duplos, a leitura dos cadernos manuscritos os propõe pelo menos dois aspectos, que se estende ao apelo histórico brasileiro que está na obra machadiana.

Por um lado, ela prende pelo seu feitiço, mas outro lado, por se manter num constante ritmo cotidiano e insípido não é comovente. Neste ínterim, Mario Matos nos faz notar que tal leitura não alegra e nem pacifica e, por sua vez não satisfaz “... as ânsias ou aspirações do espírito”. Segundo Matos, haveria aí “(...) qualquer coisa que enjoa, que faz aborrecer a vida. Dá tédio, infunde melancolia. Aviva certa inquietação, maus pressentimentos. Cousas, afinal ...” 227

Desta forma, no desdobramento e diálogo constante com os personagens que inventa, Aires traz a baila os recalques, antigos desejos, permanecidos no inconsciente, mas que podem ser detectados em seus substitutos ou rebentos, ou seja, os próprios sintomas. Aires torna-se neste caso, uma testemunha chave de uma situação que pode ser bem pior do que a que está sendo representada. 228

227 Cf. Mario MATOS, Machado de Assis, contador de historias, 1997, p. 18.

228 De fato, a teoria do recalcamento é central para as questões de psicanálise. Trata-se de imagens,

pensamentos, lembranças, traumas ou situações vivenciadas numa experiência remota, que estão diretamente relacionadas a uma pulsão não realiza pela incompatibilidade em relação às exigências morais. Num primeiro momento Freud leva em conta apenas “... os aspectos dos processos que diziam respeito ao eu...”, que como tais permaneciam no inconsciente, e daí a formação de sintomas. Posteriormente seu interesse se volta para os destinos do recalcado, considerando que o mesmo não subsistiria “... de uma forma inalterada e inalterável”. Freud então atesta que seja absolutamente “... necessário que os antigos desejos recalcados permaneçam ainda no inconsciente, já que encontramos seus rebentos, os sintomas, ainda ativos, „vivazes‟”. Cf. Pierre KAUFMANN, Dicionário enciclopédico de

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Em meio à arrancada e desenvolvimento da modernização ocidental decorrente da ambição faustiana, e que também envolve a questão nacional, deve-se levar em consideração o processo simultâneo de uma gradual reificação. Observamos, pois, que este seguimento tem sua gestação no próprio comportamento e na influência da classe burguesa no ocidente. 229

Levamos em conta que a expansão colonizadora européia da qual o Brasil é fruto, surge de um projeto maior que se confunde com a ascensão e expansão do capital. Neste sentido, admitimos o viés de interpretação que discorre sobre a evolução histórica da civilização ocidental como um processo milenar de desencanto do mundo, e de racionalização, o qual se pode perceber na própria obra machadiana com o questionamento em relação ao projeto nacional.

Todo o desenrolar da modernidade com a influência e dominação por parte da mente burguesa, encontra sua finalização e apogeu no mundo industrial e burocrático moderno. A racionalidade que daí triunfa é o universo da mercadoria capitalista, na indústria cultural e no Estado burguês que é puramente formal e instrumental, indiferentes com as direções e finalidades da ação. As conseqüências para uma nação periférica insipiente não seria apenas a redução de tudo a quantidades abstratas, mas a destruição dos deuses, dos espíritos mágicos e de todas as qualidades. 230

No caso específico do Brasil do século XIX em meio às aspirações de um projeto nacional, esta questão diz respeito diretamente a uma periferia da modernidade, com sua classe dominante com anseios pequeno – burgueses. 231 Trata-se de levar em

229 Neste ínterim, reconhecemos as categorias de consciência de classe e reificação desenvolvidas

paralelamente por Lukács. Em nossa pesquisa em que tratamos da desfaçatez do olhar do Conselheiro Aires diante dos acontecimentos históricos e de sua entrega às vicissitudes cotidianas, as noções de consciência de classe da burguesia, falsa consciência da sociedade capitalista (respectivamente incipiente e embrionária no ambiente nacional experimentado por Aires), deve ser considerada o domínio absoluto ou favorável da reificação. Tal reflexão é notável quando Lukács menciona a “(...) estrutura puramente

post festum da consciência burguesa reificada e meramente contemplativa.”. (Cf. Lukács, 2003, p. 559).

230 O diagnóstico pessimista da sociedade moderna esboçado pelos filósofos frankfurtianos, Adorno e

horkheimer, inspirada numa perspectiva marxista-lukácsiana e na esteira de Weber (que se esforçou para estabelecer uma constatação neutra, objetiva e resignada), nos interessa pela sua radicalidade. A denuncia radical ao processo de reificação (coisificação), atrelado a expansão e dominação do capitalismo moderno empreendido por uma razão calculadora (Aufklärung), permite-nos o entendimento e um discernimento crítico em relação ao subdesenvolvimento e o capitalismo dependente das nações periféricas. (Cf. Lowy, 1995). Consideramos que a obra machadiana já nos oferece pistas sobre os efeitos da dependência cultural, político-ideológica da nação brasileira.

231 Schwarz nos faz notar que, “(...) a gravitação cotidiana das idéias e das perspectivas praticas é a

matéria imediata e natural da literatura, desde o momento em que as formas fixas tenham perdido sua vigência para as artes. Portanto, é o ponto de partida também do romance, quanto mais o romance realista”. Neste sentido, Schwarz acrescenta que uma ambivalência própria de nações periféricas, como no caso do romance no Brasil, se dá pelo fato de, “(...) a nossa imaginação fixara-se numa forma cujos

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consideração as cunhagens intelectuais que refletiam “(...) a disparidade entre a sociedade brasileira, escravista, e as idéias do liberalismo europeu”. O que Schwarz irá sintetizar como a elaboração de uma “comédia ideológica, diferente da européia”. (Cf. Schwarz, 2000, p. 12).

O espaço de acontecimentos em que Aires testemunha como escritor, tanto em

Esaú e Jacó (1904) quanto no Memorial... (1908), é o de um país que traz a herança colonial e um horizonte de nação, caracterizado pela transição da monarquia para a república e a afirmação de sua classe social dominante. Depreendemos que daí irá resultar num nível de atraso com relação a difusão cultural brasileira. Em meio a essa caracterização complexa atentamos para o processo de modernização inevitável e suas conseqüências sócio-culturais, econômicas e políticas num país periférico como o Brasil.

Na relação Aires – Machado e vice-versa identificamos o escritor e o artista

faustiano cuja obra serve de alegoria de um destino político que designamos como demoníaco, em se tratando do período histórico que aponta para um processo de modernização brasileira e a afirmação do capitalismo burguês. Ora, Machado de Assis nos parece sugerir através de Aires as noções de burguês e burguesia no contexto brasileiro do século XIX, um período central para a definição de um destino cultural, político e econômico da nação.

Há neste contexto um ponto de vista da encruzilhada que nos sugere a antinomia

faustiana de que tratamos, ou seja, o encontro entre dois mundos, o que se desfecha (segundo Império) e um outro que sobrevêm (a Republica). De acordo com Faoro, os valores de um não são o do outro e as regras de conduta se partem entre vazias para quem olha para trás, e incertas para quem vislumbra a hora que soa. Tudo isso ainda obscurecido ou turvado por uma melancolia. (Cf. Faoro, 1974, p. 03).

Faoro é categórico ao mencionar que a sociedade na obra machadiana é abundada de figuras dominantes. Todos eles, entre “(...) barões e capitalistas, conselheiros e banqueiros, comendadores e comerciantes (...), estão para quem olha de longe, no ápice da pirâmide, confundidos e misturados, como se fossem membros de uma só confraria”. (Faoro, 1974, p. 04). Por trás destas referencias, ocorre uma nítida estrutura de classes sobre outra estrutura de titulares, encobrindo-a e esfumando-lhe os

pressupostos, em razoável parte, não se encontravam no país, ou encontravam-se alterados”. (Schwarz, 2000, pp. 30 e 35).

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